Shalon’s

…em construção…SEMPRE!

BOAS NOTÍCIAS (…)

Manjedoura e Palácio

 

Todo ser humano busca ser feliz, deseja prazer e realização com a vida. A grande realização da vida humana é ser gente na sua forma mais plena e completa. A infelicidade, de um lado, consiste na constatação de que falta algo essencial e básico para se viver. De outro lado, pelo discernimento inteligente de que existem excessos superficiais e ilusórios.

A infelicidade humana se manifesta na medida em que suprimimos o que lhe é próprio ou acrescentamos o que lhe é desnecessário. A realização humana consiste em viver para cumprir a vocação plena de ser gente. O ser humano é feliz quando cumpre o propósito para o qual foi criado.

Qual a nova de grande alegria?

Havia entre os judeus uma esperança, e mesmo que, percebida parcialmente, era uma esperança. Aguardavam um rei, politicamente identificado com o trono de Davi. Sonhavam com uma estabilidade política e econômica com a chegada do Messias. Esperavam que ele viesse para destruir a hegemonia e dominação dos romanos sobre o povo hebreu. Tinham expectativas baseadas nas relações de dominação e dependência. A diferença era apenas de inversão dos papéis de dominação. Mas, o paradigma era o mesmo. Não era, portanto dessas expectativas, desses acréscimos que os anjos estavam falando. Dominação não gera a grande alegria anunciada pelos anjos. Então, qual a nova de grande alegria?

Deus estava se manifestando na história como nunca. De várias maneiras havia tomado a iniciativa de se comunicar com os seres humanos. “Havendo Deus outrora falado de várias maneiras aos pais pelos profetas, nos últimos tempos nos falou pelo seu Filho a quem constituiu herdeiro de todas as coisas”. (Hebreus 1.1-4). Todas as outras comunicações foram parciais e limitadas. Entre os hebreus a manifestação de Deus acontece nas ambigüidades militares, na infiltração de um paganismo primitivo que confunde Deus com as divindades carentes de holocaustos, dependente de trocas de favores, uma religiosidade sem misericórdia com os portadores de deficiência física, com as mulheres, com o estrangeiro.

Na Manjedoura de Belém há uma presença suficiente – uma criança envolta em panos, nascida numa família de pouco prestígio social, pais sem uma conta bancária que se possa fazer referência relevante. Era somente, e suficientemente, a presença ambulante de Deus. Ele mesmo transitando entre os seres humanos, vivendo a possibilidade plena de nossa humanidade. Uma evidência real da imagem e semelhança de Deus expressava-se na pessoa de Jesus Cristo. Paulo afirma: “Ele é a expressão exata de seu SER” (grifo nosso – Paulo referia-se ao ser de Deus).

Os anjos trouxeram uma grande notícia: “… é que hoje vos nasceu,(…) salvador…(Lucas 2.11)
A humanidade de Deus é a grande boa-nova. A possibilidade da quebra do dualismo grego: divindade versus humanidade. Em Jesus se podia identificar a essência de ser gente – Deus estava nele, ele estava em Deus.

Era um combate a todas as formas de imperialismo: não era mais uma divindade a serviço dos caprichos de dominação militar na cultura de um povo. O Cristo da manjedoura houvera chegado para servir, salvar, sofrer e padecer. Na narrativa joanina era a notícia de que Deus habitou entre nós cheio de graça e de verdade e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (João 1. 14).

Era a possibilidade de se observar alguém vivendo do jeito mais comum semelhante a maioria das crianças do mundo. Quando falamos que vivia em função da vida e acolhia as crianças desprezadas, incluía no seu ambiente as mulheres à margem da sociedade, estamos apenas enfatizando que este era o seu ambiente mais corriqueiro. Atendia com amor as demandas dos estrangeiros que lhe procuravam por socorro, os pecadores foram acolhidas, as mulheres incluídas no projeto. Um novo Ser – pleno pela sua singularidade, exclusividade, por se permitir ser possuído apenas de si mesmo e nada mais, e assim desfrutar a chance de, em apenas 33 anos e meio, viver a plenitude de sua humanidade. Toda espiritualidade precisa estar marcada pela expressão singular de cada ser em suas particularidades e desenvolvida pelo modelo do Jesus de Nazaré.

A alegria de uma nova comunidade – composta de mulheres, crianças, homens trabalhadores – José ou os pastores, também, alguns curiosos orientais – os magos do Oriente, o idoso Simeão, a anciã e profetiza Ana, que inspirados por vozes fora da rotina, se enchem de esperança, a despeito da dor e sofrimento que hão de vir.

As crianças são prioritárias na espiritualidade dessa nova comunidade. Elas trazem em si a alegria natural da vida. As mulheres possuem uma sensibilidade aguçada e anunciam, antes que qualquer macho, a gestação da vida. Elas percebem no silêncio da alma, que fora do útero, as crianças pobres estão mais próximas do calvário. Mas aprenderam também que a morte vem despertando a semente da ressurreição, geradora de outras sementes em vida.

A espiritualidade de Jesus esta marcada e ilustrada pela alegria e des-res-peito das crianças. De crianças de peito e do peito delas Deus suscita perfeito louvor. Os adultos, burocratizados pelos esquemas da religião não conseguem entender o perfeito louvor das crianças.

As mulheres sensíveis de gestação entendem a comunicação de uma criança ainda no ventre. Os mais pobres entre os pobres são mais sensíveis as precariedades e singeleza da vida. Uma espiritualidade, que procura imitar a espiritualidade de Jesus, passa também por outros caminhos -, mas obrigatoriamente – passa pelo caminho da criança, da mulher e dos pobres em comunidade.
As experiências de Jesus Cristo, e toda a primeira geração dos que viveram e conviveram com Ele sinalizam a possibilidade de outras comunidades invadidas ou batizadas pelo Espírito Santo. As comunidades de Jesus Cristo, em outras gerações, são sociedades alternativas, marcadas pela comunhão do Espírito, fraternidade da justiça, permanente prática do amor, fertilizada pela alegria, e aperfeiçoada pelos instrumentos da paz.

Um novo Reino, utopia e sonho dos novos cidadãos – os considerados não-gente na sociedade dos “de fora”. Eles desfrutam e manifestam uma experiência comunitária possível, baseada nos ensinos de Jesus Cristo. Desfrutam o Reino de Deus inaugurado pelo Jesus de Nazaré e pela sua comunidade de discípulos e discípulas. Reino que tem sido vivido e anunciado pelos seguidores de Jesus Cristo, através dos sinais de confrontação de poderes antagônicos e luta pela justiça paz.

Reino de Deus, que por vezes manifestou-se no cristianismo histórico, outras vezes fora dele, outras vezes contra ele. Nem todos que conhecem sobre o Reino de Deus desfrutam-no, como também, nem todos que desfrutam-no conseguem interpretá-lo; todavia, como neste reino o importante é a prática e obediência, quem vive e pratica o Reino de Deus é mais prudente do que quem conhece e engana a si mesmo. Entre os pobres, principalmente, o reino de Deus, quando vivenciado, é mais desfrute do que explicação racionalista.

A nova espiritualidade com os olhos no Reino de Deus e os pés fincados na terra tem o potencial de redirecionar as esperanças para uma vida digna. O cuidado com toda as dimensões da vida. A longevidade é uma dádiva de Deus. Quando a humanidade interrompe a vida das pessoas por causa do egoísmo, acumulação de bens, injustiça está afrontando o Deus da Vida. As comunidades de Jesus necessitam buscar uma espiritualidade marcada pelo resgate da dignidade humana, incluindo o direito a cidadania, receber um nome – ele será chamado Jesus, direito a uma família, direito aos espaços culturais de seu povo, direito a proteção – habitação digna, vestimentas como forma de proteção, alimentos suficientes para preservação da vida, formas de organização social justa que expressem fraternidade, oportunidade de vida digna para todos. Desfrutamos dessa realização quando somos salvos de nossa desumanidade; e isto só é possível quando resgatamos uma espiritualidade marcada pela vocação de ser gente, que descobre nos espaços coletivos a vida abundante para todos.

1. Uma boa-nova que provoca fascínio e encantamento. “Todos os que ouviram se admiraram das coisas referidas pelos pastores” (v 18). Precisamos acreditar nas coisas que provocam maravilha – “mirar-vale!”.

2. Uma boa-nova que nos tire do imobilismo e discernindo o caminho do projeto de Deus. “Vamos… e vejamos…”. Não basta ser ativista. Não precisamos simplesmente visitar uma criança envolta em panos rotos. Precisamos fazer a coisa certa. Há uma grande diferença em se fazer corretamente, e fazer corretamente a coisa correta.

Não basta ir a manjedoura, precisamos discernir também o momento de nos desviarmos do caminho que leva ao fascínio pelo palácio. Há um conflito sempre estranho entre a manjedoura e o palácio.

Os magos do Oriente mudaram a rota: vieram pelo palácio, conversaram com Herodes, mas mudaram a rota depois do encontro com o Menino na manjedoura. (Mateus 2. 1-12).

3. Uma boa-nova que promova a paz e glorifique a Deus (v 14 e 20). Precisamos resgatar uma espiritualidade e uma devoção capazes de motivar homens e mulheres a glorificarem a Deus pelas coisas fora dos holofotes e dos palcos. Há ainda muita ação de Deus nas galiléias dos gentios, há outras nazarés e muitas belens – todas pequenas demais para figurar entre as muitas expostas na mídia. São sinais perceptíveis pelas discretas Anas, por pobres trabalhadores noturnos. Eventualmente aparecem nas estatísticas, outras vezes em testemunhos isolados, mas são ainda sinais de esperança. É voz de uma criança – começa no ventre da mãe, depois torna-se uma voz no deserto – no deserto, mas era a voz de quem clama e anuncia o Caminho do Senhor.

FELIZ NATAL!

26/12/2013 Posted by | Igreja, Liderança, Politica Nacional, Psicologia, Teologia, Textos | Deixe um comentário

“MODERNIDADE LÍQUIDA”

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O sociólogo polonês radicado na Inglaterra Zygmunt Bauman é um dos intelectuais mais respeitados e produtivos da atualidade. Aos 84 anos, escreveu mais de 50 livros. Dois dos mais recentes, “Vida a crédito” e “Capitalismo Parasitário” chegam ao Brasil pela Zahar. As quase duas dezenas de títulos já publicados no País pela editora venderam mais de 200 mil cópias. Um resultado e tanto para um teórico. Pode-se explicar o apelo de sua obra pela relativa simplicidade com que esmiúça aspectos diversos da “modernidade líquida”, seu conceito fundamental. É assim que ele se refere ao momento da História em que vivemos. Os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Disso resultariam, entre outras questões, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranóia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas. E cada um por si. “Nossos ancestrais eram esperançosos: quando falavam de ‘progresso’, se referiam à perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. Nós estamos assustados: ‘progresso’, para nós, significa uma constante ameaça de ser chutado para fora de um carro em aceleração”, afirma. Em entrevista à ISTOÉ, por e-mail, o professor emérito das universidades de Leeds, no Reino Unido, e de Varsóvia, na Polônia, falou também sobre temas que começou a estudar recentemente, mas são muito caros aos brasileiros: tráfico de drogas, favelas e violência policial.

O que caracteriza a “modernidade líquida”?

Zygmunt Bauman  –

Líquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada — ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circulação de mercadorias rentáveis — não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis, com uma maior expectativa de vida.

As pessoas estão conscientes dessa situação?

Zygmunt Bauman  –

Acredito que todos estamos cientes disso, num grau ou outro. Pelo menos às vezes, quando uma catástrofe, natural ou provocada pelo homem, torna impossível ignorar as falhas. Portanto, não é uma questão de “abrir os olhos”. O verdadeiro problema é: quem é capaz de fazer o que deve ser feito para evitar o desastre que já podemos prever? O problema não é a nossa falta de conhecimento, mas a falta de um agente capaz de fazer o que o conhecimento nos diz ser necessário fazer, e urgentemente. Por exemplo: estamos todos conscientes das conseqüências apocalípticas do aquecimento do planeta. E todos estamos conscientes de que os recursos planetários serão incapazes de sustentar a nossa filosofia e prática de “crescimento econômico infinito” e de crescimento infinito do consumo. Sabemos que esses recursos estão rapidamente se aproximando de seu esgotamento. Estamos conscientes — mas e daí? Há poucos (ou nenhum) sinais de que, de própria vontade, estamos caminhando para mudar as formas de vida que estão na origem de todos esses problemas.

A atual crise financeira tem potencial para mudar a forma como vivemos?

Zygmunt Bauman  –

Pode ter ou não. Primeiramente, a crise está longe de terminar. Ainda veremos suas conseqüências de longo prazo (um grande desemprego, entre outras). Em segundo lugar, as reações à crise não foram até agora animadoras. A resposta quase unânime dos governos foi de recapitalizar os bancos, para voltar ao “normal”. Mas foi precisamente esse “normal” o responsável pela atual crise. Essa reação significa armazenar problemas para o futuro. Mas a crise pode nos obrigar a mudar a maneira como vivemos. A recapitalização dos bancos e instituições de crédito resultou em dívidas públicas altíssimas, que precisão ser pagas pelos nossos filhos e netos — e isso pode empobrecer as próximas gerações. As dívidas exorbitantes podem levar a uma considerável redistribuição da riqueza. São os países ricos agora os mais endividados. De qualquer forma, não são as crises que mudam o mundo, e sim nossa reação a elas.

Ao se conectarem ao mundo pela internet, as pessoas estariam se desconectando da sua própria realidade?

Zygmunt Bauman  –

Os  contatos online têm uma vantagem sobre os offline: são mais fáceis e menos arriscados — o que muita gente acha atraente. Eles tornam mais fácil se conectar e se desconectar. Casos as coisas fiquem “quentes” demais para o conforto, você pode simplesmente desligar, sem necessidade de explicações complexas, sem inventar desculpas, sem censuras ou culpa. Atrás do seu laptop ou iPhone, com fones no ouvido, você pode se cortar fora dos desconfortos do mundo offline. Mas não há almoços grátis, como diz um provérbio inglês: se você ganha algo, perde alguma coisa. Entre as coisas perdidas estão as habilidades necessárias para estabelecer relações de confiança, as para o que der vier, na saúde ou na tristeza, com outras pessoas. Relações cujos encantos você nunca conhecerá a menos que pratique. O problema é que, quanto mais você busca fugir dos inconvenientes da vida offline, maior será a tendência a se desconectar.

E o que o senhor chama de “amor líquido”?

Zygmunt Bauman  –

Amor líquido é um amor “até segundo aviso”, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação. O amor com um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente, pairando acima dele. Na sua forma “líquida”, o amor tenta substituir a qualidade por quantidade — mas isso nunca pode ser feito, como seus praticantes mais cedo ou mais tarde acabam percebendo. É bom lembrar que o amor não é um “objeto encontrado”, mas um produto de um longo e muitas vezes difícil esforço e de boa vontade.

Nesse contexto, ainda faz sentido sonhar com um relacionamento estável e duradouro?

Zygmunt Bauman  –

Ambos os tipos de relacionamento têm suas próprias vantagens e riscos. Em um mundo “líquido”, em rápida mutação, “compromissos para a vida” podem se revelar como sendo promessas que não podem ser cumpridas — deixando de serem algo valioso para virarem dificuldades. O legado do passado, afinal, é a restrição mais grave que a vida pode impor à liberdade de escolha. Mas, por outro lado, como se pode lutar contra as adversidades do destino sozinho, sem a ajuda de amigos fiéis e dedicados, sem um companheiro de vida, pronto para compartilhar os altos e baixo? Nenhuma das duas variedades de relação é infalível. Mas a vida também não o é. Além disso, o valor de um relacionamento é medido não só pelo que ele oferece a você, mas também pelo que oferece aos seus parceiros. O melhor relacionamento imaginável é aquele em que ambos os parceiros praticam essa verdade.

O que explicaria o crescimento do consumo de antidepressivos?

Zygmunt Bauman  –

Você colocou o dedo em um dos muitos sintomas da nossa crescente intolerância ao sofrimento – na verdade, uma intolerância a cada desconforto ou mesmo ligeira inconveniência. Em uma vida regulada por mercados consumidores, as pessoas passaram a acreditar que, para cada problema, há uma solução. E que esta solução pode ser comprada na loja. Que a tarefa do doente não é tanto usar sua habilidade para superar a dificuldade, mas para encontrar a loja certa que venda o produto certo que irá superar a dificuldade em seu lugar. Não foi provado que essa nova atitude diminui nossas dores. Mas foi provado, além de qualquer dúvida razoável, que a nossa induzida intolerância à dor é uma fonte inesgotável de lucros comerciais. Por essa razão, podemos esperar que essa nossa intolerância se agrave ainda mais, em vez de ser atenuada.

