Shalon’s

…em construção…SEMPRE!

BOAS NOTÍCIAS (…)

Manjedoura e Palácio

 

Todo ser humano busca ser feliz, deseja prazer e realização com a vida. A grande realização da vida humana é ser gente na sua forma mais plena e completa. A infelicidade, de um lado, consiste na constatação de que falta algo essencial e básico para se viver. De outro lado, pelo discernimento inteligente de que existem excessos superficiais e ilusórios.

A infelicidade humana se manifesta na medida em que suprimimos o que lhe é próprio ou acrescentamos o que lhe é desnecessário. A realização humana consiste em viver para cumprir a vocação plena de ser gente. O ser humano é feliz quando cumpre o propósito para o qual foi criado.

Qual a nova de grande alegria?

Havia entre os judeus uma esperança, e mesmo que, percebida parcialmente, era uma esperança. Aguardavam um rei, politicamente identificado com o trono de Davi. Sonhavam com uma estabilidade política e econômica com a chegada do Messias. Esperavam que ele viesse para destruir a hegemonia e dominação dos romanos sobre o povo hebreu. Tinham expectativas baseadas nas relações de dominação e dependência. A diferença era apenas de inversão dos papéis de dominação. Mas, o paradigma era o mesmo. Não era, portanto dessas expectativas, desses acréscimos que os anjos estavam falando. Dominação não gera a grande alegria anunciada pelos anjos. Então, qual a nova de grande alegria?

Deus estava se manifestando na história como nunca. De várias maneiras havia tomado a iniciativa de se comunicar com os seres humanos. “Havendo Deus outrora falado de várias maneiras aos pais pelos profetas, nos últimos tempos nos falou pelo seu Filho a quem constituiu herdeiro de todas as coisas”. (Hebreus 1.1-4). Todas as outras comunicações foram parciais e limitadas. Entre os hebreus a manifestação de Deus acontece nas ambigüidades militares, na infiltração de um paganismo primitivo que confunde Deus com as divindades carentes de holocaustos, dependente de trocas de favores, uma religiosidade sem misericórdia com os portadores de deficiência física, com as mulheres, com o estrangeiro.

Na Manjedoura de Belém há uma presença suficiente – uma criança envolta em panos, nascida numa família de pouco prestígio social, pais sem uma conta bancária que se possa fazer referência relevante. Era somente, e suficientemente, a presença ambulante de Deus. Ele mesmo transitando entre os seres humanos, vivendo a possibilidade plena de nossa humanidade. Uma evidência real da imagem e semelhança de Deus expressava-se na pessoa de Jesus Cristo. Paulo afirma: “Ele é a expressão exata de seu SER” (grifo nosso – Paulo referia-se ao ser de Deus).

Os anjos trouxeram uma grande notícia: “… é que hoje vos nasceu,(…) salvador…(Lucas 2.11)
A humanidade de Deus é a grande boa-nova. A possibilidade da quebra do dualismo grego: divindade versus humanidade. Em Jesus se podia identificar a essência de ser gente – Deus estava nele, ele estava em Deus.

Era um combate a todas as formas de imperialismo: não era mais uma divindade a serviço dos caprichos de dominação militar na cultura de um povo. O Cristo da manjedoura houvera chegado para servir, salvar, sofrer e padecer. Na narrativa joanina era a notícia de que Deus habitou entre nós cheio de graça e de verdade e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (João 1. 14).

Era a possibilidade de se observar alguém vivendo do jeito mais comum semelhante a maioria das crianças do mundo. Quando falamos que vivia em função da vida e acolhia as crianças desprezadas, incluía no seu ambiente as mulheres à margem da sociedade, estamos apenas enfatizando que este era o seu ambiente mais corriqueiro. Atendia com amor as demandas dos estrangeiros que lhe procuravam por socorro, os pecadores foram acolhidas, as mulheres incluídas no projeto. Um novo Ser – pleno pela sua singularidade, exclusividade, por se permitir ser possuído apenas de si mesmo e nada mais, e assim desfrutar a chance de, em apenas 33 anos e meio, viver a plenitude de sua humanidade. Toda espiritualidade precisa estar marcada pela expressão singular de cada ser em suas particularidades e desenvolvida pelo modelo do Jesus de Nazaré.

A alegria de uma nova comunidade – composta de mulheres, crianças, homens trabalhadores – José ou os pastores, também, alguns curiosos orientais – os magos do Oriente, o idoso Simeão, a anciã e profetiza Ana, que inspirados por vozes fora da rotina, se enchem de esperança, a despeito da dor e sofrimento que hão de vir.

As crianças são prioritárias na espiritualidade dessa nova comunidade. Elas trazem em si a alegria natural da vida. As mulheres possuem uma sensibilidade aguçada e anunciam, antes que qualquer macho, a gestação da vida. Elas percebem no silêncio da alma, que fora do útero, as crianças pobres estão mais próximas do calvário. Mas aprenderam também que a morte vem despertando a semente da ressurreição, geradora de outras sementes em vida.

A espiritualidade de Jesus esta marcada e ilustrada pela alegria e des-res-peito das crianças. De crianças de peito e do peito delas Deus suscita perfeito louvor. Os adultos, burocratizados pelos esquemas da religião não conseguem entender o perfeito louvor das crianças.

As mulheres sensíveis de gestação entendem a comunicação de uma criança ainda no ventre. Os mais pobres entre os pobres são mais sensíveis as precariedades e singeleza da vida. Uma espiritualidade, que procura imitar a espiritualidade de Jesus, passa também por outros caminhos -, mas obrigatoriamente – passa pelo caminho da criança, da mulher e dos pobres em comunidade.
As experiências de Jesus Cristo, e toda a primeira geração dos que viveram e conviveram com Ele sinalizam a possibilidade de outras comunidades invadidas ou batizadas pelo Espírito Santo. As comunidades de Jesus Cristo, em outras gerações, são sociedades alternativas, marcadas pela comunhão do Espírito, fraternidade da justiça, permanente prática do amor, fertilizada pela alegria, e aperfeiçoada pelos instrumentos da paz.

Um novo Reino, utopia e sonho dos novos cidadãos – os considerados não-gente na sociedade dos “de fora”. Eles desfrutam e manifestam uma experiência comunitária possível, baseada nos ensinos de Jesus Cristo. Desfrutam o Reino de Deus inaugurado pelo Jesus de Nazaré e pela sua comunidade de discípulos e discípulas. Reino que tem sido vivido e anunciado pelos seguidores de Jesus Cristo, através dos sinais de confrontação de poderes antagônicos e luta pela justiça paz.

Reino de Deus, que por vezes manifestou-se no cristianismo histórico, outras vezes fora dele, outras vezes contra ele. Nem todos que conhecem sobre o Reino de Deus desfrutam-no, como também, nem todos que desfrutam-no conseguem interpretá-lo; todavia, como neste reino o importante é a prática e obediência, quem vive e pratica o Reino de Deus é mais prudente do que quem conhece e engana a si mesmo. Entre os pobres, principalmente, o reino de Deus, quando vivenciado, é mais desfrute do que explicação racionalista.

A nova espiritualidade com os olhos no Reino de Deus e os pés fincados na terra tem o potencial de redirecionar as esperanças para uma vida digna. O cuidado com toda as dimensões da vida. A longevidade é uma dádiva de Deus. Quando a humanidade interrompe a vida das pessoas por causa do egoísmo, acumulação de bens, injustiça está afrontando o Deus da Vida. As comunidades de Jesus necessitam buscar uma espiritualidade marcada pelo resgate da dignidade humana, incluindo o direito a cidadania, receber um nome – ele será chamado Jesus, direito a uma família, direito aos espaços culturais de seu povo, direito a proteção – habitação digna, vestimentas como forma de proteção, alimentos suficientes para preservação da vida, formas de organização social justa que expressem fraternidade, oportunidade de vida digna para todos. Desfrutamos dessa realização quando somos salvos de nossa desumanidade; e isto só é possível quando resgatamos uma espiritualidade marcada pela vocação de ser gente, que descobre nos espaços coletivos a vida abundante para todos.

1. Uma boa-nova que provoca fascínio e encantamento. “Todos os que ouviram se admiraram das coisas referidas pelos pastores” (v 18). Precisamos acreditar nas coisas que provocam maravilha – “mirar-vale!”.

2. Uma boa-nova que nos tire do imobilismo e discernindo o caminho do projeto de Deus. “Vamos… e vejamos…”. Não basta ser ativista. Não precisamos simplesmente visitar uma criança envolta em panos rotos. Precisamos fazer a coisa certa. Há uma grande diferença em se fazer corretamente, e fazer corretamente a coisa correta.

Não basta ir a manjedoura, precisamos discernir também o momento de nos desviarmos do caminho que leva ao fascínio pelo palácio. Há um conflito sempre estranho entre a manjedoura e o palácio.

Os magos do Oriente mudaram a rota: vieram pelo palácio, conversaram com Herodes, mas mudaram a rota depois do encontro com o Menino na manjedoura. (Mateus 2. 1-12).

3. Uma boa-nova que promova a paz e glorifique a Deus (v 14 e 20). Precisamos resgatar uma espiritualidade e uma devoção capazes de motivar homens e mulheres a glorificarem a Deus pelas coisas fora dos holofotes e dos palcos. Há ainda muita ação de Deus nas galiléias dos gentios, há outras nazarés e muitas belens – todas pequenas demais para figurar entre as muitas expostas na mídia. São sinais perceptíveis pelas discretas Anas, por pobres trabalhadores noturnos. Eventualmente aparecem nas estatísticas, outras vezes em testemunhos isolados, mas são ainda sinais de esperança. É voz de uma criança – começa no ventre da mãe, depois torna-se uma voz no deserto – no deserto, mas era a voz de quem clama e anuncia o Caminho do Senhor.

FELIZ NATAL!

Anúncios

26/12/2013 Posted by | Igreja, Liderança, Politica Nacional, Psicologia, Teologia, Textos | Deixe um comentário

…ESTÁ INSUPORTÁVEL – Do Caio, via Ed Rene Kivitz

esta-insuportavel-por-caio-fabio

PERDOEM-ME O DESGOSTO! …ESTÁ INSUPORTÁVEL!

 

 

Perdoem-me, irmãos, eu confesso a tão aguardada confissão de minha boca. Sim, eu confesso que não posso mais deixar de declarar a minha alma. Para mim é questão de vida ou morte. Perdoem-me, irmãos, mas eu preciso confessar.

 

Sim, eu confesso…

 

Está insuportável. Se eu não abrir a minha boca, minha alma explodirá em mim.

 

É insuportável ligar a televisão e ver o culto que se faz ao Monte Sinai, que gera para escravidão. Os Gálatas são o nosso jardim da infância. Nós nos tornamos PHDs do retrocesso à Lei e aos sacrifícios. Pisa-se sobre a Cruz de Cristo em nome de Jesus. Insuportável! Seja anátema!

 

É insuportável ver o culto à fé na fé, e também assistir descarados convites feitos em nome de Deus para que se façam novos sacrifícios, visto que o de Jesus não foi suficiente, e Deus só atende se alguém fizer voto de freqüência ao templo, e de dinheiro aos sacerdotes do engano e da ganância. Insuportável!

 

É insuportável assistir ao silêncio de todos os dantes protestantes—e que até hoje ofendem os cultos afro-ameríndios por seus sacrifícios, sendo que estes ainda têm razão para sacrificar, visto que não confessam e não oram em nome de Jesus—ante o estelionato feito em e do nome de Jesus, quando se convida o povo para sacrificar a Deus, tornando o sacrifício de Jesus algo menor e dispensável. Insuportável!

 

É insuportável ver o povo sendo levado para debaixo do jugo da Lei quando se ressuscitam as maldições todas do Velho Testamento, e que morreram na Cruz, quando Jesus se fez maldição em nosso lugar. Insuportável!

 

É insuportável ver que para a maioria dos cristãos a Lei não morreu em Cristo, conforme a Palavra, visto que mantêm-na vigente como “mandamento de vida”, mas que apenas existe para gerar culpa e morte, também conforme a Escritura. Insuportável!

 

É insuportável ver e ouvir pastores tratando a Graça de Deus como se fosse uma parte da Revelação, como mais uma doutrina, sem discernir que não há nada, muito menos qualquer Revelação, se não houver sempre, antes, durante, depois, transcendentemente e imanentemente, Graça e apenas Graça. Misericórdia!

 

É insuportável ver a Bíblia sendo ensinada por cegos e que guiam outros cegos, visto que nem mesmo passaram da Bíblia como livro santo, desconhecendo a Revelação da Palavra da Graça do Evangelho de Deus. Insuportável tristeza!

 

É insuportável ver que os cristãos “acreditam em Deus”, sem saber que nada fazem mais que os demônios quando assim professam, posto que não estamos nesta vida para reconhecer que Deus existe, mas para amá-Lo e conhecê-Lo. Insuportável desperdício!

 

É insuportável enxergar que a mensagem do Evangelho foi transformada em guia religioso, no manual da verdade dos cristãos, mais uma doutrina da Terra. Insuportável humilhação!

 

É insuportável ver os que pensam que possuem a doutrina certa jamais terem a coragem de tentar vivê-la como mergulho existencial de plena confiança, mas tão somente como guia de bons costumes e de elevados padrões morais. Insuportável religiosidade!

 

É insuportável ver gente tentando “estudar Deus”, e a ensinar aos outros a “anatomia do divino”, ou a buscar analisar Deus como parte de um processo, no qual Deus está aprendendo junto conosco, não sabendo tais mestres que são apenas fabricantes de ídolos psicológicos. Insuportável sutileza!

 

É insuportável ver que há muitos que sabem, mas que nada dizem; vêem, mas nada demonstram; discernem, mas em nada confrontam; conhecem, mas tratam como se nada tivesse conseqüências… Insuportável…

 

É insuportável ver que se prega o método de crescimento de igreja, não a Palavra; que se convida para a igreja, não mais para Jesus; e que a cada cinco anos toda a moda da igreja muda, conforme o que chamam de “novo mover”. Insuportável vazio!

 

É insuportável ouvir pastores dizendo que o que você diz é verdade, mas que eles não têm coragem de botar a cara para apanhar, mesmo que seja pela verdade e pela justiça do evangelho do reino de Deus. Insuportável dissimulação!

 

É insuportável ver um monte de homens e mulheres velhos e adultos brincando com o nome de Deus, posando de pastores, pastoras, bispos, bispas, apóstolos e apostolas, sendo que eles mesmos não se enxergam, e não percebem o espetáculo patético no qual se tornaram, e o ridículo de suas aspirações messiânicas estereotipadas e vazias do Espírito. Insuportável jactância e loucura!

 

É insuportável ver Jesus sendo tratado como “poder maior” e não como único poder verdadeiro. Insuportável idolatria!

 

É insuportável ver o diabo ser glorificado pela freqüência com a qual se menciona o seu nome nos cultos, sendo que Paulo dele falou menos de uma dúzia de vezes em todas as suas cartas, e as alusões que Jesus fez a ele foram mínimas. No entanto, entre nós o diabo está entronizado como o inimigo de Cristo e o Senhor das Culpas e Medos. E, assim, pela freqüência com a qual ele é mencionado, ele é crido; e seu poder cresce na alma dos humanos, a maioria dos quais sabe apenas do Medo da Lei, e nada acerca da Total Libertação que temos da Lei e do diabo na Graça de Jesus, que o despojou na Cruz. Insuportável culto!

 

É insuportável ver seres humanos sendo jogados fora do lugar de culto por causa de comida, bebida, cigarro, roupa, sexualidade, ou catástrofes de existência. Isto enquanto se alimenta o povo com maldade, inveja, mentira, politicagem, facções, e maldições. Insuportável é coar o mosquito e engolir o camelo!

 

É chegada a hora do juízo sobre a Casa de Deus!