E a obsessão pelo corpo perfeito?

Zygmunt Bauman  –

Não é o ideal de perfeição que lubrifica as engrenagens da indústria de cosméticos, mas o desejo de melhorar. E isso significa seguir a moda atual. Todos os aspectos da aparência corporal são, atualmente, objetos da moda, não apenas o cabelo ou a cor dos lábios, mas os tamanhos dos quadris ou dos seios. A “perfeição” significaria um fim a outras “melhorias”. Na cirurgia plástica, são oferecidos aos clientes cartões de “fidelidade”, garantindo um desconto nas sucessivas cirurgias que eles certamente irão realizar. Assim como a indústria de celebridades, a indústria cosmética não tem limites e a demanda por seus serviços pode, a princípio, se expandir infinitamente.

O que está por trás desse culto às celebridades?

Zygmunt Bauman  –

Não é só uma questão de candidatos a celebridades e seu desejo por notoriedade. O que também é uma questão é que o “grande público” precisa de celebridades, de pessoas que estejam no centro das atenções. Pessoas que, na ausência de autoridades confiáveis, líderes, guias, professores, se oferecem como exemplos. Diante do enfraquecimento das comunidades, essas pessoas fornecem “assuntos-chave” em torno dos quais as quase-comunidades, mesmo que apenas por um breve momento, se condensam —para desmoronar logo depois e se recondensar em torno de outras celebridades momentâneas. É por isso que a indústria de celebridades está garantida contra todas as depressões econômicas.

Como fica o futuro nesse contexto de constantes mudanças?

Zygmunt Bauman  –

Nossos ancestrais eram esperançosos: quando falavam de “progresso”, se referiam à perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. Nós estamos assustados: “progresso”, para nós, significa uma constante ameaça de ser chutado para fora de um carro em aceleração. De não descer ou embarcar a tempo. De não estar atualizado com a nova moda. De não abandonar rapidamente o suficiente habilidades e hábitos ultrapassados e de falhar ao desenvolver as novas habilidades e hábitos que os substituem. Além disso, ocupamos um mundo pautado pelo “agora”, que promete satisfações imediatas e ridiculariza todos os atrasos e esforços a longo prazo. Em um mundo composto de “agoras”, de momentos e episódios breves, não há espaço para a preocupação com “futuro”. Como diz um outro provérbio inglês: “Vamos cruzar essa ponte quando chegarmos a ela”. Mas quem pode dizer quando (e se) chegar e em que ponte?

Há cinco anos, a polícia de Londres matou o brasileiro Jean Charles de Menezes, alegando tê-lo confundido com um terrorista. Por que o mundo está tão paranóico com segurança?

Zygmunt Bauman  –

Essa obsessão e a nossa gestão dos assuntos globais, responsável por reforçá-la, constituem a ameaça mais terrível à nossa segurança. O fantástico crescimento das “indústrias de segurança”, juntamente com a crescente suspeita de perigo que ela evoca, são motivos para antever uma piora das coisas. Se não por qualquer outro motivo, então porque, na lógica das armas de fogo, uma vez carregadas, em algum elas deverão ser descarregadas.

No Brasil, a violência é uma questão especialmente preocupante. Como o sr. enxerga isso?

Zygmunt Bauman  –

Para começar, as favelas servem como uma lixeira para um número enorme de pessoas tornadas desnecessárias em partes do País onde suas fontes tradicionais de sustento foram destruídas — para quem o Estado não tinha nada a oferecer nem um plano de futuro. Mesmo que não declararem isso abertamente, as agências estatais devem estar felizes pelo fato de o povo nas favelas tomar os problemas em suas próprias mãos. Por exemplo, ao construir seus barracos rapidamente e de qualquer forma, usando materiais instáveis, encontrados ou roubados, na ausência de habitações planejadas e construídas pelas autoridades estaduais ou municipais para acomodá-los.

Essa ausência do Estado abriu espaço para os traficantes. O combate às quadrilhas às vezes é usado com justificativa para excessos da polícia. Por que tanta violência?

Zygmunt Bauman  –

As relações entre a polícia e as empresas de tráfico de drogas são, na apropriada expressão de Bernardo Sorj (sociólogo brasileiro, professor da Universidade Federal do Rio), “nem de guerra nem de paz”. Esse amor e ódio entre as duas principais agências de terror aumenta o estigma da favela como o local da violência genocida. Ao mesmo tempo, porém, também contribui para a “funcionalidade” das favelas na manutenção do atual sistema de poder no Brasil. A polícia brasileira tem um longo histórico de tratamento brutal aos pobres, anterior à proliferação relativamente recente das favelas. A brutalidade da polícia é mesmo para ser espetacular. Como não é particularmente bem sucedida no combate à criminalidade e à corrupção, a polícia, para convencer a população de seu potencial coercitivo, deve assustá-la e coagi-la a ser passivamente obediente.

O sr. vê uma solução?

Zygmunt Bauman  –

Algo está sendo feito, mesmo que, até agora, não seja suficiente para cortar um nó firmemente amarrado por décadas, senão séculos. Um exemplo é o Viva Rio (ONG que atua contra a violência). Pequenos passos, talvez, sopros não fortes o suficiente para romper a armadura do ressentimento mútuo e indiferença moral de anos entre “morro” e “asfalto” no Rio. Mas a escolha é, afinal, entre erguer paredes de pedra e aço ou o desmantelamento de cercas espirituais.

O que o sr. diria ao jovens?

Zygmunt Bauman  –

Eu desejo que os jovens percebam razoavelmente cedo que há tanto significado na vida quando eles conseguem adicionar isso a ela através de esforço e dedicação. Que a árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos.

ENTREVISTA CONCEDIDA A REVISTA ISTOÉ E PUBLICADA EM 24 DE SETEMBRO DE 2010.

20/07/2013 Posted by | Ferramentas, Liderança, Psicologia, Textos | Deixe um comentário

A MELHOR RESOLUÇÃO DE ANO NOVO – A lista do que “DEIXAR DE FAZER”

 

Qual é A melhor resolução de Ano Novo (antes que ele chegue)? Não seria a lista do ‘Parar de fazer’

Cada vez que é Ano Novo me sento para fazer as resoluções anuais que me remetem de volta a uma lição que aprendi com um notável professor. Quando eu tinha quase 30 anos eu fiz um curso sobre criatividade e inovação com Rochelle Myers e Michael Ray na Stanford Graduate School of Business, e mantive contato com eles depois que me formei.
Um dia, Rochelle apontou para o meu altíssimo ritmo de trabalho e disse: “Eu percebo, Jim, que você é uma pessoa bastante indisciplinada”.

Fiquei confuso e chocado. Afinal, eu era o tipo de pessoa que definia cuidadosamente minhas principais metas, os três principais objetivos e ações para o início de cada Ano Novo e etc. Eu me orgulhava da capacidade de trabalhar incansavelmente para alcançar objetivos, a aplicação da energia que eu herdei de minha avó dava e sobrava para tudo isso e mais um pouco.

“Seu nível de energia permite sua falta de disciplina”, continuou Rochelle. “Em vez de levar uma vida disciplinada, você leva uma vida muito ocupada.”

Ela então me deu o que eu vim à chamar de princípio 20-10. É mais ou menos assim: Suponha que você acordasse amanhã e recebesse dois telefonemas. O primeiro telefonema dizia que você herdou $ 20 milhões, sem restrições nem regras. A segunda ligação diz que você tem uma doença incurável e terminal, e você não tem mais de 10 anos para viver. O que você faria diferente, e, especialmente:

O que você pararia de fazer?

Isso representou uma grande mudança na minha vida, e a lista do “parar de fazer” se tornou um marco nas minhas resoluções de Ano Novo –  uma maneira de pensar disciplinadamente sobre como alocar o mais precioso de todos os nossos recursos:

O tempo.

As palavras de Rochelle, obrigaram-me a ver o quanto eu tinha sido muito intenso, mas nas coisas erradas. Na verdade, eu estava no caminho totalmente errado.

Após a faculdade, eu estava empregado na Hewlett-Packard. Adorei a companhia, mas odiava o trabalho. As palavras de Rochelle me ajudaram a ver que eu estava talhado para ser um professor, um pesquisador, um professor – e não um executivo – e eu precisava fazer uma curva em ângulo reto, uma mudança brusca.

Eu tive que parar trabalhar na minha carreira para poder encontrar a minha verdadeira vocação. Eu pedi demissão da HP e fui para a Stanford Business School onde me tornei professor, felizmente labutando na minha pesquisa e escrita.

A lição de Rochelle, me veio a memória alguns anos mais tarde, enquanto, tentando analisar os dados de uma pesquisa em 11 empresas que transacionaram com sucesso da mediocridade à excelência, de boa a ótima. Na etapa de catalogação, uma das etapas-chave nessa pesquisa da transição, minha equipe de pesquisa e eu estavamos impressionados com a quantidade de empresas onde as grandes decisões não eram o que fazer, mas que parar de fazer.

O caso, talvez o mais famoso, foi o de Darwin Smith, da Kimberly-Clark – um homem que havia sobrevivido a um câncer de garganta que disse um dia a sua esposa: “Eu aprendi algumas coisas com o meu câncer. Mas talvez a mais importante delas tenha sido: Se você tem um câncer no braço, você tem que ter a coragem de cortar o braço. Eu tomei uma decisão: Vamos vender as fabricas”.

Na época, a Kimberly-Clark tinha a maior parte das receitas advindas do negócio tradicional de papel. Mas Smith começou fazendo três perguntas importantes: Será que estamos apaixonados pelo negócio do papel? Podemos ser os melhores do mundo? O negócio de papel é o que melhor direciona nosso potencial de lucro?

A resposta veio: não, não e não.

E assim, Smith tomou a decisão de parar de atuar no ramo de papel e começou o processo de venda de equipamentos e estruturas que representavam 100 anos de sua história empresarial – e jogar todos os recursos resultantes para o negócio de bens de consumo (construção de marcas tais como Kleenex), e então vieram sim, sim e sim como resposta para as mesmas perguntas.

O Ano Novo é um momento perfeito para começar a fazer uma lista do que parar de fazer e fazer desta lista a pedra angular suas resoluções de Ano Novo, seja para sua empresa, sua família ou para si mesmo. Ele também é um momento perfeito para esclarecer esse três pontos. Focando no nível pessoal as três perguntas feitas por Smith são as seguintes:

1) O que você faz com profunda paixão?
2) O que na rotina você foi criado para fazer e o que você está fazendo por fazer?
3) Quais das suas vocações tem um potencial de resultado econômico para sua vida?

Aqueles que encontrarem ou criarem uma intersecção prática desses três pontos tem uma boa base para o trabalho e para a vida.

Se você fizer um inventário de suas atividades, hoje, qual o percentual do seu tempo está fora desses três pontos?
Se for mais de 50%, então lista do “parar de fazer” pode ser sua ferramenta mais importante. A pergunta é: Será que o bom está suficiente ou você tem coragem de vender as fábricas?

Olhando para trás, vejo agora Rochelle Myers como uma das poucas pessoas que eu conheço que conseguem gerir de maneira nobre a sua vida enquanto realizam um trabalho verdadeiramente gratificante. Isso resultou em grande parte de sua simplicidade notável.

Uma casa simples. Uma programação simples. Um quadro simples para seu trabalho.

Rochelle me falou várias vezes sobre a idéia de “fazer da sua vida uma obra de arte criativa”.

Uma grande obra de arte é composta sim pelo que fica pronto na parte final, mas o que vem antes da conclusão é igualmente importante.

É a disciplina para descartar o que não se encaixa, para cortar fora o que pode ter custado dias ou mesmo anos de esforço, o que distingue o artista verdadeiramente excepcional e que marca a parte fundamental do trabalho; seja ele uma sinfonia, um romance, uma pintura , uma sociedade ou, o mais importante de tudo, uma vida.

FELIZ ANO NOVO!

Traduzido e adaptado por Shalon Lages de Best New Year´s Resolution and “Stop doing list”(J. Collins)

Jim Collins é autor de Good to Great e co-autor de Built to Last

25/11/2010 Posted by | Liderança, Textos | 1 Comentário

As Fases do Esgotamento pelo Stress no Trabalho/Estudo

O Stress é uma das mais terríveis manifestações existentes pois seus sintomas podem gerar um número enorme de doenças, tanto físicas quanto psíquicas, podendo ter efeitos desastrosos na família, relações sociais, trabalho e saúde.

Um profissional de qualquer área, principalmente das que exigem maior responsabilidade ou maior volume de trabalho, está fortemente sujeito aos maléficos efeitos do stress. Estes podem ser facilmente percebidos em um grande número de profissionais de várias áreas como TI, gerencia, CEO, empresários, empreendedores e etc. Funções que exigem grande responsabilidade e por isto grande pressão podem ser uma potencial fonte de stress. Contudo, mesmo profissionais com cargas de trabalho menores ou funções consideradas menos estressantes podem adquirir stress. Tudo depende de como nos relacionamos com nosso trabalho.

Segundo os pesquisadores Herbert Freudenberger e Gail North, o esgotamento profissional não ocorre da noite para o dia, mas é um processo gradual. Sendo assim eles dividiram o processo de esgotamento em 12 estágios (a ordem em que aparecem no texto não necessariamente é a ordem em que se manifestam nas pessoas).

  1. Necessidade de se afirmar
    No começo, verifica-se com frequência uma ambição exagerada. Ãnsia por fazer as coisas, interesse e desejo de se realizar na profissão transformam-se em obstinação e na compulsão por desempenho. É preciso provar constantemente aos colegas – e, sobretudo, a sí mesmo – que faz o trabalho muito bem e que é plenamente capaz.
  2. Dedicação intensificada
    Para fazer juz às espectativas desmedidas, vai-se um pouco além e se intensifica a dedicação. Delegar tarefas torna-se cada vez mais difícil. Em vez disto, predomina o sentimento de que tem de fazer tudo sozinho, até para demonstrar que é imprescindível.
  3. Descaso com as próprias necessidades
    Práticamente todo otempo disponível é reservado para a vida profissional. Outras necessidades, como dormir, comer ou encontrar-se com amigos são descvartadas como fúteis. Atividades de lazer perdem o sentido. A pessoa justifica para sí mesma a renúncia como desempenho heróico.
  4. Recalque de conflitos
    Percebe-se que alguma coisa não vai bem, mas não se enfrenta o problema. Confronta-lo pode deflagrar uma crise e, por isso, o problema é visto como uma ameaça. Os primeiros problemas físicos começam a aparecer.
  5. Reinterpretação dos valores
    Isolamento, fuga dos conflitos e negação das próprias necessidades modificam a percepção. O que antes era importante, como amigos ou passatempo, sofre uma completa desvalorização. A única medida da própria relevância e da auto-estima é o trabalho. Tudo o mais é subordinado a esse objetivo. O embotamento emocional é visível.
  6. Negação de problemas
    O principal sintoma desta fase é a intolerância. Os outros são percebidos como incapazes, preguiçosos, exigentes demais ou indisciplinados. Predomina o sentimento de que os contatos sociais são quase insuportáveis. Cinismo e agressão tornam-se mais evidentes. Eventuais problemas são atribuidos exclusivamente à falta de tempo e à jornada de trabalho, e não à transformação pela qual se está passando.
  7. Recolhimento
    Os contatos sociais são reduzidos ao mínimo. Vive-se recolhido, com a crescente sensação de desesperança e desorientação. No trabalho, “faz-se estritamente o necessário”. Nesta fase, muitos recorrem ao álcool ou às drogas.
  8. Mudanças evidentes de comportamento
    Agora, é impossível para os outros não perceber a transformação pessoal. Os outrora tão dedicados e ativos revelam-se amedrontados, tímidos e apáticos. Atribuem a culpa ao mundo à sua volta. Interiormente sentem-se cada vez mais inúteis.
  9. Despersonalização
    Nesta fase, rompe-se o contato consigo próprio. Ninguém mais parece ter valor, nem o próprio afetado nem os outros, as necessidades pessoais deixam de ser percebidas. A perspectiva temporal restringe-se ao presente. A vida é rebaixada ao mero funcionamento mecânico.
  10. Vazio interior
    A sensação de vazio interior é cada vez mais forte e mais ampla. A fim de superá-la, procura-se nervosamente por atividades. Surgem reações excessivas, como intensificação da vida sexual, alimentação exagerada e consumo de álcool e drogas. Tempo livre é tempo vazio, entorpecido.
  11. Depressão
    Aqui, sindrome do esgotamento equivale a depressão. A pessoa se torna indiferente, desesperançada, exausta e não vê perspectivas. Todos os sintomas dos estados depressivos podem se manifestar, desde a agitação até a apatia. A vida perde o sentido.
  12. Síndrome do esgotamento profissional
    Este estágio corresponde ao total colapso físico e psíquico. Quase todos os afetados pensam em suicidio e não são poucos os que a ele recorrem. Pacientes neste estado constituem casos de emergência: precisam de ajuda médica e psicológica o mais rápido possível.