 

De Deus não se zomba, pois aquilo que o homem semear, isto também ceifará. A eternidade está às portas. Então todos saberão que não minto, mas falo a verdade, conforme a Palavra do Evangelho de Jesus.

 

Com tremor e temor, porém certo da verdade de Jesus,

 

Caio.

27/08/2013 Posted by | Igreja, Teologia | 1 Comentário

Carta aberta sobre o posicionamento do Pr. Paschoal Piragine sobre as eleições 2010.

Carta aberta sobre o posicionamento do Pr. Paschoal Piragine sobre as eleições 2010.

O vídeo e o posicionamento do Paschoal Piragine sobre as eleições 2010 têm causado verdadeiro frisson na comunidade evangélica brasileira. Mas não se preocupem pastores, todos nós vez por outra falamos bobagens impensadas, pouco refletidas (assim espero) e isso não seria privilégio do Pr. Paschoal, mas uma constante no ser humano, ser falível, como eu e você que me lê. Qualquer um que se aventure a difícil tarefa de se expressar está sob esse risco. Hesitei em escrever sobre esse pronunciamento por achar uma perda de tempo “responder” a tamanha tolice, com todo o respeito, mesmo tendo ficado mais uma vez decepcionado com os rumos do cristianismo no Brasil. Contudo inspirado em palavras do também Pr. Batista, Dr. Martin Luther King Jr, não consegui ficar calado ao começar a receber, via todas as mídias sociais, apelos para me engajar no chamado “movimento contra a iniqüidade” citado no tal vídeo e no tal pronunciamento.

Nessa “carta aberta”, em alguns momentos vou me referir ao pronunciamento e em alguns momentos ao Pr. Paschoal por ser ele o autor do pronunciamento. Não revisei, não corrigi; fui escrevendo, muitas vezes ponto a ponto…e que Deus nos abençoe! (Meus comentários estão em negrito e itálico)

A primeira pergunta do Pr. Paschoal Piragine é sobre INIQUIDADE: O que é iniquidade? E ele segue;  

“Iniqüidade é quando a gente tá tão acostumado ao pecado que a gente não tem mais vergonha de cometê-lo e ele passa a ser algo tremendamente natural na nossa vida”

A definição correta, ainda que incompleta, acima mencionada, é interessante. Mas nos últimos 30 anos, e tenho 34 anos, se eu fosse fazer um vídeo sobre iniqüidade “institucionalizada” no Brasil, teria que contar com a paciência dos expectadores, pois faria “Ben Hur” parecer um comercial da NBA. Não vi no vídeo nada sobre os órfãos deixados pelos assassinatos brutais durante os anos da ditadura no Brasil, não vi nada sobre censura, garantias dos direitos fundamentais do cidadão independente de sua orientação religiosa, não vi nada sobre desigualdade social, racismo, AIDS; não vi nada sobre corrupção nem mesmo quando ela teve como pivôs nossos irmãos em cristo que passam a semana no Planalto Central. Vale lembrar que nesses últimos 30 anos, é publico, que muitos “vampiros”, “sanguessugas”, e até “mensaleiros” tinham uma grande bíblia preta no sovaco.

Continua então: E a bíblia diz que quando a iniqüidade chega (…), é tempo que Deus tem que julgar sua terra, julgar seu povo, julgar uma nação”.

Realmente, eu tenho medo do que Deus fará, mas não com o Brasil em primeira instancia, mas tenho medo sim de quando Ele julgar aqueles a quem chama de “a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” Quem são os leprosos do século XXI? Quem são os Samaritanos? Quem são as viúvas pobres e quem são os pródigos? Na outra ponta, quem são os Escribas e Fariseus? Quem são os publicanos? Que são os idolatras (geralmente dizem simplesmente que são os irmãos católicos). E o que é o objeto dessa idolatria? Há uma clara incoerência entre a manjedoura e o palácio e só não vê quem não quer. O que será que Deus dirá da omissão do Seu povo? Das brigas estúpidas pelo que o Ap. Paulo chamou de “matérias disputáveis”, assuntos bobos, tolices.

E é por causa disso que eu tenho que falar uma coisa que durante 30 anos no meu ministério eu nunca fiz. Completei 30 anos de ministério no dia 08 de agosto, e nesses 30 anos eu nunca fiz o que eu fiz hoje pela manhã e vou fazer agora á noite.

Pastor, siga o exemplo de Lutero, ensine a Bíblia e os bêbados caírão trôpegos naturalmente no caminho pelo poder da palavra. Caso contrário, humildemente rogo que fique sem falar por mais 30 anos.

Eu quero dizer pra vocês que nós precisamos tomar muito cuidado com essas eleições que vão acontecer porque existe uma serie de leis que estão tramitando que vão depender do voto do Deputado Federal, do voto do senador que vão ser incorporadas pela ação da maquina estatal através da presidência da republica, nós vamos estar votando nessas pessoas no próximo mês, que vai tomar força também nas câmaras estaduais, nas ações que são feitas através do estado, e nós precisamos de valores cristãos trabalhando nesses contextos.

Cuidado e prudência em eleições sempre foi necessário, mas é fato que nos últimos 30 anos não tivemos tantas oportunidades assim de exercitar isso pois em parte desse tempo isso nem era possível. A propósito, muitos pastores nossos estavam era recebendo “flores” do regime ditatorial. Nossa “colonização” batista do sul dos estados unidos, do mesmo sul de George W. Bush e dos Cavaleiros da Klã, invocava o verso que fala sobre submissão a autoridade constituída por “deus” para rezar na cartilha e ficar em berço esplêndido. De fato, muita atenção nessas eleições. Aprecio seu destaque ao cuidado com o voto para as câmaras, mesmo sabendo que nossos motivos são diferentes. Nesse Blog, há um texto interessante do amigo Bento Souto. O título? EU VOTO É NO SAMARITANO. Esse texto explica porque não necessariamente voto em “irmão” que “combate” a “iniquidade institucionalizada”

Por causa disso está acontecendo no Brasil um movimento que eu faço parte agora, graças a Deus, de lideres cristão de varias denominações, evangélicos e católicos, que estão trabalhando para que a gente possa impedir que a iniqüidade seja institucionalizada na forma de lei. Por isso alguns pastores tem se posicionado firmemente no radio, na televisão, com suas igrejas e também a CNBB(Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil), nessa ultima semana escreveu um documento e publicou e lançou na mão de toda a imprensa, se posicionando com relação a esses assuntos.

Fico admirado com a naturalidade com a qual o senhor fala dessa “parceria ideológica“ com a CNBB. Até bem pouco tempo isso levava a “fogueira da inquisição” batista sob o estigma de “ecumênico” no uso mais simplista e preconceituoso que poderia se fazer dessa bela palavra. Mas porque ninguém foi a publico apoiar a CNBB quando ela pressionou o governo para agir com políticas que reduzissem o valor da cesta básica no Brasil? Deus nos ajude, de agora em diante, e conto com a sua influencia, a nos juntarmos ao que de bom Deus estiver fazendo ao nosso redor.

Eu vou pedir que você assista um vídeo de alguns minutos que fala desses problemas e de como nos precisamos levar isso a sério porque isso tudo o que vai passar aqui é iniqüidade institucionalizada e que nos precisamos nos posicionar e dizer”nós não queremos isso na nossa nação” e procurar pessoas que nos representem pra dizer “vou votar contra essas coisas” porque caso o contrario a iniqüidade será oficializada, e Deus não vai ter outra coisa a fazer a não ser julgar a nossa terra.

Olha, eu queria saber se alguém que me lê, conhece uma só pessoa que se posicione a favor da pedofilia. Ninguém mesmo! Muito menos o PT que tem em seus quadros pessoas engajadas a muitos anos na luta, não só contra a pedofilia, mas contra a prostituição infantil e afins. Queria dizer que se o PLC122/2006 é apelidado de lei da mordaça, eu queria ter inventado esse apelido. O que eu já ouvi de absurdos sobre esse assunto só porque a nossa liberdade de credo nos dava lastro para tal não tá no gibi. Se isso vai parar, é benção. Vejo com bons olhos precisarmos pensar mais responsavelmente quando esse for o assunto. Não acho que Jesus, caminhando no nosso meio hoje, fosse dar grandes bolas pra esse tema diante de pautas tão urgentemente anteriores a essas. A questão do infanticídio indígena não pode também ser tratado passionalmente. Qualquer pessoa que viva no nosso contexto cultural ficaria chocada, mas não é uma questão passional, nem “religiosista”. É um tema de alta complexidade jurídico-antropológica, e por isso eu me atenho a mencionar a complexidade do tema e a tira-lo do debate reducionista de pecado ou não pecado. O fim de tudo é que o vídeo é claramente de extrema direita, e eu conheço bem a extrema direita. Venho de lá! Mas prefiro dizer que o vídeo é de uma infelicidade sem tamanho.

Há um partido político que fechou questão sobre esse assunto, o partido político que é o PT de nosso presidente, em seu congresso desse ano, ele, no seu congresso geral, quando eles indicam seus deputados, ele fechou questão sobre essas questões. Ou seja, se um deputado, se um senador do PT, se ele votar contra, de acordo com sua consciência, contra qualquer uma dessas leis, ele é expulso do partido. Já dois deputados federais foram expulsos do PT, por se manifestarem contra o aborto. Isso fez com que a igreja católica se manifestasse publicamente, por que eles estavam ligados a igreja católica, junto ao PT, e se manifestarem contra, e por isso foram expulso do partido. E a igreja católica então emitiu nota pública dizendo: olha não votem em ninguém do PT. Eu diria para você a mesma coisa. Algumas pessoas não vão gostar do que eu estou falando, mas estou falando bem claramente. Porque quando não se pode votar com a consciência, não adianta votar em pessoas, porque o partido já fechou questão.

Primeiro não sou Advogado e muito menos Advogado do PT. Mas não há uma verdade se quer nessas afirmações que chegaram ao pastor. Acredito, pela caminhada idônea do pastor, que faltou informação e não acredito em ma fé a priori. Mas se alguém quiser me tirar do sério, que diga simplesmente “NÃO VOTEM NO PT” aqui na Bahia (e não deve ser diferente no resto do Brasil). Aqui, Walter Pinheiro é um dos homens mais sérios que eu já conheci. Ele vota com o PT, pois é o seu partido, quando isso não fere seu credo e suas liberdades individuais previstas no estatuto do Partido dos Trabalhadores. Aqui, Neuza Cadore, ex-freira católica, depois de fazer um trabalho brilhante no sertão, E SER CRUELMENTE SABOTADA PELA EXTREMA DIREITA, é hoje uma legítima representante do REINO DE DEUS, no que isso tem de mais inclusivo, na Assembléia Legislativa do Estado. Portanto, esse dois exemplos me dão a certeza de que foi uma afirmativa muito, muito, muito infeliz generalizar o PT. Eu não digo pra ninguém votar ou não votar em partido ou pessoa alguma. Se eu oriento alguém politicamente apelo pra sua dedicação pessoal, discernimento, pesquisa e busca da verdade sobre cada candidato.

Mas além de tudo, eu ficaria triste de ver, por via judicial, o PT assumir o púlpito da PIB de Curitiba para exercer o seu direito de resposta assegurado pelo código eleitoral. Pastor Paschoal, alguém no PT decidiu caminhar a segunda milha com o senhor se isso não acontecer.

Então eu queria pedir para você levar a sério essa questão. Como pastor eu nunca fiz isso. Eu não estou dizendo para você votar em A ou B. Eu vou dizer para você em quem não votar: em pessoas que estejam trabalhando pela iniqüidade em nossa terra.

Porque senão queridos, Deus vai julgar a nossa terra. E se Deus julgar a nossa terra, isso vai acontecer na tua vida na minha vida, porque eu faço parte dessa terra. Porque Deus não tolera iniquidade. Amem? (Aplausos)”

Pastor, nessa carta aberta, eu queria fazer algumas considerações, e agora, considerações finais. Primeiro, parabéns pelos seus 30 anos de ministério. Ninguém pode descrever apenas com palavras as agruras do ministério pastoral. As solidões no meio da multidão, a sobrecarga e as conseqüências visíveis e invisíveis de um dia ter se dedicado integralmente ao ministério pastoral. Segundo, se nunca fez isso nesses 30 anos, passe mais 30 sem fazer ou consulte seus mestres e mentores. E por ultimo, queria contar uma breve historia: Quando houve toda aquela crise desencadeada pelo Dep. Roberto Jeferson, eu pensava com meus botões: “Se o presidente Lula fosse a publico e confessasse seu erro, ou omissão ou incompetência. Se o PT fizesse o mesmo (…). Na minha ignorância das complexidades da política eu creio que o desfecho seria mais limpo e proveitoso para a construção não só de um projeto de longo prazo para o PT, mas para o amadurecimento da nossa frágil democracia”. De volta ao pronunciamento do púlpito da PIB de Curitiba, eu pediria a mesma coisa com todo o amor do mundo: Se o senhor for a publico e prestar alguns esclarecimentos eu creio que será de uma grandeza imensurável e os dividendos disso para as gerações de Cristãos e cidadãos brasileiros serão imensos e colhidos por gerações. Eu quero estar sempre apto a me posicionar, pensar livremente, discutir e sempre que necessário dizer: EU ERREI! É esse meu humilde conselho ao senhor porque eu gostaria de receber tal conselho que só seria dado por alguem que se importasse comigo. Deus nos abençoe das formas mais abrangentes que o Seu infinito e gracioso amor puder, e que isso seja instrumento, não para julgamento, mas para redenção da nossa nação e de nós mesmos.

Fraternalmente,

 

Shalon Riker Lages

15/09/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Politica Nacional, Textos | 29 Comentários

Dinheiro, sexo e futebol: as 3 coisas que o brasileiro mais gosta (?)

Dinheiro, sexo e futebol: as 3 coisas que o brasileiro mais gosta (?) (não necessariamente nessa ordem)

As pessoas compram uma coisa só. Não importa se compram um sapato, uma BMW ou um ingresso para o teatro, estão comprando uma coisa só. Quem compra uma caneta, uma camisa do seu time ou uma viagem para Nova York está comprando uma coisa só. Os caras que estão tendo sucesso hoje descobriram isso.  Os profissionais mais bem remunerados do nosso mercado são aqueles que sabem explorar esse fato. O que as pessoas estão comprando? Simples…

UMA COISA SÓ

As pessoas compram uma coisa só. Não importa se compram um sapato, uma BMW ou um ingresso para o teatro, estão comprando uma coisa só. Quem compra uma caneta, uma camisa do seu time ou uma viagem para Nova York está comprando uma coisa só. Os caras que estão tendo sucesso hoje descobriram isso.  Os profissionais mais bem remunerados do nosso mercado são aqueles que sabem explorar esse fato. O que as pessoas estão comprando? Simples. Elas estão comprando um estado de espírito, ou se você preferir, um sentimento. Isso vale para quem vai ao estádio assistir um jogo de futebol, ao templo para rezar, e ao shopping para dar uma volta no sábado à tarde.

A grande jogada nessa transação chamada compra e venda é a sensação que as pessoas experimentam durante a negociação. A grande sacada que mantém um produto campeão de vendas é que ele consegue gerar no consumidor uma sensação, um sentimento, um estado de espírito. Ninguém compra caneta apenas para escrever, camisa apenas para cobrir o corpo, ou bolsa apenas para carregar carteira e batom. E, diga a verdade, quando você sai do cinema do mesmo jeito que entrou, sai resmungando que o filme foi uma porcaria. E é exatamente por isso que você diminui a luz da sala e mete um smoth jazz no fundo quando quer relaxar no final do dia. Mudar o estado de espírito, mudar as sensações, gerar novas emoções, sentir alguma coisa, e de preferência diferente do que esta que estou sentindo agora, pois senão eu ficaria no mesmo lugar, ou não compraria o seu produto. Quer saber uma coisa?, o maior benefício de um serviço ou produto não é que  ele faz pelo cliente, mas o que ele faz dentro do cliente. Sacou?