Tendo em vista os doze estágios listados acima cabe ao profissional avaliar com profunda sinceridade seu estado atual. Permanecer em um estado de stress constante pode, além dos efeitos citados anteriormente, inclusive comprometer seriamente a qualidade do trabalho e seu rendimento.

Apesar das exigências modernas pela velocidade e produtividade é necessário avaliar nossos limites físicos e psíquicos para que o trabalho ou a vida profissional, acima de tudo, tenham qualidade, peça fundamental nas empresas modernas.

22/11/2010 Posted by | Textos | 2 Comentários

Carta aberta sobre o posicionamento do Pr. Paschoal Piragine sobre as eleições 2010.

Carta aberta sobre o posicionamento do Pr. Paschoal Piragine sobre as eleições 2010.

O vídeo e o posicionamento do Paschoal Piragine sobre as eleições 2010 têm causado verdadeiro frisson na comunidade evangélica brasileira. Mas não se preocupem pastores, todos nós vez por outra falamos bobagens impensadas, pouco refletidas (assim espero) e isso não seria privilégio do Pr. Paschoal, mas uma constante no ser humano, ser falível, como eu e você que me lê. Qualquer um que se aventure a difícil tarefa de se expressar está sob esse risco. Hesitei em escrever sobre esse pronunciamento por achar uma perda de tempo “responder” a tamanha tolice, com todo o respeito, mesmo tendo ficado mais uma vez decepcionado com os rumos do cristianismo no Brasil. Contudo inspirado em palavras do também Pr. Batista, Dr. Martin Luther King Jr, não consegui ficar calado ao começar a receber, via todas as mídias sociais, apelos para me engajar no chamado “movimento contra a iniqüidade” citado no tal vídeo e no tal pronunciamento.

Nessa “carta aberta”, em alguns momentos vou me referir ao pronunciamento e em alguns momentos ao Pr. Paschoal por ser ele o autor do pronunciamento. Não revisei, não corrigi; fui escrevendo, muitas vezes ponto a ponto…e que Deus nos abençoe! (Meus comentários estão em negrito e itálico)

A primeira pergunta do Pr. Paschoal Piragine é sobre INIQUIDADE: O que é iniquidade? E ele segue;  

“Iniqüidade é quando a gente tá tão acostumado ao pecado que a gente não tem mais vergonha de cometê-lo e ele passa a ser algo tremendamente natural na nossa vida”

A definição correta, ainda que incompleta, acima mencionada, é interessante. Mas nos últimos 30 anos, e tenho 34 anos, se eu fosse fazer um vídeo sobre iniqüidade “institucionalizada” no Brasil, teria que contar com a paciência dos expectadores, pois faria “Ben Hur” parecer um comercial da NBA. Não vi no vídeo nada sobre os órfãos deixados pelos assassinatos brutais durante os anos da ditadura no Brasil, não vi nada sobre censura, garantias dos direitos fundamentais do cidadão independente de sua orientação religiosa, não vi nada sobre desigualdade social, racismo, AIDS; não vi nada sobre corrupção nem mesmo quando ela teve como pivôs nossos irmãos em cristo que passam a semana no Planalto Central. Vale lembrar que nesses últimos 30 anos, é publico, que muitos “vampiros”, “sanguessugas”, e até “mensaleiros” tinham uma grande bíblia preta no sovaco.

Continua então: E a bíblia diz que quando a iniqüidade chega (…), é tempo que Deus tem que julgar sua terra, julgar seu povo, julgar uma nação”.

Realmente, eu tenho medo do que Deus fará, mas não com o Brasil em primeira instancia, mas tenho medo sim de quando Ele julgar aqueles a quem chama de “a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” Quem são os leprosos do século XXI? Quem são os Samaritanos? Quem são as viúvas pobres e quem são os pródigos? Na outra ponta, quem são os Escribas e Fariseus? Quem são os publicanos? Que são os idolatras (geralmente dizem simplesmente que são os irmãos católicos). E o que é o objeto dessa idolatria? Há uma clara incoerência entre a manjedoura e o palácio e só não vê quem não quer. O que será que Deus dirá da omissão do Seu povo? Das brigas estúpidas pelo que o Ap. Paulo chamou de “matérias disputáveis”, assuntos bobos, tolices.

E é por causa disso que eu tenho que falar uma coisa que durante 30 anos no meu ministério eu nunca fiz. Completei 30 anos de ministério no dia 08 de agosto, e nesses 30 anos eu nunca fiz o que eu fiz hoje pela manhã e vou fazer agora á noite.

Pastor, siga o exemplo de Lutero, ensine a Bíblia e os bêbados caírão trôpegos naturalmente no caminho pelo poder da palavra. Caso contrário, humildemente rogo que fique sem falar por mais 30 anos.

Eu quero dizer pra vocês que nós precisamos tomar muito cuidado com essas eleições que vão acontecer porque existe uma serie de leis que estão tramitando que vão depender do voto do Deputado Federal, do voto do senador que vão ser incorporadas pela ação da maquina estatal através da presidência da republica, nós vamos estar votando nessas pessoas no próximo mês, que vai tomar força também nas câmaras estaduais, nas ações que são feitas através do estado, e nós precisamos de valores cristãos trabalhando nesses contextos.

Cuidado e prudência em eleições sempre foi necessário, mas é fato que nos últimos 30 anos não tivemos tantas oportunidades assim de exercitar isso pois em parte desse tempo isso nem era possível. A propósito, muitos pastores nossos estavam era recebendo “flores” do regime ditatorial. Nossa “colonização” batista do sul dos estados unidos, do mesmo sul de George W. Bush e dos Cavaleiros da Klã, invocava o verso que fala sobre submissão a autoridade constituída por “deus” para rezar na cartilha e ficar em berço esplêndido. De fato, muita atenção nessas eleições. Aprecio seu destaque ao cuidado com o voto para as câmaras, mesmo sabendo que nossos motivos são diferentes. Nesse Blog, há um texto interessante do amigo Bento Souto. O título? EU VOTO É NO SAMARITANO. Esse texto explica porque não necessariamente voto em “irmão” que “combate” a “iniquidade institucionalizada”

Por causa disso está acontecendo no Brasil um movimento que eu faço parte agora, graças a Deus, de lideres cristão de varias denominações, evangélicos e católicos, que estão trabalhando para que a gente possa impedir que a iniqüidade seja institucionalizada na forma de lei. Por isso alguns pastores tem se posicionado firmemente no radio, na televisão, com suas igrejas e também a CNBB(Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil), nessa ultima semana escreveu um documento e publicou e lançou na mão de toda a imprensa, se posicionando com relação a esses assuntos.

Fico admirado com a naturalidade com a qual o senhor fala dessa “parceria ideológica“ com a CNBB. Até bem pouco tempo isso levava a “fogueira da inquisição” batista sob o estigma de “ecumênico” no uso mais simplista e preconceituoso que poderia se fazer dessa bela palavra. Mas porque ninguém foi a publico apoiar a CNBB quando ela pressionou o governo para agir com políticas que reduzissem o valor da cesta básica no Brasil? Deus nos ajude, de agora em diante, e conto com a sua influencia, a nos juntarmos ao que de bom Deus estiver fazendo ao nosso redor.

Eu vou pedir que você assista um vídeo de alguns minutos que fala desses problemas e de como nos precisamos levar isso a sério porque isso tudo o que vai passar aqui é iniqüidade institucionalizada e que nos precisamos nos posicionar e dizer”nós não queremos isso na nossa nação” e procurar pessoas que nos representem pra dizer “vou votar contra essas coisas” porque caso o contrario a iniqüidade será oficializada, e Deus não vai ter outra coisa a fazer a não ser julgar a nossa terra.

Olha, eu queria saber se alguém que me lê, conhece uma só pessoa que se posicione a favor da pedofilia. Ninguém mesmo! Muito menos o PT que tem em seus quadros pessoas engajadas a muitos anos na luta, não só contra a pedofilia, mas contra a prostituição infantil e afins. Queria dizer que se o PLC122/2006 é apelidado de lei da mordaça, eu queria ter inventado esse apelido. O que eu já ouvi de absurdos sobre esse assunto só porque a nossa liberdade de credo nos dava lastro para tal não tá no gibi. Se isso vai parar, é benção. Vejo com bons olhos precisarmos pensar mais responsavelmente quando esse for o assunto. Não acho que Jesus, caminhando no nosso meio hoje, fosse dar grandes bolas pra esse tema diante de pautas tão urgentemente anteriores a essas. A questão do infanticídio indígena não pode também ser tratado passionalmente. Qualquer pessoa que viva no nosso contexto cultural ficaria chocada, mas não é uma questão passional, nem “religiosista”. É um tema de alta complexidade jurídico-antropológica, e por isso eu me atenho a mencionar a complexidade do tema e a tira-lo do debate reducionista de pecado ou não pecado. O fim de tudo é que o vídeo é claramente de extrema direita, e eu conheço bem a extrema direita. Venho de lá! Mas prefiro dizer que o vídeo é de uma infelicidade sem tamanho.

Há um partido político que fechou questão sobre esse assunto, o partido político que é o PT de nosso presidente, em seu congresso desse ano, ele, no seu congresso geral, quando eles indicam seus deputados, ele fechou questão sobre essas questões. Ou seja, se um deputado, se um senador do PT, se ele votar contra, de acordo com sua consciência, contra qualquer uma dessas leis, ele é expulso do partido. Já dois deputados federais foram expulsos do PT, por se manifestarem contra o aborto. Isso fez com que a igreja católica se manifestasse publicamente, por que eles estavam ligados a igreja católica, junto ao PT, e se manifestarem contra, e por isso foram expulso do partido. E a igreja católica então emitiu nota pública dizendo: olha não votem em ninguém do PT. Eu diria para você a mesma coisa. Algumas pessoas não vão gostar do que eu estou falando, mas estou falando bem claramente. Porque quando não se pode votar com a consciência, não adianta votar em pessoas, porque o partido já fechou questão.

Primeiro não sou Advogado e muito menos Advogado do PT. Mas não há uma verdade se quer nessas afirmações que chegaram ao pastor. Acredito, pela caminhada idônea do pastor, que faltou informação e não acredito em ma fé a priori. Mas se alguém quiser me tirar do sério, que diga simplesmente “NÃO VOTEM NO PT” aqui na Bahia (e não deve ser diferente no resto do Brasil). Aqui, Walter Pinheiro é um dos homens mais sérios que eu já conheci. Ele vota com o PT, pois é o seu partido, quando isso não fere seu credo e suas liberdades individuais previstas no estatuto do Partido dos Trabalhadores. Aqui, Neuza Cadore, ex-freira católica, depois de fazer um trabalho brilhante no sertão, E SER CRUELMENTE SABOTADA PELA EXTREMA DIREITA, é hoje uma legítima representante do REINO DE DEUS, no que isso tem de mais inclusivo, na Assembléia Legislativa do Estado. Portanto, esse dois exemplos me dão a certeza de que foi uma afirmativa muito, muito, muito infeliz generalizar o PT. Eu não digo pra ninguém votar ou não votar em partido ou pessoa alguma. Se eu oriento alguém politicamente apelo pra sua dedicação pessoal, discernimento, pesquisa e busca da verdade sobre cada candidato.

Mas além de tudo, eu ficaria triste de ver, por via judicial, o PT assumir o púlpito da PIB de Curitiba para exercer o seu direito de resposta assegurado pelo código eleitoral. Pastor Paschoal, alguém no PT decidiu caminhar a segunda milha com o senhor se isso não acontecer.

Então eu queria pedir para você levar a sério essa questão. Como pastor eu nunca fiz isso. Eu não estou dizendo para você votar em A ou B. Eu vou dizer para você em quem não votar: em pessoas que estejam trabalhando pela iniqüidade em nossa terra.

Porque senão queridos, Deus vai julgar a nossa terra. E se Deus julgar a nossa terra, isso vai acontecer na tua vida na minha vida, porque eu faço parte dessa terra. Porque Deus não tolera iniquidade. Amem? (Aplausos)”

Pastor, nessa carta aberta, eu queria fazer algumas considerações, e agora, considerações finais. Primeiro, parabéns pelos seus 30 anos de ministério. Ninguém pode descrever apenas com palavras as agruras do ministério pastoral. As solidões no meio da multidão, a sobrecarga e as conseqüências visíveis e invisíveis de um dia ter se dedicado integralmente ao ministério pastoral. Segundo, se nunca fez isso nesses 30 anos, passe mais 30 sem fazer ou consulte seus mestres e mentores. E por ultimo, queria contar uma breve historia: Quando houve toda aquela crise desencadeada pelo Dep. Roberto Jeferson, eu pensava com meus botões: “Se o presidente Lula fosse a publico e confessasse seu erro, ou omissão ou incompetência. Se o PT fizesse o mesmo (…). Na minha ignorância das complexidades da política eu creio que o desfecho seria mais limpo e proveitoso para a construção não só de um projeto de longo prazo para o PT, mas para o amadurecimento da nossa frágil democracia”. De volta ao pronunciamento do púlpito da PIB de Curitiba, eu pediria a mesma coisa com todo o amor do mundo: Se o senhor for a publico e prestar alguns esclarecimentos eu creio que será de uma grandeza imensurável e os dividendos disso para as gerações de Cristãos e cidadãos brasileiros serão imensos e colhidos por gerações. Eu quero estar sempre apto a me posicionar, pensar livremente, discutir e sempre que necessário dizer: EU ERREI! É esse meu humilde conselho ao senhor porque eu gostaria de receber tal conselho que só seria dado por alguem que se importasse comigo. Deus nos abençoe das formas mais abrangentes que o Seu infinito e gracioso amor puder, e que isso seja instrumento, não para julgamento, mas para redenção da nossa nação e de nós mesmos.

Fraternalmente,

 

Shalon Riker Lages

15/09/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Politica Nacional, Textos | 29 Comentários

Dinheiro, sexo e futebol: as 3 coisas que o brasileiro mais gosta (?)

Dinheiro, sexo e futebol: as 3 coisas que o brasileiro mais gosta (?) (não necessariamente nessa ordem)

As pessoas compram uma coisa só. Não importa se compram um sapato, uma BMW ou um ingresso para o teatro, estão comprando uma coisa só. Quem compra uma caneta, uma camisa do seu time ou uma viagem para Nova York está comprando uma coisa só. Os caras que estão tendo sucesso hoje descobriram isso.  Os profissionais mais bem remunerados do nosso mercado são aqueles que sabem explorar esse fato. O que as pessoas estão comprando? Simples…

UMA COISA SÓ

As pessoas compram uma coisa só. Não importa se compram um sapato, uma BMW ou um ingresso para o teatro, estão comprando uma coisa só. Quem compra uma caneta, uma camisa do seu time ou uma viagem para Nova York está comprando uma coisa só. Os caras que estão tendo sucesso hoje descobriram isso.  Os profissionais mais bem remunerados do nosso mercado são aqueles que sabem explorar esse fato. O que as pessoas estão comprando? Simples. Elas estão comprando um estado de espírito, ou se você preferir, um sentimento. Isso vale para quem vai ao estádio assistir um jogo de futebol, ao templo para rezar, e ao shopping para dar uma volta no sábado à tarde.

A grande jogada nessa transação chamada compra e venda é a sensação que as pessoas experimentam durante a negociação. A grande sacada que mantém um produto campeão de vendas é que ele consegue gerar no consumidor uma sensação, um sentimento, um estado de espírito. Ninguém compra caneta apenas para escrever, camisa apenas para cobrir o corpo, ou bolsa apenas para carregar carteira e batom. E, diga a verdade, quando você sai do cinema do mesmo jeito que entrou, sai resmungando que o filme foi uma porcaria. E é exatamente por isso que você diminui a luz da sala e mete um smoth jazz no fundo quando quer relaxar no final do dia. Mudar o estado de espírito, mudar as sensações, gerar novas emoções, sentir alguma coisa, e de preferência diferente do que esta que estou sentindo agora, pois senão eu ficaria no mesmo lugar, ou não compraria o seu produto. Quer saber uma coisa?, o maior benefício de um serviço ou produto não é que  ele faz pelo cliente, mas o que ele faz dentro do cliente. Sacou?

E daí, o que é que eu tenho a ver com isso?, você diria. Bem, se você é consumidor, fique esperto, porque os caras já te descobriram e cada dia ficam sabendo mais coisas a seu respeito: o que você gosta e não gosta, o que faz você chorar, o que te mete medo, e o que você precisa para assinar aquele contrato. Até aí, nada de errado. Desde que você não esteja iludido na transação, isto é, sendo manipulado sem saber. Quer pagar mais, pague. Quer comprar aquela marca, compre. Mas não caia na esparrela de acreditar que aquele algodão com cavalinho é necessariamente melhor do que os algodões sem cavalinho.