E daí, o que é que eu tenho a ver com isso?, você diria. Bem, se você é consumidor, fique esperto, porque os caras já te descobriram e cada dia ficam sabendo mais coisas a seu respeito: o que você gosta e não gosta, o que faz você chorar, o que te mete medo, e o que você precisa para assinar aquele contrato. Até aí, nada de errado. Desde que você não esteja iludido na transação, isto é, sendo manipulado sem saber. Quer pagar mais, pague. Quer comprar aquela marca, compre. Mas não caia na esparrela de acreditar que aquele algodão com cavalinho é necessariamente melhor do que os algodões sem cavalinho.

Agora, se você é o vendedor, então, meu amigo, você tem que saber uma coisinha a mais. O grande lance de uma venda não está apenas no estado de espírito do consumidor, mas também e principalmente no coração do vendedor. Em outras palavras, o ambiente da compra tem que estar alinhado com a proposta emocional-passional do produto-serviço. É aquela coisa de careca vendendo shampoo para queda de cabelo. O que a maioria dos vendedores ainda não sacou é que vendedor de emoção sem emoção é tão ridículo quanto  gordo vendendo mais uma dieta revolucionária. Todo produto-serviço tem um valor agregado. E o ambiente da transação de sua compra e venda deve refletir esse valor. Ponto.

A BOLA,  A TRANSA E A VENDA

Fui fazer uma palestra para um grupo de atletas. Pedi que eles me descrevessem uma bola feliz. Ficaram em silêncio, e então tentei ajudar, pedindo que dissessem o que poderiam fazer com uma bola de futebol, além de jogar futebol. Um deles disse que poderíamos usar a bola de banquinho, sentando em cima dela. Boa. Outro sugeriu que a gente pode murchar a bola para que ela sirva de peso para a porta não bater com o vento. Boa também. Lá pelas tantas um garoto falou que a bola pode ser uma peça de museu, e nesse caso a gente fica olhando para ela. Maravilhosa. Era tudo o que eu precisava. Perguntei para eles se achavam que a bola do gol mil do Pelé era uma bola feliz. A resposta veio de bate pronto, “Acho que ela foi feliz no dia do gol mil, mas hoje, no museu, deve ser uma bola infeliz”. Bingo. Minha palestra poderia terminar ali mesmo. A conclusão é óbvia: uma bola feliz é uma bola em jogo. E por aí vai: uma pipa feliz é uma pipa ao vento; um peão feliz é um peão girando; um bambolê feliz é um bambolê bailando.

O gol é o orgasmo do futebol, disse Nelson Rodrigues. Mas o gol não é o todo do futebol. O gol, aliás, é o fim do futebol. Cada vez que o gol acontece, começa tudo de novo. Que nem orgasmo. O orgasmo é o fim da transa. Quando o orgasmo acontece, começa tudo de novo (sabe lá depois de quanto tempo, mas começa!). O que quero dizer com isso é que a bola não é feliz apenas  quando estufa as redes em gol. Uma bola feliz é uma bola em jogo. Uma espalmada de mão trocada, uma pancada de três dedos no travessão, uma matada no peito do zagueiro. Imagino como era feliz a bola enquanto Pelé olhava para ela e sussurrava segredos durante o minuto de silêncio. Uma bola feliz é uma bola em jogo. E se o orgasmo está no gol, a graça está no jogo. Assim como o ápice é o gozo, e o prazer é a transa.

Compliquei? Calma lá. Ainda não. Essa era a diferença entre o Garrincha e os caneleiros de plantão. O Garrincha gostava do gol, mas gostava também do jogo. Não valia apenas empurrar para dentro do gol (sem trocadilhos), tinha que ser por baixo das pernas do zagueiro (sem trocadilhos). Além do gol, o jogo. E quanto mais prazeroso o jogo, mais arrebatador o gol. Assim é com a transa, não é? E sabe de uma coisa, assim como tem gente que gosta de fazer gol e não gosta de jogar, também tem gente que gosta de gozar mas não gosta de transar. E mulher nenhuma (penso eu) gosta de transar com esse cara. 

Tudo isso para dizer que todo produto tem um valor agregado. Todo ambiente de compra e venda deve estar alinhado com o valor agregado do produto negociado. O que determina o ambiente não é o fechamento da venda, mas sim o processo da venda. Em tese, o que determina o gol é o jogo bem jogado; o que determina o gozo, é a transa bem transada. E o que determina a venda, é o processo bem negociado. E sabe o que é incrível nisso tudo? Tem gente que gosta de vender mas não gosta de negociar. Não é vendedor, apenas trabalha em vendas, e ninguém quer comprar dele. A graça não está apenas na assinatura do contrato, mas em todo o processo de negociação: fazer conta de cabeça, oferecer um café na hora certa, mudar de assunto e voltar ao prazo depois de dois minutos, mostrar a foto mais uma vez, convidar o consumidor a experimentar o produto, e assim vai, às vezes minutos, outras, horas, e quem sabe, dias, meses e anos, até a assinatura do contrato.

OS CAMPEÕES, OS RATINHOS E OS QUE DERAM CAMBALHOTA

Veja só. O cara entra na sua loja para comprar um carro, e do mesmo jeito que ele vai ter orgulho em mostrar para o cunhado que comprou um GM, você tem que ter orgulho de vender um GM. Produto: carro. Valor agregado: esbanjar o cunhado. Alinhamento do ambiente: aquela cara de “você vai abafar”. Abre paréntesis. Perdoe o exemplo mesquinho, mas não me ocorreu nada melhor. Fecha paréntesis.

A grande questão é como é que você consegue fazer aquela cara, isto é, alinhar o valor do produto com o valor do processo de negociação, gerar o ambiente de trabalho cheio de afeto, alegria e espontaneidade (ou sei lá que valores a sua empresa tem). Conheço caminhos. O primeiro é o mais simples: você faz isso naturalmente, por que você é desse jeito. Quer dizer, você não está transando do jeito que a revista feminina ensinou, você está apaixonado; você não está se movimentando em busca de espaço em campo, como o professor mandou, você é craque; ou, no caso, você não apenas trabalha em vendas, você é vendedor. Isso tem a ver com vocação, coisa de gente que diz “eu nasci para isso”, “eu amo o que faço”, “não me imagino fazendo outra coisa”.

O outro caminho, amigão, é treinamento. Que nem quando eu fui comprar um tênis na loja recém inaugurada no Shopping. Enquanto falava comigo, a moça do caixa era sorridente e atenciosa. Mas quando falava com a colega atrás do balcão, era mal humorada e irritadiça. Perguntei pra ela quanto tempo durara o treinamento. Quinze dias, foi a resposta. Saí de lá com a convicção reforçada: em quinze dias você não consegue mais do que condicionar, padronizar comportamentos, artificializar simpatias, colocar sorrisos de plástico na cara dos outros. 

O caminho do treinamento tem suas variáveis: auto-ajuda, neuro-linguística, conscientização. Mas a melhor prima irmã do treinamento é a motivação: doses diárias, sistemáticas, de estímulos e encorajamentos. Funciona assim: no início do dia você reúne sua equipe de vendas e dá uma dose de motivação na veia de cada um dos seus valentes vendedores; depois, você faz algumas promessas de recompensas; e depois coloca um catálogo bem bonito na mão deles e anuncia sorridente que “a partir de hoje nossa empresa vai deixar vocês estacionarem no subsolo, à sombra”. Depois disso, você solta os ratinhos e fica esperando por eles com outro pedaço de queijo na manhã seguinte. À medida que o resultado vai satisfazendo, você melhora o queijo. E quando a coisa despencar, isto é, os ratinhos não obedecerem mais aos mesmos estímulos, você substitui os ratinhos, é mais fácil, embora muito mais caro.

A VERDADE VERDADEIRA

Fala a verdade. A maioria das empresas que você conhece trabalha desse jeito, não é ratinho? E eu já sei que você está louco para saber como sair desse labirinto e descobrir a terceira via. Pois eu lhe digo já, sem mais suspense. Caso você não seja um vocacionado quase naturalmente campeão, e não agüente mais esta vida de porão e roda com giro falso, sua alternativa libertadora é a autotransformação.

A grande sacada, companheiro, é a seguinte: não importa tanto a qualidade do seu produto se você não é capaz de envolver seu cliente no ambiente certo. A verdade é que seu produto vai embalado não em papel, caixas ou ceras. Seu produto vai embalado em estados de espírito, sensações e sentimentos. E você tem que estar embalado nos mesmos moldes. E para estar embalado nos mesmos moldes, você não pode fazer de conta, primeiro porque a maioria dos clientes logo logo percebe, e depois porque cedo ou tarde você não vai agüentar manter as aparências, o sorriso fingido vai desaparecer da sua cara, indo direto para uma úlcera, ou coisa pior. Para embalar você, seu produto, seu ambiente de trabalho, seus processos e seus relacionamentos, não há substitutos para a autenticidade.

Não importa o que você faz. Importa o que você é. Fingir orgasmo é rota suicida, e ninguém consegue fingir que é craque. No máximo, consegue fazer um gol de placa, sem querer, na maior sorte, e depois “não vende nunca mais”.

Entre o naturalmente feliz e o treinado para ser feliz, está a maioria dos mortais, pessoas como eu e você, que convivem com o desafio da autotransformação e da busca da felicidade. Uma felicidade não artificial, que brota de dentro para fora.

Desculpa aí. Mas já falei demais e esse papo não tem fim. Não quero ensinar um truque. Quero desmascarar alguns. Não quero apresentar uma nova técnica. Quero convidar você a prosseguir numa grande aventura. A aventura de ser. Ser, para poder vender. Ser, para poder viver. Nesse caso, amigão, se você quer andar pelo caminho da autotransformação, você precisa mais do uma palestra, um seminário ou um programa motivacional. Você precisa tomar uma decisão. E depois colocar o pé na estrada, pois a viagem é longa e você não vai chegar lá a menos que dê o primeiro passo. O primeiro passo? Jogar fora os pacotes que venderam pra você. Já é um bom começo.

08/09/2010 Posted by | Ferramentas, Igreja, Liderança, Psicologia, Textos | 6 Comentários

OS NOVOS EVANGÉLICOS (…)

OS NOVOS EVANGÉLICOS                                                                          

(Revista Época Sumário – 06/08/2010 – Edição nº 638)

 

Inspirado no cristianismo primitivo e conectado à internet, um grupo crescente de religiosos critica a corrupção neopentecostal e tenta recriar o protestantismo à brasileira.
 
Irani Rosique não é apóstolo, bispo, presbítero nem pastor. É apenas um cirurgião geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rondônia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitriã, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro (“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela última vez – como já havia orado e cantado por cerca de meia hora antes – e então parte para o tradicional chá com bolachas, regado a conversa animada e íntima.

Desde que se converteu ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia em 1969, Rosique pratica sua fé assim, em pequenos grupos de oração, comunhão e estudo da Bíblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, são 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 “supervisores”, Rosique entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma única característica comum: são crentes mais experientes.

Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique é hoje uma referência entre líderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã, vindos de igrejas que há 20 anos não lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um “símbolo” do período de transição que a igreja evangélica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.

Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de 3 milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a “teologia da prosperidade” (leia o quadro na última pág.). Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica.

Dentro do próprio meio, levantam-se vozes críticas a esse crescimento. Segundo elas, esse modelo de igreja, que prospera em meio a acusações de evasão de divisas, tráfico de armas e formação de quadrilha, tem sido mais influenciado pela sociedade de consumo que pelos ensinamentos da Bíblia. “O movimento evangélico está visceralmente em colapso”, afirma o pastor Ricardo Gondim, da igreja Betesda, autor de livros como Eu creio, mas tenho dúvidas: a graça de Deus e nossas frágeis certezas (Editora Ultimato). “Estamos vivendo um momento de mudança de paradigmas. Ainda não temos as respostas, mas as inquietações estão postas, talvez para ser respondidas somente no futuro.”

Nos Estados Unidos, a reinvenção da igreja evangélica está em curso há tempos. A igreja Willow Creek de Chicago trabalhava sob o mote de ser “uma igreja para quem não gosta de igreja” desde o início dos anos 1970. Em São Paulo, 20 anos depois, o pastor Ed René Kivitz adotou o lema para sua Igreja Batista, no bairro da Água Branca – e a ele adicionou o complemento “e uma igreja para pessoas de quem a igreja não costuma gostar”. Kivitz é atualmente um dos mais discutidos pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos principais críticos da“religiosidade institucionalizada”. Durante seu pronunciamento num evento para líderes religiosos no final de 2009, Kivitz afirmou: “Esta igreja que está na mídia está morrendo pela boca, então que morra. Meu compromisso é com a multidão agonizante, e não com esta igreja evangélica brasileira.”

Essa espécie de “nova reforma protestante” não é um movimento coordenado ou orquestrado por alguma liderança central. Ela é resultado de manifestações espontâneas, que mantêm a diversidade entre as várias diferenças teológicas, culturais e denominacionais de seus ideólogos. Mas alguns pontos são comuns. O maior deles é a busca pelo papel reservado à religião cristã no mundo atual. Um desafio não muito diferente do que se impõe a bancos, escolas, sistemas políticos e todas as instituições que vieram da modernidade com a credibilidade arranhada. “As instituições estão todas sub judice”, diz o teólogo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie de São Paulo e pastor da Igreja Presbiteriana do Bairro do Limão. “Ninguém tem dúvida de que espiritualidade é uma coisa boa ou que educação é uma coisa boa, mas as instituições que as representam estão sob suspeita.”

Uma das saídas propostas por esses pensadores é despir tanto quanto possível os ensinamentos cristãos de todo aparato institucional. Segundo eles, a igreja protestante (ao menos sua face mais espalhafatosa e conhecida) chegou ao novo milênio tão encharcada de dogmas, tradicionalismos, corrupção e misticismo quanto a Igreja Católica que Martinho Lutero tentou reformar no século XVI. “Acabamos nos perdendo no linguajar ‘evangeliquês’, no moralismo, no formalismo, e deixamos de oferecer respostas para nossa sociedade”, afirma o pastor Miguel Uchôa, da Paróquia Anglicana Espírito Santo, em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife. “É difícil para qualquer pessoa esclarecida conviver com tanto formalismo e tão pouco conteúdo.”

Uchôa lidera a maior comunidade anglicana da América Latina. Seu trabalho é reconhecido por toda a cúpula da denominação como um dos mais dinâmicos do país. Ele é um dos grandes entusiastas do movimento inglês Fresh Expressions, cujo mote é “uma igreja mutante para um mundo mutante”. Seu trabalho é orientar grupos cristãos que se reúnem em cafés, museus, praias ou pistas de skate. De maneira genérica, esses grupos são chamados de “igreja emergente” desde o final da década de 1990. “O importante não é a forma”, afirma Uchôa. “É buscar a essência da espiritualidade cristã, que acabou diluída ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular pessoas. É contra isso que estamos nos levantando.”

No meio dessa busca pela essência da fé cristã, muitas das práticas e discursos que eram característica dos evangélicos começaram a ser considerados dispensáveis. Às vezes, até condenáveis (leia o quadro na última pág.). Em Campinas, no interior de São Paulo, ocorre uma das experiências mais interessantes de recriação de estruturas entre as denominações históricas. A Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera não tem um templo. Seus frequentadores se reúnem em dois salões anexos a grandes condomínios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de dízimos e as ofertas da liturgia. Os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e fazê-lo por depósito bancário – e esperar em casa um relatório de gastos. Os sermões são chamados, apropriadamente, de “palestras” e são ministrados com recursos multimídias por um palestrante sentado em um banquinho atrás de um MacBook. A meditação bíblica dominical é comumente ilustrada por uma crônica de Luis Fernando Verissimo ou uma música de Chico Buarque de Hollanda.