Agora, se você é o vendedor, então, meu amigo, você tem que saber uma coisinha a mais. O grande lance de uma venda não está apenas no estado de espírito do consumidor, mas também e principalmente no coração do vendedor. Em outras palavras, o ambiente da compra tem que estar alinhado com a proposta emocional-passional do produto-serviço. É aquela coisa de careca vendendo shampoo para queda de cabelo. O que a maioria dos vendedores ainda não sacou é que vendedor de emoção sem emoção é tão ridículo quanto  gordo vendendo mais uma dieta revolucionária. Todo produto-serviço tem um valor agregado. E o ambiente da transação de sua compra e venda deve refletir esse valor. Ponto.

A BOLA,  A TRANSA E A VENDA

Fui fazer uma palestra para um grupo de atletas. Pedi que eles me descrevessem uma bola feliz. Ficaram em silêncio, e então tentei ajudar, pedindo que dissessem o que poderiam fazer com uma bola de futebol, além de jogar futebol. Um deles disse que poderíamos usar a bola de banquinho, sentando em cima dela. Boa. Outro sugeriu que a gente pode murchar a bola para que ela sirva de peso para a porta não bater com o vento. Boa também. Lá pelas tantas um garoto falou que a bola pode ser uma peça de museu, e nesse caso a gente fica olhando para ela. Maravilhosa. Era tudo o que eu precisava. Perguntei para eles se achavam que a bola do gol mil do Pelé era uma bola feliz. A resposta veio de bate pronto, “Acho que ela foi feliz no dia do gol mil, mas hoje, no museu, deve ser uma bola infeliz”. Bingo. Minha palestra poderia terminar ali mesmo. A conclusão é óbvia: uma bola feliz é uma bola em jogo. E por aí vai: uma pipa feliz é uma pipa ao vento; um peão feliz é um peão girando; um bambolê feliz é um bambolê bailando.

O gol é o orgasmo do futebol, disse Nelson Rodrigues. Mas o gol não é o todo do futebol. O gol, aliás, é o fim do futebol. Cada vez que o gol acontece, começa tudo de novo. Que nem orgasmo. O orgasmo é o fim da transa. Quando o orgasmo acontece, começa tudo de novo (sabe lá depois de quanto tempo, mas começa!). O que quero dizer com isso é que a bola não é feliz apenas  quando estufa as redes em gol. Uma bola feliz é uma bola em jogo. Uma espalmada de mão trocada, uma pancada de três dedos no travessão, uma matada no peito do zagueiro. Imagino como era feliz a bola enquanto Pelé olhava para ela e sussurrava segredos durante o minuto de silêncio. Uma bola feliz é uma bola em jogo. E se o orgasmo está no gol, a graça está no jogo. Assim como o ápice é o gozo, e o prazer é a transa.

Compliquei? Calma lá. Ainda não. Essa era a diferença entre o Garrincha e os caneleiros de plantão. O Garrincha gostava do gol, mas gostava também do jogo. Não valia apenas empurrar para dentro do gol (sem trocadilhos), tinha que ser por baixo das pernas do zagueiro (sem trocadilhos). Além do gol, o jogo. E quanto mais prazeroso o jogo, mais arrebatador o gol. Assim é com a transa, não é? E sabe de uma coisa, assim como tem gente que gosta de fazer gol e não gosta de jogar, também tem gente que gosta de gozar mas não gosta de transar. E mulher nenhuma (penso eu) gosta de transar com esse cara. 

Tudo isso para dizer que todo produto tem um valor agregado. Todo ambiente de compra e venda deve estar alinhado com o valor agregado do produto negociado. O que determina o ambiente não é o fechamento da venda, mas sim o processo da venda. Em tese, o que determina o gol é o jogo bem jogado; o que determina o gozo, é a transa bem transada. E o que determina a venda, é o processo bem negociado. E sabe o que é incrível nisso tudo? Tem gente que gosta de vender mas não gosta de negociar. Não é vendedor, apenas trabalha em vendas, e ninguém quer comprar dele. A graça não está apenas na assinatura do contrato, mas em todo o processo de negociação: fazer conta de cabeça, oferecer um café na hora certa, mudar de assunto e voltar ao prazo depois de dois minutos, mostrar a foto mais uma vez, convidar o consumidor a experimentar o produto, e assim vai, às vezes minutos, outras, horas, e quem sabe, dias, meses e anos, até a assinatura do contrato.

OS CAMPEÕES, OS RATINHOS E OS QUE DERAM CAMBALHOTA

Veja só. O cara entra na sua loja para comprar um carro, e do mesmo jeito que ele vai ter orgulho em mostrar para o cunhado que comprou um GM, você tem que ter orgulho de vender um GM. Produto: carro. Valor agregado: esbanjar o cunhado. Alinhamento do ambiente: aquela cara de “você vai abafar”. Abre paréntesis. Perdoe o exemplo mesquinho, mas não me ocorreu nada melhor. Fecha paréntesis.

A grande questão é como é que você consegue fazer aquela cara, isto é, alinhar o valor do produto com o valor do processo de negociação, gerar o ambiente de trabalho cheio de afeto, alegria e espontaneidade (ou sei lá que valores a sua empresa tem). Conheço caminhos. O primeiro é o mais simples: você faz isso naturalmente, por que você é desse jeito. Quer dizer, você não está transando do jeito que a revista feminina ensinou, você está apaixonado; você não está se movimentando em busca de espaço em campo, como o professor mandou, você é craque; ou, no caso, você não apenas trabalha em vendas, você é vendedor. Isso tem a ver com vocação, coisa de gente que diz “eu nasci para isso”, “eu amo o que faço”, “não me imagino fazendo outra coisa”.

O outro caminho, amigão, é treinamento. Que nem quando eu fui comprar um tênis na loja recém inaugurada no Shopping. Enquanto falava comigo, a moça do caixa era sorridente e atenciosa. Mas quando falava com a colega atrás do balcão, era mal humorada e irritadiça. Perguntei pra ela quanto tempo durara o treinamento. Quinze dias, foi a resposta. Saí de lá com a convicção reforçada: em quinze dias você não consegue mais do que condicionar, padronizar comportamentos, artificializar simpatias, colocar sorrisos de plástico na cara dos outros. 

O caminho do treinamento tem suas variáveis: auto-ajuda, neuro-linguística, conscientização. Mas a melhor prima irmã do treinamento é a motivação: doses diárias, sistemáticas, de estímulos e encorajamentos. Funciona assim: no início do dia você reúne sua equipe de vendas e dá uma dose de motivação na veia de cada um dos seus valentes vendedores; depois, você faz algumas promessas de recompensas; e depois coloca um catálogo bem bonito na mão deles e anuncia sorridente que “a partir de hoje nossa empresa vai deixar vocês estacionarem no subsolo, à sombra”. Depois disso, você solta os ratinhos e fica esperando por eles com outro pedaço de queijo na manhã seguinte. À medida que o resultado vai satisfazendo, você melhora o queijo. E quando a coisa despencar, isto é, os ratinhos não obedecerem mais aos mesmos estímulos, você substitui os ratinhos, é mais fácil, embora muito mais caro.

A VERDADE VERDADEIRA

Fala a verdade. A maioria das empresas que você conhece trabalha desse jeito, não é ratinho? E eu já sei que você está louco para saber como sair desse labirinto e descobrir a terceira via. Pois eu lhe digo já, sem mais suspense. Caso você não seja um vocacionado quase naturalmente campeão, e não agüente mais esta vida de porão e roda com giro falso, sua alternativa libertadora é a autotransformação.

A grande sacada, companheiro, é a seguinte: não importa tanto a qualidade do seu produto se você não é capaz de envolver seu cliente no ambiente certo. A verdade é que seu produto vai embalado não em papel, caixas ou ceras. Seu produto vai embalado em estados de espírito, sensações e sentimentos. E você tem que estar embalado nos mesmos moldes. E para estar embalado nos mesmos moldes, você não pode fazer de conta, primeiro porque a maioria dos clientes logo logo percebe, e depois porque cedo ou tarde você não vai agüentar manter as aparências, o sorriso fingido vai desaparecer da sua cara, indo direto para uma úlcera, ou coisa pior. Para embalar você, seu produto, seu ambiente de trabalho, seus processos e seus relacionamentos, não há substitutos para a autenticidade.

Não importa o que você faz. Importa o que você é. Fingir orgasmo é rota suicida, e ninguém consegue fingir que é craque. No máximo, consegue fazer um gol de placa, sem querer, na maior sorte, e depois “não vende nunca mais”.

Entre o naturalmente feliz e o treinado para ser feliz, está a maioria dos mortais, pessoas como eu e você, que convivem com o desafio da autotransformação e da busca da felicidade. Uma felicidade não artificial, que brota de dentro para fora.

Desculpa aí. Mas já falei demais e esse papo não tem fim. Não quero ensinar um truque. Quero desmascarar alguns. Não quero apresentar uma nova técnica. Quero convidar você a prosseguir numa grande aventura. A aventura de ser. Ser, para poder vender. Ser, para poder viver. Nesse caso, amigão, se você quer andar pelo caminho da autotransformação, você precisa mais do uma palestra, um seminário ou um programa motivacional. Você precisa tomar uma decisão. E depois colocar o pé na estrada, pois a viagem é longa e você não vai chegar lá a menos que dê o primeiro passo. O primeiro passo? Jogar fora os pacotes que venderam pra você. Já é um bom começo.

08/09/2010 Posted by | Ferramentas, Igreja, Liderança, Psicologia, Textos | 6 Comentários

SE EU FOSSE MAIS VELHO

Não estou com pressa de envelhecer. Meu pai padece há anos de uma doença que o deixou senil e caquético. A velhice me intimida. Sei que na terceira idade não só perderei a impetuosidade típica dos jovens, como me tornarei mais vulnerável às doenças degenerativas. Mesmo assim espero pelos meus dias de ancião, porque só os velhos podem dizer coisas proibidas aos jovens. Estou ansioso para que chegue o tempo de poder dizê-las.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu diria aos mais jovens que desistam do sonho de galgar a fama em nome de Deus. Contaria que já presenciei o desespero de alguns que, tendo almejado se destacar como referenciais de sua geração, vieram a descer do trem fatigados e destruídos pelo ônus da fama. Descreveria os bastidores de algumas “grandes” agências evangelísticas e de outras para-eclesiásticas, e como me enojei com a petulância de alguns evangelistas famosos. Falaria de minhas lágrimas, quando um deles afirmou que passaria por cima de qualquer pessoa desde que conseguisse estabelecer o que chamou de “reino de Deus”. Incentivaria os jovens a buscarem uma vida discreta, sem o glamour do mundo, a preferirem a senda do Calvário. Pediria que optassem por beber o cálice do Senhor em vez de desejarem os louros da glória humana.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu alertaria aos mais jovens que ambicionam subir os degraus denominacionais sobre o perigo de chegar ao topo sem alma. Narraria os conchavos da política eclesiástica como ridículos e fúteis. Candidamente, contaria casos de traição, logro e delação nas reuniões secretas de algumas cúpulas religiosas. Pediria que fugissem da ganância pela autoridade institucional. Ensinaria a desejarem autoridade espiritual, que não vem de negociatas, mas de uma vida piedosa e íntima com Deus.


 

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Diria aos mais jovens que não se iludissem com o academicismo. Eu lhes revelaria como alguns acadêmicos usam da erudição para se esconderem de Deus. Não teria medo de mostrar que muita bibliografia citada em rodapé de página vem de uma vaidade boba. Algumas pessoas buscam se mostrar mais cultas do que na verdade são. Diria que certos eruditos são pessoas insuportáveis no contato pessoal e que eles também padecem dos mesmos males que todos nós: intolerância, indiferença e muita, muita soberba. Contudo, eu lhes pediria que fossem amigos dos livros. Pediria que lessem muito e diversificadamente; que usassem o conselho de Tiago na busca da sabedoria: “Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. A sabedoria, porém, lá do alto, é primeiramente pura; depois pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”. (Tg 3.13, 17.)


 

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Eu diria aos mais jovens que tomassem muito cuidado para não gastarem todas as suas energias nos primeiros anos de ministério. Exortaria, ilustrando o serviço a Deus como uma maratona e dizendo que não adianta se apressar nos primeiros anos. Contaria os exemplos de tantos que se arrebentaram antes da linha de chegada. Quantos pastores destruíram suas famílias e seus filhos no afã de serem úteis e produtivos! Quando chegaram os anos da meia idade, já estavam estressados e cansados! Falaria daquele dia em que o meu semblante descaiu ao ouvir um pastor dizer que só não saía do ministério porque, já muito velho, não sabia como retornar ao mercado de trabalho. Pediria que não perdessem a oportunidade de passear com os filhos no parque, de ler livros que não os úteis ao ministério, de curtir a sua mulher e de praticar algum esporte. Eu pregaria um sermão baseado em Mateus 16.26 e explicaria que, para Jesus, perder a alma tem um sentido mais amplo do que simplesmente morrer e ir para o inferno. Basearia minha mensagem na afirmação de que um pastor ou evangelista pode ganhar o mundo inteiro e acabar perdendo os afetos do cônjuge, os sentimentos dos filhos e dos amigos, a auto-estima, o sorriso, a capacidade de amar a poesia e de cantar canções de ninar. Enfim, perder a alma!

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Eu diria aos mais jovens que não desejassem o espalhafato espiritual nem as demonstrações exuberantes do poder carismático. Revelaria que alguns desses evangelistas americanos que muitos acreditam superungidos passam a tarde na piscina do hotel em que se hospedam, antes de encenarem a sua superespiritualidade em megaeventos. Não temeria denunciar alguns que se trancam em seus aposentos para assistirem a filmes na televisão e logo depois sobem às plataformas com o ar de santos da hora. Não hesitaria em alardear que muito daquilo que se rotula como demonstração de poder espiritual nasce de uma mentalidade que busca levar as pessoas a uma falsa euforia religiosa.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu diria aos mais jovens que a sexualidade é terreno minado e cheio de armadilhas. Contaria exemplos de ministérios que ruíram pela sensualidade. Alertaria que o grande perigo do sexo não vem da beleza, mas da solidão e do poder. Muitos pastores naufragaram em adultério porque se sentiram sós. Não tinham amigos verdadeiros. Viviam rodeados de assessores, sem um amigo com quem pudessem abrir o coração e pedir ajuda. Eu incentivaria os mais jovens a desenvolverem amizades, preferivelmente fora de seus quintais denominacionais. Suplicaria que fizessem amigos com coragem de falar coisas duras, olhando nos olhos. Lembraria que são fiéis as feridas feitas por aquele que ama.


 

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Eu diria aos mais jovens que tomassem cuidado com os modismos teológicos, ventos de doutrina e novidades eclesiásticas. Falaria das inúmeras ondas que varreram as igrejas com pretensas visitações de Deus. Vermelho de vergonha, lembraria aquele culto em que se alardeou que Deus estava trocando as obturações por ouro. As pessoas se sujeitavam ao ridículo de investigarem a boca umas das outras e depois, ao confundirem as restaurações amareladas de material de baixa qualidade com ouro, saíam proclamando um milagre de Deus. Relataria a pobreza doutrinária daqueles que jogaram os evangélicos na paranóia da guerra espiritual e ensinaram às mulheres a vigiarem mais durante a menstruação por haver demônios que se alimentam daquele tipo de sangue. Imploraria que se mantivessem fiéis ao leito principal do evangelho, à doutrina dos apóstolos; que não deixassem de pregar a Cruz do Calvário.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu diria aos jovens que não procurassem imitar ninguém. Lamentaria a tentativa patética de alguns líderes de quererem ser clones de pastores e evangelistas de renome. Mostraria vários exemplos ridículos de igrejas que tentaram reproduzir no sofrido Brasil o modelo de igrejas abastadas dos subúrbios americanos. Admoestaria que soubessem aceitar-se. Pediria que não ficassem procurando repetir gestos, neologismos, tom de voz e maneirismos dos outros, pois acabarão sem identidade. Eu mostraria na Bíblia que Deus não nos cobrará por não havermos ensinado com a destreza de Paulo, ou nos portado com a ousadia de Pedro, ou escrito com o mesmo amor de João. Teremos de prestar contas ao Senhor apenas por não termos vivido nossa própria identidade.


SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Diria aos jovens que a obra que Deus tem para fazer em nós é muito maior que aquela que Ele tem para fazer por meio de nós. Diria que somos preciosos como filhos e não como servos. Melancolicamente, falaria que na velhice muitos sentem saudade dos tempos que poderiam ter sido íntimos de Deus, mas acabaram chafurdados nos pântanos de sua própria vaidade. Diria que na velhice muitos choram por saberem que o tempo da partida está próximo e que não escolheram a melhor parte, como fez Maria.

Eu deveria ter esperado para dizer essas coisas quando estivesse mais velho. Por impetuosidade, acabei dizendo antes do tempo. Contudo, acredito que não me arrependerei de tê-las dito agora.

Ricardo Gondim é teólogo brasileiro, presidente nacional da Assembléia de Deus Betesda, presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos

26/07/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Textos | 8 Comentários

ALTEREGO VIRTUAL

Alterego Virtual

A família inteira correu para o computador, quando uma voz nada
familiar invadiu o mezanino da casa onde morávamos. Estávamos em
1997 e eu acabara de fazer minha primeira conexão de voz usando um
programinha paleolítico que veio num disquete de revista. Naquele
tempo os programas de Internet eram baixados das bancas.

A conexão estava por um fio e qualquer solavanco era capaz de
derrubá-la. Quando caía, era preciso ficar discando para o provedor
de Internet até conseguir linha e ouvir o teré-té-té do modem, cuja
embalagem dizia ser “High Speed”.

– Hello? – arrisquei, sem saber com que língua o outro teclava.

– Hi, how are you? – respondeu a voz alienígena dando início a um
papo furado que iria durar mais de uma hora.

Dez anos depois interagir online com pessoas de outros lugares
tinha virado lugar comum. Então alguém inventou uma mescla de game
“Wolfenstein 3D” com shopping, clube de campo e danceteria e
batizou aquilo de O “Second Life”. O serviço prometia a
possibilidade de você ser uma pessoa diferente em um outro mundo,
enquanto interagia com pessoas que não eram o que diziam ser neste
mundo. Em 2007 decidi experimentar a tal da segunda vida.

Digitei http://www.secondlife.com e tentei criar meu Avatar – era assim
que chamavam o bonequinho mal acabado que devia ser a segunda via
de mim. Logo descobri que não podia ser eu mesmo. Podia ser
“Mario”, mas não “Persona”, já que era obrigado a escolher o
sobrenome de uma lista que não tinha o meu. Tinha “Pessoa”, então
decidi ser “Mario Pessoa”. Num mundo virtual em inglês eu virei
português!

Mesmo assim fui barrado. Alguém tinha escolhido ser eu antes de
mim. Voltei para as opções de sobrenome e encontrei um muito
estranho: “Falta”. Na falta da opção de usar meu próprio nome e
sobrenome, digitei “Achei” no campo do nome e escolhi “Falta” por
sobrenome. Beleza, no “Second Life” eu sou o “Achei Falta”. Nem
preciso dizer que o nome estava disponível.

Clica aqui, clica ali, e no campo da data de nascimento, o exemplo
dado era “1980”. Será que nascidos em 1955 eram velhos demais para
brincarem ali? Fiz de conta que não entendi e escolhi um Avatar
nada parecido comigo, por absoluta falta de modelos velhos e
barrigudos. Eram todos jovens e sarados.

Cliquei que li o contrato que não li, e baixei 30Mb de programa…
só para receber um aviso de que minha placa de vídeo era
incompatível! Para quem nasceu em 1955 e tem uma placa de vídeo
igual à minha, pelo jeito a opção é assistir desenho animado em
parede de caverna. Depois dos sem-terra e sem-teto, descobri que
havia os sem-second-life. Eu era um deles.

Achei que não valia a pena investir numa segunda placa só para ter
uma segunda vida, então comecei a pesquisar sobre como seria viver
naquele mundo do faz-de-conta. Seus mais de cinco milhões de
habitantes na época podiam comprar, vender, dançar e viver lá como
nunca conseguiram aqui. Seria uma opção para os frustrados? Os mais
empolgados podiam até pagar aqui, em dinheiro real, por terrenos
virtuais comprados lá, onde não existe IPTU.

Considerando que consegui criar meu Avatar, mas não consegui
entrar naquele mundo virtual, uma coisa me preocupa: Onde andará
meu segundo eu? E mais: Como posso ser eu se não posso estar onde
estou? Será que virei uma alma penada num limbo virtual? Agora vem
a notícia de que o “Second Life” demitiu 30% de sua equipe. Talvez
fosse a chance de eu me encontrar comigo aqui fora, mas descobri
que só demitiram personagens reais, nenhum virtual. Três anos
depois o “Achei Falta” deve sentir muita falta de mim. Ou não.

Para matar a fome de interatividade virtual vou quebrando o galho
com o Skype, tataraneto daquele programinha que fez a família
inteira ficar grudada no micro numa noite qualquer de 1997. Naquela
experiência eletrizante, eu e meu interlocutor não passávamos de
nicknames, mas o papo rolou legal. A coisa só perdeu a graça quando
fiz a pergunta que deveria ter feito logo de início, antes de
passar mais de uma hora conversando em inglês:

– Where are you from?

– São José dos Campos – respondeu ele.

Mario Persona é escritor, palestrante e consultor de comunicação e marketing.

07/07/2010 Posted by | Textos | Deixe um comentário

Porque procurar um Psicólogo? (repostando)

Porque procurar um Psicólogo?

Psicologia significa o estudo da alma. É a ciência que se dedica a estudar o indivíduo em sua essência: sua mente, razão, instintos, desejos, emoções, comportamentos e seus conflitos nas relações com os outros e consigo mesmo.

Existem muitas formas de entender e conceituar os conteúdos psicológicos e, dependendo do enfoque dessa análise, surgem as diferentes teorias que vão compreender e explicar a natureza humana, as chamadas abordagens ou linhas teóricas da Psicologia como a Psicanálise, a Psicologia Existencial-Humanista, o Psicodrama, a Psicologia Comportamental, entre outras. Embora cada uma delas estude o homem de uma forma diferente, todas buscam compreendê-lo de maneira global e todas contribuem na obtenção de uma visão mais precisa e detalhada da condição e das características humanas. Da mesma forma que muitas são as abordagens psicológicas, são muitas também as técnicas para aplicar clinicamente os conhecimentos psicológicos. A aplicação clínica das técnicas psicológicas com objetivo de tratamento é chamada Psicoterapia. A Psicoterapia objetiva auxiliar o indivíduo a lidar com suas emoções e com seus conflitos psicológicos da mesma forma que um oftalmologista auxilia aqueles que estão sofrendo um problema de visão ou um dentista auxilia aquele que tem uma dor de dente. Parece lógico alguém que não está enxergando bem procurar um oftalmologista ou alguém que quebrou um dente procurar um dentista, mas por que ainda é tão complicado para aqueles que sofrem com seus problemas psicológicos, procurar um psicólogo? Existem muitas respostas possíveis para esta pergunta como o antigo preconceito de que a Psicologia só trata de loucos, a idéia de ser um tratamento caro ou então muito demorado, etc. Assim, a pessoa até pensa em buscar ajuda, mas por vergonha ou desinformação, acaba desistindo.

A Psicoterapia, ao contrário do que muitos pensam, é um tratamento com começo, meio e fim onde o psicólogo aplica seus conhecimentos para diagnosticar o problema, entender e criar estratégias, juntamente com o indivíduo que o procurou, para solucioná-lo. Assim como o médico vai diagnosticar e tratar aquele problema físico, o psicólogo vai tratar suas dores emocionais. Mas que dores são essas? As angústias, medos, ansiedades, os problemas de relacionamento, as depressões e tantas outras dificuldades e inquietações que dificultam ou, até mesmo, impedem o desenvolvimento saudável da vida da pessoa que sofre por não saber lidar com elas. A psicoterapia é o caminho de enfrentamento dessas questões que incomodam. É um cuidado que se tem com sua saúde emocional. Ter saúde não significa apenas não ter alguma doença instalada no corpo ou na mente, ter saúde significa viver bem, ter qualidade de vida, dispor de bem-estar físico, psíquico e social. Infelizmente nem sempre conseguimos manter esse bem-estar e uma boa qualidade de vida. São muitas as razões que temos hoje em dia para que algum desequilíbrio aconteça. Temos tantos compromissos a cumprir, papéis a desempenhar, contas a pagar, problemas para solucionar… Estamos diariamente expostos a fatores estressantes que estão por toda parte: trânsito, violência urbana, poluição sonora, visual, ambiental, falta de um período reservado ao descanso, desentendimentos com amigos ou familiares, problemas no trabalho, em casa ou mesmo tantos outros motivos particulares e únicos que podem nos levar a alguma alteração de ordem física ou psicológica das quais sentimos não poder dar conta sozinhos. É comum sentir-se exausto depois de um dia cheio de atividades e de correria, tristes após uma briga com o namorado, um parente ou algum amigo querido. Às vezes acordamos com preguiça, mal-humorados ou então ficamos desencorajados de sair de casa para trabalhar em um dia frio e chuvoso. Tudo isso faz parte do nosso cotidiano, principalmente nas grandes cidades. Porém, esses problemas vêm e vão, são acontecimentos comuns do ambiente em que vivemos e cada indivíduo a seu modo, cria estratégias para lidar com eles.

Buscamos fontes de alegria e prazer de diversas formas como no happy hour com os colegas após o trabalho, em casa vendo um bom filme, passando alguns momentos com a família. Realizamos coisas que nos fazem bem, nos trazem descanso ou satisfação e assim vamos vivendo, trabalhando, correndo atrás de nossos objetivos, sonhos, deveres e construindo nossa história. Lidamos com nossos problemas, enfrentamos as dificuldades que vão surgindo e aproveitamos os bons momentos que vivemos, mas o que fazer quando as coisas não ocorrem assim? Existem muitas pessoas que se sentem mal freqüentemente, não conseguem levar bem suas vidas, mas preferem mascarar seu sofrimento e esperar que ele passe por si só. Pensam que nada podem fazer a respeito, mesmo sentindo-se infelizes e inadequadas, querem falar e não sentem que são realmente ouvidas ou compreendidas pelas pessoas de seu convívio. Alguns se calam, preferem se isolar. Há aqueles que agridem e descontam seus problemas nas pessoas que estão ao seu redor. Outros se medicam por conta própria. Existe também quem passa a se entorpecer com drogas e os que podem se engajar em comportamentos viciados e destrutivos como, por exemplo, a utilização exagerada e inapropriada de jogos, da atividade sexual ou de comportamentos de auto-risco para si e para os outros. Tudo isso pode ser muito eficaz para iludir a si mesmo e arrastar seus sofrimentos por mais tempo, mas nunca irão de fato resolver nada de concreto, pelo contrário, vão contribuir para a piora do quadro de angústia, culpa, sensação de vazio, além de outros problemas mais sérios que podem surgir. Quando o mal-estar parece tomar conta da vida, quando a irritação e a ansiedade extrapolam os limites da boa convivência com as pessoas ou quando a tristeza aparece sem motivo aparente e se instala por dias, semanas ou mesmo meses e não parece ter ânimo de ir embora. Quando algo não vai bem, incomoda, machuca, persiste e não encontramos recursos suficientes em nós mesmos para compreender e enfrentar a situação que está afetando ou impedindo o andamento saudável de nossa vida, podemos buscar um auxílio psicológico. A Psicologia vai buscar um ponto de equilíbrio entre suas emoções, suas razões e seus comportamentos para favorecer atitudes que gerem segurança e bem-estar. O psicólogo vai escutá-lo e ajudá-lo a identificar suas dificuldades e necessidades, a refletir a respeito delas e de suas causas criando meios para tratar estes conflitos, gerando, assim modificações positivas em sua vida. Alguns benefícios que um bom processo psicoterapêutico poderá trazer: – De início, pode-se dizer que o simples compartilhar desses conflitos já ajuda a aliviar a pressão causadora de sofrimento. -Em seguida, durante o processo psicoterapêutico, você passará a compreender progressivamente seus conteúdos internos e suas atitudes. Assim, poderá ver as coisas por outros ângulos e enxergar o que antes era desconhecido para você mesmo. -Será mais fácil, por exemplo, perceber de que forma e em que intensidade você se deixa atingir pelo seu ambiente, pelas pessoas ou por sua história de vida. -Proporcionará analisar com maior clareza de que maneira você está levando sua vida, como lida com seus limites, sentimentos, frustrações. -Aumentará sua percepção a respeito de suas qualidades positivas e negativas de forma a poder utilizá-las mais a seu favor. -Auxiliará na modificação de comportamentos e hábitos prejudiciais. -Favorecerá a liberação de sentimentos indesejáveis, ilusões, racionalizações e equívocos sobre si mesmo e sobre os outros. -Resgatará a auto-estima. -Permitirá a tomada de decisões mais conscientes para sua vida porque ampliará a visualização de outras possibilidades. -Promoverá a que quebra do círculo vicioso de comportamentos padrão, sentimentos, pensamentos e atitudes que você insiste em repetir e nem se dá conta. -Ajudará a lidar com as insatisfações e frustrações. -Cuidará de problemas específicos que lhe estão incomodando, entre outros. A Psicoterapia pode, realmente, lhe trazer muitos destes benefícios, mas é importante que se saiba que isso leva tempo e demanda esforço e disciplina do paciente. É um processo muitas vezes doloroso, mas que traz como recompensa o amadurecimento, crescimento e desenvolvimento pessoal. A procura pelo auxílio de um psicólogo pode se dar pelos mais diversos motivos que vão desde problemas emergenciais muito bem focalizados, orientações e esclarecimentos, dificuldades existenciais ou mesmo pela busca de autoconhecimento. Entre tais motivos podemos destacar: – Perdas (de um ente querido, emprego, separação conjugal, etc). – Problemas de relacionamento interpessoal com a família, amigos, colegas de trabalho, cônjuge… – Timidez – Depressão – Stress – Insegurança – Dificuldades Afetivas – Incapacidade para lidar com mudanças – Fobias – Pânico – Alterações freqüentes de humor – Transtorno de ansiedade – Transtorno obsessivo-compulsivo – Transtornos alimentares – Problemas sexuais – Doenças psicossomáticas – Problemas de aprendizagem – Orientação vocacional – Crises de transição das fases da vida como adolescência, maturidade, envelhecimento, etc.

Quanto mais cedo se procura ajuda, mais cedo se diagnostica e se trata o problema. Para que o processo psicoterapêutico se dê de forma satisfatória é preciso saber que o psicólogo não tem sozinho as respostas que você procura e, portanto, não lha dará soluções mágicas. O sucesso da terapia ocorrerá como resultado do trabalho e do comprometimento do terapeuta e do paciente. A atitude firme do paciente em querer melhorar é fundamental para o sucesso da terapia da mesma forma que é importante a competência profissional do terapeuta. Quanto à duração do processo psicoterapêutico deve-se dizer que não há um tempo certo para finalizar um tratamento. Cada caso tem suas características próprias, assim como cada pessoa tem um ritmo único e pessoal para lidar com sua subjetividade. Algumas vezes o paciente chega com uma queixa bem delimitada que em poucas sessões é resolvida e em outros casos os problemas trazidos são mais complexos demandando assim um tempo maior. Cada um tem seu tempo. Ao procurar um profissional é preciso se certificar de que se trata de alguém preparado e que, portanto, tem condições de ajudá-lo de fato. Observe se é formado e se tem registro no Conselho de Psicologia. O paciente deve saber que tudo o que é tratado em psicoterapia mantém-se em sigilo absoluto. Esse é um direito do paciente assegurado pelo Código de Ética Profissional de Psicologia. Além disso, também é importante que você sinta empatia e confiança no seu psicólogo e que se sinta bem e acolhido na clínica em que procurou para fazer terapia. Não tenha receio de visitar alguns profissionais antes de se decidir por aquele que você mais gostou. Geralmente a primeira entrevista não é cobrada e é uma boa oportunidade para você tirar suas dúvidas e conhecer o trabalho realizado pelo terapeuta.

Procurar ajuda psicológica é um sinal de coragem e maturidade.

É a oportunidade que você se dá para olhar de frente seus problemas e as dificuldades causadoras de infelicidade e sofrimento para aprender a melhor maneira de lidar com elas, se fortalecer, desenvolver seus potenciais, se autoconhecer. É um investimento na sua qualidade de vida e no seu crescimento pessoal. Fazer psicoterapia é reservar um espaço e um tempo na sua vida para cuidar de você.