Revista Época Sumário – 06/08/2010 – Edição nº 638

19/08/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Teologia | 2 Comentários

SE EU FOSSE MAIS VELHO

Não estou com pressa de envelhecer. Meu pai padece há anos de uma doença que o deixou senil e caquético. A velhice me intimida. Sei que na terceira idade não só perderei a impetuosidade típica dos jovens, como me tornarei mais vulnerável às doenças degenerativas. Mesmo assim espero pelos meus dias de ancião, porque só os velhos podem dizer coisas proibidas aos jovens. Estou ansioso para que chegue o tempo de poder dizê-las.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu diria aos mais jovens que desistam do sonho de galgar a fama em nome de Deus. Contaria que já presenciei o desespero de alguns que, tendo almejado se destacar como referenciais de sua geração, vieram a descer do trem fatigados e destruídos pelo ônus da fama. Descreveria os bastidores de algumas “grandes” agências evangelísticas e de outras para-eclesiásticas, e como me enojei com a petulância de alguns evangelistas famosos. Falaria de minhas lágrimas, quando um deles afirmou que passaria por cima de qualquer pessoa desde que conseguisse estabelecer o que chamou de “reino de Deus”. Incentivaria os jovens a buscarem uma vida discreta, sem o glamour do mundo, a preferirem a senda do Calvário. Pediria que optassem por beber o cálice do Senhor em vez de desejarem os louros da glória humana.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu alertaria aos mais jovens que ambicionam subir os degraus denominacionais sobre o perigo de chegar ao topo sem alma. Narraria os conchavos da política eclesiástica como ridículos e fúteis. Candidamente, contaria casos de traição, logro e delação nas reuniões secretas de algumas cúpulas religiosas. Pediria que fugissem da ganância pela autoridade institucional. Ensinaria a desejarem autoridade espiritual, que não vem de negociatas, mas de uma vida piedosa e íntima com Deus.


 

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Diria aos mais jovens que não se iludissem com o academicismo. Eu lhes revelaria como alguns acadêmicos usam da erudição para se esconderem de Deus. Não teria medo de mostrar que muita bibliografia citada em rodapé de página vem de uma vaidade boba. Algumas pessoas buscam se mostrar mais cultas do que na verdade são. Diria que certos eruditos são pessoas insuportáveis no contato pessoal e que eles também padecem dos mesmos males que todos nós: intolerância, indiferença e muita, muita soberba. Contudo, eu lhes pediria que fossem amigos dos livros. Pediria que lessem muito e diversificadamente; que usassem o conselho de Tiago na busca da sabedoria: “Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. A sabedoria, porém, lá do alto, é primeiramente pura; depois pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”. (Tg 3.13, 17.)


 

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Eu diria aos mais jovens que tomassem muito cuidado para não gastarem todas as suas energias nos primeiros anos de ministério. Exortaria, ilustrando o serviço a Deus como uma maratona e dizendo que não adianta se apressar nos primeiros anos. Contaria os exemplos de tantos que se arrebentaram antes da linha de chegada. Quantos pastores destruíram suas famílias e seus filhos no afã de serem úteis e produtivos! Quando chegaram os anos da meia idade, já estavam estressados e cansados! Falaria daquele dia em que o meu semblante descaiu ao ouvir um pastor dizer que só não saía do ministério porque, já muito velho, não sabia como retornar ao mercado de trabalho. Pediria que não perdessem a oportunidade de passear com os filhos no parque, de ler livros que não os úteis ao ministério, de curtir a sua mulher e de praticar algum esporte. Eu pregaria um sermão baseado em Mateus 16.26 e explicaria que, para Jesus, perder a alma tem um sentido mais amplo do que simplesmente morrer e ir para o inferno. Basearia minha mensagem na afirmação de que um pastor ou evangelista pode ganhar o mundo inteiro e acabar perdendo os afetos do cônjuge, os sentimentos dos filhos e dos amigos, a auto-estima, o sorriso, a capacidade de amar a poesia e de cantar canções de ninar. Enfim, perder a alma!

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Eu diria aos mais jovens que não desejassem o espalhafato espiritual nem as demonstrações exuberantes do poder carismático. Revelaria que alguns desses evangelistas americanos que muitos acreditam superungidos passam a tarde na piscina do hotel em que se hospedam, antes de encenarem a sua superespiritualidade em megaeventos. Não temeria denunciar alguns que se trancam em seus aposentos para assistirem a filmes na televisão e logo depois sobem às plataformas com o ar de santos da hora. Não hesitaria em alardear que muito daquilo que se rotula como demonstração de poder espiritual nasce de uma mentalidade que busca levar as pessoas a uma falsa euforia religiosa.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu diria aos mais jovens que a sexualidade é terreno minado e cheio de armadilhas. Contaria exemplos de ministérios que ruíram pela sensualidade. Alertaria que o grande perigo do sexo não vem da beleza, mas da solidão e do poder. Muitos pastores naufragaram em adultério porque se sentiram sós. Não tinham amigos verdadeiros. Viviam rodeados de assessores, sem um amigo com quem pudessem abrir o coração e pedir ajuda. Eu incentivaria os mais jovens a desenvolverem amizades, preferivelmente fora de seus quintais denominacionais. Suplicaria que fizessem amigos com coragem de falar coisas duras, olhando nos olhos. Lembraria que são fiéis as feridas feitas por aquele que ama.


 

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Eu diria aos mais jovens que tomassem cuidado com os modismos teológicos, ventos de doutrina e novidades eclesiásticas. Falaria das inúmeras ondas que varreram as igrejas com pretensas visitações de Deus. Vermelho de vergonha, lembraria aquele culto em que se alardeou que Deus estava trocando as obturações por ouro. As pessoas se sujeitavam ao ridículo de investigarem a boca umas das outras e depois, ao confundirem as restaurações amareladas de material de baixa qualidade com ouro, saíam proclamando um milagre de Deus. Relataria a pobreza doutrinária daqueles que jogaram os evangélicos na paranóia da guerra espiritual e ensinaram às mulheres a vigiarem mais durante a menstruação por haver demônios que se alimentam daquele tipo de sangue. Imploraria que se mantivessem fiéis ao leito principal do evangelho, à doutrina dos apóstolos; que não deixassem de pregar a Cruz do Calvário.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu diria aos jovens que não procurassem imitar ninguém. Lamentaria a tentativa patética de alguns líderes de quererem ser clones de pastores e evangelistas de renome. Mostraria vários exemplos ridículos de igrejas que tentaram reproduzir no sofrido Brasil o modelo de igrejas abastadas dos subúrbios americanos. Admoestaria que soubessem aceitar-se. Pediria que não ficassem procurando repetir gestos, neologismos, tom de voz e maneirismos dos outros, pois acabarão sem identidade. Eu mostraria na Bíblia que Deus não nos cobrará por não havermos ensinado com a destreza de Paulo, ou nos portado com a ousadia de Pedro, ou escrito com o mesmo amor de João. Teremos de prestar contas ao Senhor apenas por não termos vivido nossa própria identidade.


SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Diria aos jovens que a obra que Deus tem para fazer em nós é muito maior que aquela que Ele tem para fazer por meio de nós. Diria que somos preciosos como filhos e não como servos. Melancolicamente, falaria que na velhice muitos sentem saudade dos tempos que poderiam ter sido íntimos de Deus, mas acabaram chafurdados nos pântanos de sua própria vaidade. Diria que na velhice muitos choram por saberem que o tempo da partida está próximo e que não escolheram a melhor parte, como fez Maria.

Eu deveria ter esperado para dizer essas coisas quando estivesse mais velho. Por impetuosidade, acabei dizendo antes do tempo. Contudo, acredito que não me arrependerei de tê-las dito agora.