29/06/2010 Posted by | Psicologia, Textos | 4 Comentários

Sam Harris e Rick Warren

Debate sobre Deus: Sam Harris e Rick Warren:

Em um dia nublado da Califórnia Sam Harris o ateu, sentou com o pastor cristão Rick Warren para discutirem sobre a mais profunda pergunta da vida – Deus é real? Uma entrevista exclusiva para a revista Newsweek. Edição de 9 de abril, 2007

– Rick Warren é tão grande quanto um urso, com uma voz forte e um encanto simples. O Sam Harris é compacto, reservado e, apesar do tom polemico de seus livros, amigável e suave. Warren, um dos pastores  mais conhecidos no mundo, começou a Igreja de Seddleback em 1980 ; Agora 25.00 pessoas frequentam  a igreja cada domingo. Harris, tem a voz macia; as palavras saltam da sua boca, complexas e fundamentadas em fatos como deve ser um estudante de neurosciencia. A convite de NEWSWEEK, encontraram-se no escritório de Warren recentemente e conversaram, na maior parte do tempo amigavelmente  por quatro horas. Jon Meacham , foi o entrevistador . Os depoimentos seguem.

JON MEACHAM: Rick, já que você é do time da casa, nós começaremos com Sam. Sam, existe um Deus no sentido que a maioria dos americanos pensa dele ?

HARRIS : Não há nenhuma evidência de tal Deus, e é interessante observar que nós somos todos  ateus com respeito a Zeus e a milhares de outros deuses inoperantes a quem agora ninguém adora.

 Rick, Qual é a evidência da existência do Deus de Abraão?

RICK WARREN; Eu vejo as impressões digitais de Deus em toda parte. Eu as vejo   na cultura. Eu as vejo na lei. Eu as vejo na literatura. Eu as vejo  na natureza. Eu as vejo em minha própria vida. Tentar compreender de onde Deus veio é como uma formiga que tenta compreender a Internet. Mesmo o cientista mais brilhante concordaria que nós sabemos somente uma fração de um por cento do conhecimento do universo.

HARRIS: Todo o cientista deve admitir que nós não compreendemos inteiramente o universo. Mas nem a Biblia nem o Qur’an representam nossa melhor compreensão do universo. Isso está absolutamente claro.

WARREN: Pra você.

HARRIS: Há tanto sobre nós que não está na Biblia. Cada ciência específica da cosmologia a psicologia à economia tem superado e substituído o que o Bibla nos diz ser verdadeiro sobre nosso mundo.

Sam, os cristãos a quem você se dirige em seus livros têm que acreditar que Deus escreveu a  Biblia e que é literalmente verdadeira?

HARRIS: Bem, há claramente uma demonstração de confiança no texto. Eu quero dizer, existe o“Isto é literalmente verdadeiro, nada pode ser interpretado figurativamente ” e existe também o “ Isto é simplesmente o melhor livro que nós temos, escrito pelas pessoas  mais espertas que já existiram, e é válido organizarmos nossas vidas em torno dele excluindo qualquer outro livro.” Em algum lugar nessa afirmação eu tenho um problema, porque em minha cabeça tanto a Biblia quanto o  Qur’an são sómente livros, escritos por seres humanos. Há partes da Biblia  que eu acho que são  absolutamnente brilhantes e sem nenhuma comparação poetica , e há  partes da Biblia que são o mais absurdo barbarismo , e no entanto garante prescrever uma moralidade divinamente orientada –como entender isto? Os livros como Leviticos e Deuteronomio e Exodos e primeiro e segundo Reis e segundo Samuel -metade dos reis e dos profetas de Israel seriam levados ao tribunal de Haia e executados por crimes contra a humanidade se estes eventos ocorressem em nosso  tempo.

[ Para Warren] A  Biblia é pertinente?

WARREN: Eu acredito que é pertinente no que reivindica ser. A Biblia não reivindica ser um livro científico em muitas áreas.

Você acredita que a criação aconteceu da maneira que o Genesis a descreve? WARREN: Se você estiver me perguntando se eu acredito na evolução, a resposta é não. Eu acredito que Deus, em um momento, criou o homem.  Eu realmente acredito que o Genesis é literal, mas eu sei também que termos metafóricos são usados. Deus desceu dos céus e soprou no nariz do homem? Se você acreditar em Deus, você não tem  problema  em aceitar milagres. Assim, se Deus quer fazer dessa maneira, está tudo bem pra min.

HARRIS: Eu estou fazendo meu Ph.D. em neuroscience; Eu estou muito perto da literatura de biologia evolucionária. E o ponto básico é que a evolução pela seleção natural é aleatória e uma mutação genética que acontece por milhões de anos no contexto da pressão ambiental que seleciona para a aptidão.

WARREN: Quem está selecionando?

 HARRIS: O ambiente. Você não tem que chamar um desenhista inteligente para explicar a complexidade que nós vemos.

WARREN: O Sam faz todos os tipos de afirmações baseadas em suas presuposições. Eu estou disposto admitir minhas presuposições: existem indícios de Deus. Eu falo com Deus diáramente.  Ele fala comigo.

HARRIS: o que isso realmente significa ?

WARREN: Uma das grandes evidências da existência de Deus são orações respondidas. Eu tenho um amigo, um amigo canadense, que tem um problema de imigração. É um membro nesta igreja, então eu disse ; “Deus, eu preciso que você me ajude com isso,” enquanto eu saía para minha caminhada da noite. Quando eu estava andando encontrei-me com uma mulher. E ela disse, “eu sou advogada eu ficaria feliz em assumir este caso. “Agora, se isto acontecesse uma vez na minha vida eu diria, “que é uma coincidência.” Se acontecesse dez mil vezes, isto não é uma coincidência.

 Deve ter havido épocas em seu ministério que você orou para que alguém fosse curado  de uma doença e ela não foi – por exemplo  uma menina  com câncer.

WARREN: Oh, com certeza.

Então, analise isso. Deus deu-lhe um advogado de imigração, mas Deus matou uma menina.

WARREN: Bem, eu acredito na bomdade de Deus, e eu acredito que Êle sabe  melhor do que eu. Deus às vezes diz sim, e Deus às vezes diz não e Deus ás vezes diz espera. Eu tive que aprender a diferença entre o Não e o Ainda Não. O assunto aqui é  realmente entregar – se. Muitos ateus se escondem no racionalismo: quando você começa a sondar, você descobre que suas reações são bastante emocionais. Realmente, eu nunca conhecí  um ateu que não fosse  irritado.

HARRIS: Deixe-me ser o primeiro.

WARREN: Eu acho que seus livros são bastante irados.

HARRIS: Eu diria impaciente e não irados. Deixe-me responder a este exemplo de oração respondida, porque este é um erro clássico de amostragem, usando uma frase estatística. Nós sabemos que os seres humanos têm um sentido terrível de probabilidade. Há muitas coisas que nós acreditamos que confirmam nossos preconceitos sobre o mundo, e nós acreditamos nisso somente observando as confirmações, e não se mantendo a par das não confirmações. Você poderia provar para satisfação de muitos cientistas que a oração intercessória funciona se você fizesse esta simples experiência. Consiga que um bilhão de cristãos orem por um único mutilado. Peça pra que eles orem para que Deus faça crescer aquela parte amputada novamente. Isto acontece com as salamandras diariamente, com certeza sem orações, isto é coerente com a capacidade de Deus.[ Warren está rindo.] Eu acho interessante que as pessoas de fé  tendem a orar somente por circunstâncias que são limitadas para elas.

WARREN: Existe uma interpretação falsa aí.

HARRIS: Vamos voltar á Bibla. A razão que você acredita que Jesus é o filho de Deus é porque você acredita que o  Evangelho  é um relato  válido dos milagres de Jesus.

WARREN: É uma das razões.

HARRIS: Yeah. É uma das razões. Agora, há muitos testemunhos sobre milagres, cada um tão surpreendente quanto os milagres de Jesus, na outra literatura das religiões do mundo. Até mesmo milagres atuais. Há milhões de pessoas que acreditam que o Baba de Sathya Sai, o guru do sul da India, nasceu de uma de uma virgem, levantou os mortos e materializou objetos, você pode ver alguns de seus milagres no You Tube. Prepare para ser surprendido. Ele é um mágico dos palcos.  Como um cristão, você pode dizer que histórias de milagres do Baba de Sathya Sai não são interessantes, não prestar atenção a elas, mas se você os vê  no contexto do Império Romano pré-cientifico do primeiro-século, de repente as estórias dos milagres se tornam especialmente comoventes.  Sam, quais são as fontes seculares de um código moral aceitável?

HARRIS: Bem, eu não creio que os livros religiosos são a fonte. Nós lemos a Biblia e nós somos os juizes do que é bom. Nós vemos a régra de ouro como a purificação dos impulsos éticos, mas a régra de ouro não é única da  Bible ou de  Jesus; você a vê em muitas e muitas  culturas- e você vê uma  forma dela entre primatas não humanos. Eu não sou de modo nenhum um relativista moral. Eu acho que é bastante comum entre povos religiosos acreditar que o ateismo envolve o relativismo moral. Eu creio que há um certo e errado absoluto.

     Eu creio que honrar o crime, por exemplo, é absolutamente errado – você pode usar a  palavra demoníaco. Uma sociedade que mata mulheres e meninas por falta de descrição  sexual, mesmo a indiscrição de ser violentada, é uma sociedade que matou  a compaixão, que falhou não  ensinando aos homens a valorizar as mulheres e erradicou a empatia. Empatia e compaixão são nossos impulsos morais mais básicos, e nós podemos até mesmo ensinar a regra de ouro sem mentir para nós mesmos ou ás nossas crianças sobre a origem de determinados livros ou do nascimento virgem de determinados povos.

Rick, O cristianismo tem se comportado de uma maneira covarde e má de tempos em tempos. Como você enquadra isso com o Evangelho Cristão do amor?

WARREN: Eu não me sinto obrigado a defender atos que são feitos em nome de Deus quando eu não creio que Deus os tenha aprovado ou defendido. Existem coisas que foram feitas em nome do Cristianismo erradamente? Sim. O Sam faz uma afirmação em seu livro que religião é ruin para o mundo, mas mais pessoas foram mortas por causa do ateismo do que em todas as guerras religiosas juntas. Milhares morreram na Inquisição;  milhões foram mortos por  Mao, e por Stalin e Pol Pot. Existe um lugar para os ateístas no mundo hoje chamado Coréia do Norte. Eu não conheço nenhun ateista que queira ir pra lá. Eu prefiro muito mais viver com o Tony Blair  ou mesmo George Bush. O fim da linha é que os ateistas, que acusam cristãos de serem intolerantes, são tão intolerantes quanto eles.

HARRIS: Como eu estou sendo intolerante? Eu não estou defendendo que nós tranquemos as pessoas por causa da sua convicção religiosa. Você pode ser preso na Europa ocidental por negar o Holocausto. Eu penso que esta é uma maneira terrível de encarar o problema. Isto é realmente uma das grandes falsidades do discurso religioso, a idéia de que os maiores crimes do século 20 foram executados  por causa do ateismo. O problema central para mim é o dogmatismo divisive. Há muitos tipos do dogmatismos. Há um nacionalista, há um tribalista, há um racista e há um chauvinista. E há a religião. A religião é a única esfera do discurso onde o dogma é realmente uma palavra boa, onde é considerada nobre por acreditar em algo baseado fortemente na fé.

WARREN: Você não acha que os ateistas são dogmáticos?

HARRIS: Não, eu não acho.

WARREN: Eu sinto muito , mas eu discordo de você. Você é bastante dogmático.

HARRIS:Bem, eu estou feliz que você tenha chamado a atenção pra os meus dogmas, mas primeiro deixe-me tratar do Stalin. Os campos da matança e o gulag não foram  produtos da relutância  das pessoas em acreditar  em coisas que não tinham evidência suficiente. Elas não eram o produto de pessoas que requerem demasiada evidência e muita discussão por causa das suas crenças.

 Nós temos pessoas flying planes em nossos edifícios porque têm reclamações teológicas contra o Oeste. Eu observo cristãos fazendo coisas terríveis explicitamente por razões religiosas- por exemplo, não financiando a pesquisa embrionária. O motivo  é sempre o mais importante para mim. Nenhuma sociedade na história humana tem sofrido  por ter se tornado  demasiado racional.

WARREN: Nós estamos de total acordo quanto a isso. Eu simplesmente acredito que o Cristianismo salvou a razão. Nós não teríamos os nossos direitos garantidos se não fosse o Cristianismo.

HARRIS: Esta certamente é uma reivindicação disputada. A idéia de que de alguma maneira nós estamos tirando a nossa moralidade da tradição Cristã-Judaica é uma história ruin e uma ciência ruin.

WARREN: De onde você tira a sua moralidade ? Se não tem nenhum deus, se eu for simplesmente um produto um objeto complicado, então a verdade é, que sua vida não importa, minha vida não importa.

HARRIS: Isto é uma caricatura total de…..

WARREN: Ò ,não, deixe-me terminar. Eu deixei você caricaturar o Cristianismo. Se a vida for apenas uma possibilidade aleatória, então nada realmente importa e não há nenhuma moralidade- é a sobrevivência do mais apto. Se  a sobrevivência   dos mais  aptos significa eu matar você para sobreviver, então que seja. Por anos, os ateistas têm dito que não há Deus, mas querem viver como se Deus existisse. Êles querem viver como se suas vidas tivessem significado .

HARRIS: Nossa moralidade, o significado que nós encontramos na vida, é uma experiência vivida que eu acredito tenho que usar um termo pesado, um componente espiritual. Eu acredito que é possível transformar radicalmente nossa experiência do mundo para melhor, de certa forma da maneira como alguém como Jesus ou alguém como Buda, testemunhou. Existe uma sabedoria em nossa literatura espiritual, contemplativa, e eu estou muito interessado em compreendê-la. Eu creio que meditação e a oração nos afetam para o melhor. A pergunta é, o que é razoável acreditar tendo como base estas transformações.

WARREN: Você não vai admitir que é a sua experiência que faz  de você um ateista, e não a racionalidade.

HARRIS:O que em sua experiência está fazendo de você alguém que não é muçulmano? Eu presumo que você não está perdendo o sono toda noite querendo saber se se converte ou não ao Islamismo

 E se você não vai, é porque os muçulmanos dizem, “Nós temos um livro que é a palavra perfeita do criador do universo, é o Qur’an, e ele foi ditado a Muhammad em sua caverna pelo arcanjo Gabriel,” você vê lá uma grande variedade de afirmações que não são apoiadas por evidencias suficientes . Se as evidencias fossem suficientes, você seria motivado para ser Muçulmano.

WARREN: Isso é verdade

HARRIS: Assim você e eu ambos temos um relacionamento com o ateísmo e o Islamismo.

WARREN: Nós ambos estamos em um relacionamento de fé. Você tem a fé que não há nenhum deus. In 1974, eu passei a melhor parte do  ano morando no Japão, e eu estudei todas as religiões do mundo. Todas as religiões apontam bàsicamente para a verdade. Buddha fez esta famosa afirmação no fim de sua vida: “Eu estou procurando ainda pela verdade.” Muhammad disse, “eu sou um profeta da verdade.” O Veda diz, a “verdade é difícil de ser encomtrada , ela é como  uma borboleta, você tem que caça-la. “Então Jesus Cristo vem  e diz, “eu sou a verdade.”  repentinamente, esta afirmação força uma decisão.

HARRIS: Muitos, muitos outros profetas  e  gurus disseram isso.

WARREN: Está aqui a diferença. Jesus diz, “Eu sou o único caminho para Deus. Eu sou o caminho para o pai. “Ou Ele está mentindo ou não”.

Sam,  o Rick é  intelectualmente desonesto?

HARRIS: Eu não colocaria de uma maneira tão injusta, mas vamos dizer que o Rick não está aqui e nós estamos só visitando o seu escritório.

HARRIS: É intelectualmente desonesto, francamente, você dizer que não tem dúvida  que Jesus nasceu de uma virgem.

WARREN: Eu digo que eu aceito isto pela fé. E eu creio que é intelectualmente desonesto você dizer que você tem provas que não aconteceu. Aqui está a diferença entre você e eu. Eu estou aberto à possibilidade que eu esteja errado em determinadas áreas, e você não.  

HARRIS: Oh, eu estou absolutamente aberto a isto.

WARREN: Então você está aberto à possibilidade de que você pode talvez estar errado sobre Jesus?

HARRIS: E Zeus. Absolutamente

WARREN: E o que você está fazendo para estudar isso?

HARRIS: Eu considero isso um evento de tão baixa-probabilidade que eu…

 WARREN: Uma probabilidade baixa? Quando há 96 por cento de pessoas no mundo que acreditam? Então todos os outros são idiotas?

HARRIS: É bem possível que a maioria das pessoas estão erradas assim como a maioria dos Americanos que acham que a evolução não ocorreu.

WARREN: Esta é uma indicação arrogante.

HARRIS: É uma indicação honesta.

Rick, se você tivesse nascido na India ou no Irã, você teria uma crença religiosa diferente?

WARREN: Não há nenhuma dúvida de que onde você nasce influencia suas crenças iniciais. Independente de onde você nasceu, há algumas coisas que você pode saber sobre Deus, mesmo sem a  Bibla. Por exemplo, eu olho o mundo e digo,  “Deus gosta de variedade.” Eu digo, “Deus gosta de beleza.” Eu digo,  “Deus gosta de ordem,” e quanto mais  nós entendemos a ecologia, mais nós entendemos como esta ordem é sensivel .

HARRIS: Então Deus gosta da catapora e da tuberculose também.

WARREN: Eu atribuiria  muitos dos pecados do mundo a min mesmo.

HARRIS: E você é responsável pela catapora?

WARREN: Eu sou responsável por fazer algo sobre ela. Não há nenhuma dúvida sobre isso. Eu sou responsável por fazer algo sobre os 500 milhões que contraem malária todo ano e os 40 milhões que têm AIDS, porque eu vou ser responsabilizado pela minha vida. E quando eu disser, “Deus, porque você não faz algo sobre isto?” Deus vai dizer,“Bem, por que você não faz? Você era a resposta a sua próprio oração. “

HARRIS: Eu concordo totalmente com o Rick: é nossa responsabilidade ajudar construir uma ponte sobre estes inequities, mas eu acho que você se torna ainda mais motivado, potencialmente, para ajudar as pessoas quando você se conscientiza  que não há nenhuma boa razão, e com certeza nenhuma razão sobrenatural, para o fato de que eu tenho tanto e meu vizinho tem tão pouco. Você crê que os bons trabalhos  religiosamente  motivados são realmente prejudiciais?

HARRIS: O que  me incomoda sobre o altruísmo baseado na fé  é que está contaminado com idéias religiosas que não têm nada a ver com o alivio do sofrimento humano. Então, você tem um ministro Cristão na África que está fazendo um trabalho realmente bom, ajudando àqueles que estão com fome, curando os doentes. No entanto, como parte de sua descrição de trabalho, ele sente que tem que pregar a divindade de Jesus nas comunidades onde milhões de pessoas tem sido mortas literalmente por causa do conflito inter-religioso entre cristãos e muçulmanos. Parece-me que essa parte adicionada causa um sofrimento desnecessário. Eu preferiria ter alguém lá que quer simplesmente alimentar o faminto e curar o doente.

WARREN: Você preferiria muito mais ter um ateista alimentando o faminto do que uma pessoa que acreditasse em Deus? Todos os grandes movimentos de crescimento da civilização ocidental foram feitos por pessoas que acreditavam em Deus. Foram pastores que conduziram a abolição da escravatura. Foram os pastores que lideraram o movimento do direito da mulher ao voto. Foram os pastores que lideraram o movimento dos direitos civis. Não os ateistas.

HARRIS: Você fala da escravidão – Eu acho que é bastante irônico. A Escravidão, por putro lado, é apoiada pela Bibla, e não condenada por ela. È apoiada com uma precisão única no Velho Testamento, como você sabe, e Paulo em primeiro a Timoteo e Ephesios e Colossense apóia isto, e Peter…..

-WARREN: Não, ele não faz isso. Ele permite a escravidão. Não a apoia.

HARRIS: Ele a permite . Eu argumentaria que nós nos livramos da escravidão não porque nós lemos  Bibla com  mais atenção . Nós nos livramos da escravidão apesar das  profundas  incoerêncis da Bibla. Nós nos livramos da escravidão porque nós tomamos consciência de que era terrivelmente diabólico tratar seres humanos como equipamento de fazenda. Como era. Rick, qual é seu papel como pastor no encorajamento das reformas de outras crenças?

WARREN: Todas as grandes questões do século XXI serão perguntas religiosas. O Islamismo modernizar-se-á pacificamente? O que vai acontecer ao crescimento dos muçulmanos na Europa secular, que perdeu sua fé no Cristianismo e não tem nada para neutralizar esta perda em termos religiosos?O que vai substituir o Marxismo na China? Em todas as probabilidades vai ser o Cristianismo.  Irá a América voltar ás suas raízes históricas – haverá um terceiro, grande despertar ou a América irá pelo mesmo caminho da Europa?

HARRIS: Eu creio que as respostas, em termos espirituais e éticos,vão ser não – denominacionais. Nós estamos sofrendo a colisão das denominações, especificamente uma colisão com  o Islamismo. Qualquer que seja a verdade sobre nós, não é Cristão. E não é muçulmano. A física não é Cristã, embora foi inventada por Cristãos. A álgebra não é muçulmana, mesmo que tenha sido inventada por Muçulmano. Sempre que nós chegamos á verdade, nós transcendemos cultura, nós transcendemos nossa criação. O discurso da ciência é um bom exemplo de onde nós devemos manter a nossa esperança transcendendo o nosso tribalismo.

WARREN: Por que o ateísmo não é o mais atraente se supostamente é o mais intelectualmente  honesto?

HARRIS: Francamente , porque tem   uma  terrível campanha de relações públicas .

WARREN: [Risos] não é uma  questão de campanha  de relações públicas.

HARRIS: É quase como se fosse um molestador de criança  algo que você não quer ser. Mas isso é um produto, eu afirmaria, do  que outras pessoas religiosos dizem a um outro sobre o atheism.  Sam,  uma coisa que eu acho realmente problemático em seus argumentos é que eu sou culpado, citando  “O fim da fé,” “de um “obscenidade engraçada” quando eu levo meus filhos à igreja. Esta é  uma expressão muito forte, e não encoraja  o diálogo.

HARRIS: Até certo ponto a leveza de minha escrita é um esforço para chamar a atenção das pessoas. Mas eu posso honestamente defender a leveza porque eu penso que nossa situação é muito urgente. Eu estou estarrecido diante do que me parece ser um bottleneck que a civilização esteja passando . Por um lado nós temos a tecnologia do vigésimo primeiro século disruptiva que está proliferando, e no outro nós temos a superstição do primeiro século.A civilização vai passar por este bottleneck  mais ou menos intacta ou não. E talvez esse medo pareça  imenso, mas as civilizações terminam. Em muitas ocasiões, alguma geração testemunhou a ruína de tudo que eles e seus antepassados tinham construído. O que me estarrece especialmente sobre o pensamento religioso é a expectativa da parte de muitos que a civilização pode acabar baseado em uma profecia e o seu fim vai ser glorioso.

WARREN: Eu acredito que história se divide entre A.C. e D.C. por causa da Ressurreição. E a Ressurreição é não somente a ressurreição de Jesus Cristo , é a esperança do mundo: e isso significa  que há mais nesta vida do que apenas aqui e agora. Isto não significa que eu vou fazer menos, significa que esta vida é um teste , é uma tarefa de confiança e temporária..Se a morte é o fim,  eu  não vou desperdiçar nem mais um minuto sendo altruísta.

HARRIS: Como você explica meu altruísmo?

 WARREN: Você tem a benevolência comum. Mesmo nas pessoas que não acreditam em Deus, existe uma luz que Deus colocou em você que diz :, ” Existe mais na vida do que   apenas ganhar  dinheiro e morrer.” Eu penso que essa luz não vem da evolução. Sam escreveu que sem a  morte, a influência da religião baseada na fé seria inconcebível

WARREN: Porque nós fomos feitos à imagem de Deus, nós fomos feitos para durar para sempre. Isso significa que eu vou passar mais tempo naquele lado da eternidade do que neste lado. Se eu não acredito que haverá um julgamento, se eu acredito que Hitler vai se livrar de tudo o que ele fez , isto seria uma razão para um  grande desespero. O fato é, eu acredit que haverá um dia do Juízo Final. Deus não é apenas um Deus de amor. É um Deus de justiça. Então a morte é um fato.Por outro lado, mesmo se não houvesse nada como o céu , eu colocaria a minha confiança em Cristo porque eu descobri uma maneira significativa, satisfatória, significante  de viver.

HARRIS: Como pode ser justo para Deus ter criado um mundo que dá um testemunho tão ambíguo da sua existência? Como pode ser  justo  ter criado um sistema onde a crença é a parte crucial,  ao invés  de ser uma boa pessoa? Como pode ser justo  ter criado um mundo em que por um simples acidente de  nascimento, alguém que cresceu sendo muçulmano possa ser confundido pela religião errada? Eu não vejo como o futuro da humanidade está em boas mãos  com aquelas ortodoxias competitivas. Rick, vamos ser honestos. A alma do Sam está em perigo, em sua opinião, porque rejeitou Jesus?

 WARREN: A resposta polìticamente  incorreta é sim.

 HARRIS: Esta é a resposta honesta?

 WARREN: A verdade é, religião é mutuamente exclusiva. A pessoa que diz, ” Oh, eu apenas acredito em  todos elas, ” é um idiota porque as religiões se contradizem naturalmente. Você não pode acreditar em reencarnação e no céu ao mesmo tempo. Sam, vamos ser honestos  também. O Rick , tem,  em sua opinião, desperdiçado muita de sua vida em nome de um evangelho que você acha que é  uma superstição de primeiro-século?

 HARRIS: Eu não colocaria nesses termos austeros, porque eu não tenho  uma visão rígida  de como alguém deva gastar sua vida de modo a não  desperdiça – la.

WARREN: Qual seria a  sua resposta polìticamente incorreta?

HARRIS: Eu creio que você poderia usar  melhor seu tempo e atenção  do que organizar sua vida em torno de uma crença de que a Bíblia é a palavra  infalível de Deus e o melhor livro que nós  podemos ter em cada  assunto em questão. Como o mundo ideal funcionaria na visão de Sam Harris?  

 HARRIS :  Agora nós vamos ter que mudar as regras para falar de Deus , experiência espiritual e ética.  E eu estou que é assim. Você pode ter a sua espiritualidade. Você pode para uma caverna e praticar meditação e se transformar e então nós podemos conversar sobre porque isto aconteceu e como isto pode ser realizado novamente.Nós podemos até querer por razões perfeitamente racionais,  que nós queremos um  “Sabbath” neste país um Sabbath genuíno. Vamos nos conscientizar que existe um poder em contemplar  os  mistérios do universo, e em lembrar-se o quanto você ama  as pessoas mais próximos a você, e oquanto m você poderia amar as pessoas que você ainda não conheceu. Não há nada que você tem que acreditar sem evidencias suficientes para poder falar sobre essa possibilidade.

WARREN: Sam, você acredita  que os seres humanos tem um espírito?

 HARRIS: Há muitas razões para não acreditar em uma concepção ingénua de uma alma que flutua  fora do cérebro na morte e vai para  algum  outro lugar . Mas eu não sei.

 WARREN: Pode você ter a espiritualidade sem um espírito?

 HARRIS: Você pode sentir-se parte do universo

WARREN: Então porque você simplesmente não vai para a próxima  etapa? Porque agora  você está falando em termos extremamente irracionais.  

HARRIS:Não tem nada irracional sobre isso. Você pode fechar seus olhos na meditação e perder o sentido de seu corpo físico, totalmente. Muitos pessoas tiram disso a conclusão metafísica que ” Eu sou somente  espírito,  e eu posso transcender meu corpo.” Esta  não é  a única conclusão a que você tem que chegar  dessa experiência, e eu não creio que é a melhor   conclusão.

WARREN: Você é mais espiritual do que você pensa. Você apenas não quer um chefe. Você não quer um Deus que lhe diga o que fazer.

HARRIS: Eu não quero  fingir estar certo sobre qualquer coisa que eu não tenho certeza.

Rick, últimos pensamentos?

WARREN: Eu acredito na fé e na razão.Quanto mais nós aprendemos sobre Deus, mais nós compreendemos quão magnífico este universo é. Não existe  nenhuma contradição a isto. Quando eu olho a história, eu discordo do Sam: O cristianismo muito mais bem do que mau. O altruísmo vem do conhecimento de que há mais do que esta vida, de que lá é um Deus soberano, que eu não sou Deus.  Nós estamos ambos apostando.  Ele está apostando a sua vida que ele está certo eu estou apostando  a minha vida que Jesus não era um mentiroso. Quando nós morrermos se ele estiver certo, eu não perdi nada . Se eu estiver certo ele perdeu tudo. Eu não estou disposto a fazer este jogo.

22/06/2010 Posted by | Ferramentas, Igreja, Liderança, Teologia, Textos | 3 Comentários

“O LIVRO MAIS MAU-HUMORADO DA BÍBLIA

A ENTREVISTA ABAIXO FOI CONCEDIDA POR ED RENÉ KIVITZ A UM SITE CRISTÃO EVANGÉLICO NA OCASIÃO DO LANÇAMENTO DO LIVRO MENSIONADO. NOS CONHECEMOS EM 2007 E DESDE ENTÃO ELE TEM ME INFLUENCIADO E AO MEU IRMÃO NORTON NOS DANDO O QUE RUBEM ALVES CHAMA DE COÇEIRA NAS IDEIAS. “O LIVRO MAIS MAU-HUMORADO DA BÍBLIA” É UM LIVRO E TANTO, MAS INDICO AINDA “A OUTRA ESPIRITUALIDADE” COMO UM DOS SEUS MELHORES PENSAMENTOS. BRINQUEI DIZENDO AO ED QUE EQUIVALE AS 95 TESES DE LUTERO. BRINCADEIRAS A PARTE, É UM LIVRÃO. SE PREPARE! HÁ VIDA INTELIGENTE NO CHAMADO “REINO DE DEUS”.

Ed René Kivitz: “Devemos acabar com essa ideia de vida cristã” “Quando a vida nos decepciona, ou a gente corre para o divã, para um prosecco ou para o divino. O problema é que Deus também decepciona”, afirma o escritor em lançamento de “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”. Por Felipe Pinheiro – http://www.guiame.com.br “De novo olhei e vi toda opressão que ocorre debaixo do sol: Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; O poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console. Por isso, considerei os mortos mais felizes do que os vivos, pois estes ainda têm que viver!” (Ec 4:1-2)

O mesmo conflito que reverberou entre os escritos de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão que classificou o cristianismo como a doença da humanidade, na medida em que o entendia como um depósito de anseios do homem diante de uma vida não satisfeita, foi o assunto da observação do sábio no livro bíblico de Eclesiastes, milhares de anos antes do filósofo que declarou a morte de Deus: qual o sentido da vida?

Com um caráter contemplativo, Eclesiastes – cuja indefinição autoral vagueia entre o rei Salomão a alguém de sua elite – é permeado por reflexões discorridas a respeito da vida e suas eventualidades. “Usando a expressão do Nelson Rodrigues, ele vê a vida como ela é. Ele não lê entrelinhas, ele não tem metafísica, ele simplesmente relata fatos da vida e diz: – Olha, isso é um absurdo e isso não faz sentido. Isso é vaidade”, afirmou ao Guia-me Ed René Kivitz, autor da obra recém lançada, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”. “O autor de Eclesiastes não é nem pessimista nem otimista. Ele é realista”, enfatizou.

Fruto de uma compilação de sermões, Kivitz, também pastor da Igreja Batista de Água Branca (SP), relatou a origem do livro baseado em Eclesiastes. “Ele nasceu dentro de mim provavelmente há uns 30 anos. Não que eu tenha demorado todo esse tempo para escrever, mas as angústias que deram origem ao que veio se tornar esse texto me chegaram já na minha juventude”.

A crise existencial ocasionada pela decepção inerente aos que estão debaixo do sol é a peculiaridade que, na opinião de Kivitz, torna Eclesisastes o livro mais mal-humorado das Escrituras e “absolutamente atual”, como afirma o pastor. “Um justo que morreu apesar da sua justiça e um ímpio que teve vida longa apesar da sua impiedade” (Ec 7:15).

“Com certeza, de todos os livros da Bíblia, o cara que menos se sente confortável no mundo é o Qohélet de Eclesiastes. Esse cara pegou todo o mal estar do mundo, da existência humana, e trouxe para dentro da alma dele”, explica o autor.

A redenção da alma, segundo Kivtz, encontra-se na coragem existencial. “Se eu bem entendi o que ele está dizendo, quem tem uma alma inquieta e não se sente confortável nesse mundo é saudável. Porque errado está o mundo e não a alma de quem é inquieto no mundo”. “Quando a vida nos decepciona, ou a gente corre para o divã, para um prosecco (tipo de vinho) ou para o divino. O problema é que Deus também decepciona”, afirma Kivitz.

Ao contrário de Nietzsche, filósofo que era ateu confesso, o escritor entende que a fé deve nortear o modo de viver neste mundo caótico, repleto de injustiças sem sentido: “Eclesiastes consegue enxergar a vida como ela é e encontra caminhos de dignidade sem deixar-se levar pelo ceticismo, pela desesperança, mas ele não mascara, não se ilude e portanto nos deixa muito vulneráveis. (…) Quando estamos vulneráveis temos a fé”.

“Ninguém é capaz de entender o que se faz debaixo do sol. Por mais que se esforce para descobrir os sentidos das coisas, o homem não o encontrará. O sábio pode até afirmar que entende, mas, na realidade, não o consegue encontrar” (Ec 8:17).

Em noite de apresentação da obra “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon (SP), René Kivtz falou com exclusividade ao Guia-me. Confira a entrevista:

Guia-me: Você encararia o autor de Eclesiastes como otimista ou pessimista?

René Kivitz: O autor de Eclesiastes não é nem pessimista nem otimista. Ele é realista. Uma das palavras-chave do livro, uma das expressões, é “debaixo do sol”. Usando a expressão do Nelson Rodrigues, ele vê a vida como ela é. Ele não lê entrelinhas, ele não tem metafísica, ele simplesmente relata fatos da vida e diz: – Olha, isso é um absurdo e isso não faz sentido. Isso é vaidade. A tradução do Haroldo de Campos para “vaidade de vaidade” é névoa de nada. Ele vê a vida e não faz sentido que o homem morra e seja enterrado no mesmo lugar que o cachorro. Não faz sentido que o pobre é pobre e ninguém luta por ele. Quem poderia lutar faz dele mais pobre ainda. Ele é realista. Eu acho que Eclesiastes é um livro realista.

Guia-me: De maneira geral, o Antigo Testamento revela o plano de Deus para a humanidade com a vinda de Cristo. Como você enxerga a relação do livro de Eclesiastes com o plano de redenção?

René Kivitz: O livro de Eclesiastes não tem plano de redenção. Ele não tem plano de redenção messiânico. Ele é um dos livros de sabedoria e não um livro profético. Ele não tem redenção nenhuma; pelo contrário. Ele diz: – Olha, o que você tiver de fazer, faça da melhor maneira que você puder porque a sepultura para onde você vai a coisa acaba. Ele tem um conceito de juízo. Ele diz que Deus há de trazer juízo sobre tudo e todos. Mas ele não tem uma promessa de redenção. Talvez o grande diferencial do livro de Eclesiastes na Bíblia sagrada é que a redenção dele não é escatológica e nem metafísica. É existencial. Você redime a sua vida enquanto vive com dignidade. Sem nos tornarmos maus quando atacados pelos malvados, sem nos tornarmos cínicos quando os nossos castelos desmoronam, sem nos tornarmos insensíveis quando a miséria está ao nosso lado e os que deveriam promover a justiça são cegos e promovem mais injustiça ainda. É mais ou menos isso.

Guia-me: Qual o sentido do título do livro?

René Kivitz: Mal-humorado não no nosso sentido, que a gente considera bom-humor estar rindo e mal-humor estar irritado. Mal-humor no sentido filosófico, que especialmente os gregos tratavam, aliás o Eclesiastes é livro mais próximo da filosofia grega que nós temos na Bíblia, os gregos diziam que o mal-humor era um senso de inadequação no mundo. Um desconforto no mundo. Mal-humor no sentido de uma inquietação de quem não se sente confortável no mundo. Com certeza, de todos os livros da Bíblia, o cara que menos se sente confortável no mundo é o Kohele de Eclesiastes, o que fala diante uma assembleia. Esse cara pegou todo o mal estar do mundo, da existência humana, e trouxe para dentro da alma dele.

Guia-me: Por isso esse caráter atemporal de Eclesiastes.

René Kivitz: Ele é absolutamente atual, eu penso.

Guia-me: Você faz algumas referências musicais como a Lulu Santos, Renato Russo, Biquini Cavadão. Como você responderia a uma possível critica negativa por utilizar músicas “seculares” intercaladas com uma literatura bíblica. De misturar o sagrado com o profano?

René Kivitz: Justamente o nosso esforço cristão deve ser no sentido de acabar com esse fosso que existe entre o chamado sagrado e o profano; o secular e o religioso. Isso é próprio de uma mentalidade moderna que renegou a religião a um canto e é próprio de religioso recalcado que não quer dar o braço a torcer e admitir que fora do seu espaço religioso há sabedoria. Se eu pudesse me defender, eu diria que nós devemos acabar com essa ideia de vida cristã. Não existe vida cristã. Existe vida. Existe um jeito cristão de ver a vida e um jeito não-cristão de ver a vida. Mas existe vida. Quando o sujeito vai almoçar num restaurante, pegar um ônibus para a universidade, quando ele procura um dentista, ele não pensa que o restaurante, o dentista, a universidade e a empresa de transporte coletivo são profanos. Mas a poesia ele acha que é profana. Nós temos que usar tudo que existe e redimir a cultura, a arte e fazer com que a teologia dialogue com que a sabedoria das tradições espirituais converse e se misture com a cultura.

Guia-me: Isso até para evitar uma alienação.

René Kivitz: Que é o que existe, né? Temos que sair do nosso gueto. Eu gostaria que o livro de Eclesiastes e especialmente por conta da abordagem dele, eu gostaria que o livro Mais Mal Humorado da Bíblia fosse lido não como um livro escrito por um pastor, mas como um cara que está junto com Eclesisastes pensando a vida, mas pensando a vida junto com Nietzsche, Alberto Camin, Lulu Santos, Nelson Rodrigues ou quem quer que seja. Por sexemplo, eu citei no livro Renato Russo, citei Jimmy Peterson. Eu tive um professor no seminário que disse que tudo o que está na Bíblia é verdade mas nem tudo que é verdade está na Bíblia. Eu acho que temos que aprender a conviver com esse discernimento universal que existe fora do espaço religioso.

Guia-me: Na elaboração do livro, você teve a preocupação de não torná-lo uma aplicação somente pessoal, esquecendo-se de levar em consideração o leitor de forma mais ampla?

René Kivitz: Sim e não. O livro nasceu como uma série de mensagens que eu preguei no púlpito da Igreja Batista de Água Branca. Eu fiz uma série de sermões. É uma palavra pastoral do púlpito da Igreja que eu tentei depois traduzir em linguagem literária. Guia-me: Mais ou menos como no livro Outra Espiritualidade, que foi uma coletânia de artigos da revista Eclesia? René Kivitz: Aí é bem diferente, porque os artigos da Eclesia nasceram já como artigos. Esse nasceu como linguagem de púlpito, oral e para uma congregação cristã. É o sermão de domingo. Ele tem uma preocupação pastoral sim e tem uma abordagem de aplicação pessoal. Eu diria que por mais abrangente que eu queira ser na minha abordagem na verdade eu antes de falar com qualquer pessoa eu falo comigo mesmo. Tanto nas minhas falas de púlpito quanto nos textos que eu escrevo eu estou buscando respostas para mim. Quando eu as encontro as que me satisfazem minimamente, eu compartilho e transbordo. Mas eu estou falando primeiro para mim e depois para os outros.

Guia-me: Mas você não se preocupou que o livro fosse tão somente centrado em você?

René Kivitz: Não, porque eu acho que talvez o exercício seja buscar que a mensagem seja mais universal. Eu perceber nas dores da minha alma e nas minhas angústias e das minhas questões aquilo que há de comum com as dores das almas de todos. O Terêncio dizia: “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Eu acho que eu procuro isso em mim, e procuro como o Evangelho, o cristianismo e a tradição bíblica respondem a isso.

O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia

Editora: Mundo Cristão Páginas: 224 Tamanho: 14×21 Categoria: Espiritualidade Ano: 2009

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http://www.mundocristao.com.br/adicionais/O%20livro%20mais%20mal-humorado%20da%20Biblia.pdf

23/02/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Teologia, Textos | 2 Comentários

Testamento de Heilingenstadt – Por Ludwig van Beethoven

SABIOS E ATÉ TOLOS NÃO PERDEM TEMPO COM BOBAGEM QUANDO A MORTE SE APROXIMA, IMAGINA OS GÊNIOS (…)

Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas acções; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos. Iludido constantemente, na esperança de uma melhora, fui forçado a enfrentar a realidade da rebeldia desse mal, cuja cura, se não for de todo impossível, durará talvez anos! Nascido com um temperamento vivo e ardente, sensível mesmo às diversões da sociedade, vi-me obrigado a isolar-me numa vida solitária. Por vezes, quis colocar-me acima de tudo, mas fui então duramente repelido, ao renovar a triste experiência da minha surdez! Como confessar esse defeito de um sentido que devia ser, em mim, mais perfeito que nos outros, de um sentido que, em tempos atrás, foi tão perfeito como poucos homens dedicados à mesma arte possuíam! Não me era contudo possível dizer aos homens: “Falai mais alto, gritai, pois eu estou surdo”. Perdoai-me se me vedes afastar-me de vós! Minha desgraça é duplamente penosa, pois além do mais faz com que eu seja mal julgado. Para mim, já não há encanto na reunião dos homens, nem nas palestras elevadas, nem nos desabafos íntimos. Só a mais estrita necessidade me arrasta à sociedade. Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou! Pareceu-me impossível deixar o mundo antes de haver produzido tudo o que eu sentia me haver sido confiado, e assim prolonguei esta vida infeliz. Paciência é só o que aspiro até que as parcas inclementes cortem o fio de minha triste vida. Melhorarei, talvez, e talvez não! Mas terei coragem. Na minha idade, já obrigado a filosofar, não é fácil, e mais penoso ainda se torna para o artista. Meu Deus, sobre mim deita o Teu olhar! Ó homens! Se vos cair isto um dia debaixo dos olhos, vereis que me julgaste mal! O infeliz consola-se quando encontra uma desgraça igual à sua. Tudo fiz para merecer um lugar entre os artistas e entre os homens de bem. Peço-vos, meus irmãos (Karl e Johann) assim que eu fechar os olhos, se o professor Schimith ainda for vivo, fazer-lhe em meu nome o pedido de descrever a minha moléstia e juntai a isto que aqui escrevo para que o mundo, depois de minha morte, se reconcilie comigo. Declaro-vos ambos herdeiros de minha pequena fortuna. Reparti-a honestamente e ajudai-vos um ao outro. O que contra mim fizestes, há muito, bem sabeis, já vos perdoei. A ti, Karl, agradeço as provas que me deste ultimamente. Meu desejo é que seja a tua vida menos dura que a minha. Recomendai a vossos filhos a virtude. Só ela poderá dar a felicidade, não o dinheiro, digo-vos por experiência própria. Só a virtude me levantou de minha miséria. Só a ela e à minha arte devo não ter terminado em suicídio os meus pobres dias. Adeus e conservai-me vossa amizade. Minha gratidão a todos os meus amigos. Sentir-me-ei feliz debaixo da terra se ainda vos puder valer. Recebo com felicidade a morte. Se ela vier antes que realize tudo o que me concede minha capacidade artística, apesar do meu destino, virá cedo demais e eu a desejaria mais tarde. Entretanto, sentir-me-ei contente pois ela me libertará de um tormento sem fim. Venha quando quiser, e eu corajosamente a enfrentarei. Adeus e não vos esqueçais inteiramente de mim na eternidade. Bem o mereço de vós, pois muitas vezes, em vida, preocupei-me convosco, procurando dar-vos a felicidade. Sede felizes!

Helligenstadt, 6 de Outubro de 1802.

Ludwig van Beethoven.

20/01/2010 Posted by | Ferramentas, Textos | Deixe um comentário

SOBRE TENIS E FRESCOBOL

Tênis x Frescobol

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\’ Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo…’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\’ não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá…

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\’. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\’. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…

18/01/2010 Posted by | Textos | 3 Comentários

Falando pouco ou não falando nada (…)

“… E se um demônio ou anjo se arrastasse sorrateiramente atrás de você na mais solitária de suas solidões, e dissesse: ‘Esta vida que está vivendo terá que ser vivida por você novamente, durante vezes sem conta, e cada dor ou alegria, cada pensamento ou suspiro irão ser repetidos por você, todos pela mesma seqüência. A ampulheta eterna será virada uma e outra vez, e você com ela, pó do pó…’ – Você, se deitaria por terra rangendo os dentes e amaldiçoaria esse demônio? Ou responderia… – Nunca tinha ouvido nada tão Divino!”

Frederick Nietzsche

14/01/2010 Posted by | Liderança, Psicologia, Teologia, Textos | Deixe um comentário

UMA DECLARAÇÃO CRISTà(…)

Meu impulso inicial foi chamar este post de “Resposta a Bento XVI”, mas logo desisti, pois seria atribuir demasiada importância ao pronunciamento do Vaticano. Chamo de “Uma declaração cristã” para ser coerente com o pensamento de que em tempos de pós-modernidade e pluralismo (que alguns confundem com relativismo) não cabem afirmações categóricas. O máximo que um cristão pode fazer é “uma declaração cristã”, pois a declaração cristã sugere a unanimidade entre os cristãos, o que certamente existirá apenas no céu. O documento “Respostas a Questões Relativas a Alguns Aspectos da Doutrina sobre a Igreja” elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé e ratificado pelo papa Bento 16, afirma que “a única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica”, cria a ocasião para uma declaração cristã.

Conforme bem advertiu Pierucci: Não bastassem a arrogância fundamentalista da “Christian America” monoteísta do governo de George W. Bush e a truculência fundamentalista do monoteísmo intransigente dos aiatolás e talebãs, agora vamos ter pela frente, para completar, mais esta espécie do mesmo gênero: o fundamentalismo católico, que afirma o primado cristão da verdade católica no universo multicultural das igrejas cristãs agora declaradas “não-igrejas” ou “igrejas lacunares”. [ANTÔNIO FLÁVIO PIERUCCI, Folha de S.Paulo, 17 de julho de 2007]

Rejeitei, portanto, e de imediato o pronunciamento do Vaticano. Primeiramente porque poderia argumentar da legitimidade do protestantismo. Poderia advogar em favor do protestantismo, mas cairia no mesmo erro do Vaticano: reivindicar posse da verdade. Seria também vítima do equívoco que confunde o corpo místico de Cristo com as instituições que pretendem representá-lo na história. Depois considerei afirmar que a verdade a respeito da fé cristã não se encontra nem no Catolicismo nem no protestantismo, mas nas Escrituras, ou na Bíblia Sagrada, compreendida como a coletânea de textos canônicos: a Lei de Moisés e os Profetas do Velho Testamento e os escritos apostólicos do Novo Testamento. Nesse caso, tanto o catolicismo quanto o protestantismo seriam apenas interpretações das Escrituras. Mas logo percebi que cometeria outro erro, a saber, confundir doutrina com verdade: tanto o catolicismo quanto o protestantismo articulam a fé cristã em termos dogmáticos e doutrinários, nos termos da modernidade com sua razão-mania que pretende fazer caber a verdade cristã em um conjunto de teorias filosófico-teológicas. Além de confundir doutrina com verdade, confundiria a experiência com o Cristo ressurreto com a apropriação intelectual das teorias que pretendem explicá-la. Indo um pouco mais longe, considerei que a tentativa de estabelecer as Escrituras como lócus da verdade a respeito da fé cristã desconsideraria o fato de que a Bíblia Sagrada é uma realidade tardia à consolidação do cristianismo. De fato, havia no movimento cristão chamado primitivo um conjunto de escritos apostólicos, mas não eram considerados textos canônicos autoritativos como o são pela cristandade contemporânea. O Cânon bíblico é formado no quarto século da era cristã, de modo que já existia cristianismo antes que houvesse o que hoje chamamos Bíblia. Considerei, então, que a verdade a respeito da fé cristã estivesse no testemunho da Igreja, que nasce no Pentecoste. A proclamação dos primeiros cristãos, os documentos gerados, e as experiências comunitárias seriam continentes da verdade. Mas nesse caso, deixaria o cristianismo e a obra de Cristo à mercê das contingências humanas, o que não me agrada, até porque não é o que leio nas Escrituras Sagradas, o que significa que nem mesmo os primeiros cristãos se compreendiam como protagonistas do movimento de Cristo. Fiquei com a mais conservadora das possibilidades: a única verdade a respeito da fé cristã encontra-se em Cristo. O cristianismo prescinde da Igreja, das Escrituras, do Clero, e de qualquer outra realidade que tenha a mínima cooperação humana para sua existência. A única coisa (perdoe o “coisa”) da qual o cristianismo não prescinde é de Cristo. O cristianismo é obra do Cristo ressurreto e do Espírito Santo. Não é obra do catolicismo, nem do protestantismo. É Cristo quem edifica sua igreja. É o Espírito Santo quem guia a toda a verdade, sendo que o próprio Cristo é a verdade. É Cristo a verdade e é o Espírito Santo quem aproxima e une Cristo aos que são seus. Cristo está aonde as Escrituras ainda não chegaram. Cristo está aonde Igreja ainda não chegou. Cristo está aonde o testemunho da Igreja ainda não chegou. Eis uma declaração cristã: “a única verdade da fé cristã encontra-se em Cristo”.

09/01/2010 Posted by | Igreja, Teologia, Textos | Deixe um comentário