Ricardo Gondim é teólogo brasileiro, presidente nacional da Assembléia de Deus Betesda, presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos

26/07/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Textos | 8 Comentários

Sam Harris e Rick Warren

Debate sobre Deus: Sam Harris e Rick Warren:

Em um dia nublado da Califórnia Sam Harris o ateu, sentou com o pastor cristão Rick Warren para discutirem sobre a mais profunda pergunta da vida – Deus é real? Uma entrevista exclusiva para a revista Newsweek. Edição de 9 de abril, 2007

– Rick Warren é tão grande quanto um urso, com uma voz forte e um encanto simples. O Sam Harris é compacto, reservado e, apesar do tom polemico de seus livros, amigável e suave. Warren, um dos pastores  mais conhecidos no mundo, começou a Igreja de Seddleback em 1980 ; Agora 25.00 pessoas frequentam  a igreja cada domingo. Harris, tem a voz macia; as palavras saltam da sua boca, complexas e fundamentadas em fatos como deve ser um estudante de neurosciencia. A convite de NEWSWEEK, encontraram-se no escritório de Warren recentemente e conversaram, na maior parte do tempo amigavelmente  por quatro horas. Jon Meacham , foi o entrevistador . Os depoimentos seguem.

JON MEACHAM: Rick, já que você é do time da casa, nós começaremos com Sam. Sam, existe um Deus no sentido que a maioria dos americanos pensa dele ?

HARRIS : Não há nenhuma evidência de tal Deus, e é interessante observar que nós somos todos  ateus com respeito a Zeus e a milhares de outros deuses inoperantes a quem agora ninguém adora.

 Rick, Qual é a evidência da existência do Deus de Abraão?

RICK WARREN; Eu vejo as impressões digitais de Deus em toda parte. Eu as vejo   na cultura. Eu as vejo na lei. Eu as vejo na literatura. Eu as vejo  na natureza. Eu as vejo em minha própria vida. Tentar compreender de onde Deus veio é como uma formiga que tenta compreender a Internet. Mesmo o cientista mais brilhante concordaria que nós sabemos somente uma fração de um por cento do conhecimento do universo.

HARRIS: Todo o cientista deve admitir que nós não compreendemos inteiramente o universo. Mas nem a Biblia nem o Qur’an representam nossa melhor compreensão do universo. Isso está absolutamente claro.

WARREN: Pra você.

HARRIS: Há tanto sobre nós que não está na Biblia. Cada ciência específica da cosmologia a psicologia à economia tem superado e substituído o que o Bibla nos diz ser verdadeiro sobre nosso mundo.

Sam, os cristãos a quem você se dirige em seus livros têm que acreditar que Deus escreveu a  Biblia e que é literalmente verdadeira?

HARRIS: Bem, há claramente uma demonstração de confiança no texto. Eu quero dizer, existe o“Isto é literalmente verdadeiro, nada pode ser interpretado figurativamente ” e existe também o “ Isto é simplesmente o melhor livro que nós temos, escrito pelas pessoas  mais espertas que já existiram, e é válido organizarmos nossas vidas em torno dele excluindo qualquer outro livro.” Em algum lugar nessa afirmação eu tenho um problema, porque em minha cabeça tanto a Biblia quanto o  Qur’an são sómente livros, escritos por seres humanos. Há partes da Biblia  que eu acho que são  absolutamnente brilhantes e sem nenhuma comparação poetica , e há  partes da Biblia que são o mais absurdo barbarismo , e no entanto garante prescrever uma moralidade divinamente orientada –como entender isto? Os livros como Leviticos e Deuteronomio e Exodos e primeiro e segundo Reis e segundo Samuel -metade dos reis e dos profetas de Israel seriam levados ao tribunal de Haia e executados por crimes contra a humanidade se estes eventos ocorressem em nosso  tempo.

[ Para Warren] A  Biblia é pertinente?

WARREN: Eu acredito que é pertinente no que reivindica ser. A Biblia não reivindica ser um livro científico em muitas áreas.

Você acredita que a criação aconteceu da maneira que o Genesis a descreve? WARREN: Se você estiver me perguntando se eu acredito na evolução, a resposta é não. Eu acredito que Deus, em um momento, criou o homem.  Eu realmente acredito que o Genesis é literal, mas eu sei também que termos metafóricos são usados. Deus desceu dos céus e soprou no nariz do homem? Se você acreditar em Deus, você não tem  problema  em aceitar milagres. Assim, se Deus quer fazer dessa maneira, está tudo bem pra min.

HARRIS: Eu estou fazendo meu Ph.D. em neuroscience; Eu estou muito perto da literatura de biologia evolucionária. E o ponto básico é que a evolução pela seleção natural é aleatória e uma mutação genética que acontece por milhões de anos no contexto da pressão ambiental que seleciona para a aptidão.

WARREN: Quem está selecionando?

 HARRIS: O ambiente. Você não tem que chamar um desenhista inteligente para explicar a complexidade que nós vemos.

WARREN: O Sam faz todos os tipos de afirmações baseadas em suas presuposições. Eu estou disposto admitir minhas presuposições: existem indícios de Deus. Eu falo com Deus diáramente.  Ele fala comigo.

HARRIS: o que isso realmente significa ?

WARREN: Uma das grandes evidências da existência de Deus são orações respondidas. Eu tenho um amigo, um amigo canadense, que tem um problema de imigração. É um membro nesta igreja, então eu disse ; “Deus, eu preciso que você me ajude com isso,” enquanto eu saía para minha caminhada da noite. Quando eu estava andando encontrei-me com uma mulher. E ela disse, “eu sou advogada eu ficaria feliz em assumir este caso. “Agora, se isto acontecesse uma vez na minha vida eu diria, “que é uma coincidência.” Se acontecesse dez mil vezes, isto não é uma coincidência.

 Deve ter havido épocas em seu ministério que você orou para que alguém fosse curado  de uma doença e ela não foi – por exemplo  uma menina  com câncer.

WARREN: Oh, com certeza.

Então, analise isso. Deus deu-lhe um advogado de imigração, mas Deus matou uma menina.

WARREN: Bem, eu acredito na bomdade de Deus, e eu acredito que Êle sabe  melhor do que eu. Deus às vezes diz sim, e Deus às vezes diz não e Deus ás vezes diz espera. Eu tive que aprender a diferença entre o Não e o Ainda Não. O assunto aqui é  realmente entregar – se. Muitos ateus se escondem no racionalismo: quando você começa a sondar, você descobre que suas reações são bastante emocionais. Realmente, eu nunca conhecí  um ateu que não fosse  irritado.

HARRIS: Deixe-me ser o primeiro.

WARREN: Eu acho que seus livros são bastante irados.

HARRIS: Eu diria impaciente e não irados. Deixe-me responder a este exemplo de oração respondida, porque este é um erro clássico de amostragem, usando uma frase estatística. Nós sabemos que os seres humanos têm um sentido terrível de probabilidade. Há muitas coisas que nós acreditamos que confirmam nossos preconceitos sobre o mundo, e nós acreditamos nisso somente observando as confirmações, e não se mantendo a par das não confirmações. Você poderia provar para satisfação de muitos cientistas que a oração intercessória funciona se você fizesse esta simples experiência. Consiga que um bilhão de cristãos orem por um único mutilado. Peça pra que eles orem para que Deus faça crescer aquela parte amputada novamente. Isto acontece com as salamandras diariamente, com certeza sem orações, isto é coerente com a capacidade de Deus.[ Warren está rindo.] Eu acho interessante que as pessoas de fé  tendem a orar somente por circunstâncias que são limitadas para elas.

WARREN: Existe uma interpretação falsa aí.

HARRIS: Vamos voltar á Bibla. A razão que você acredita que Jesus é o filho de Deus é porque você acredita que o  Evangelho  é um relato  válido dos milagres de Jesus.

WARREN: É uma das razões.

HARRIS: Yeah. É uma das razões. Agora, há muitos testemunhos sobre milagres, cada um tão surpreendente quanto os milagres de Jesus, na outra literatura das religiões do mundo. Até mesmo milagres atuais. Há milhões de pessoas que acreditam que o Baba de Sathya Sai, o guru do sul da India, nasceu de uma de uma virgem, levantou os mortos e materializou objetos, você pode ver alguns de seus milagres no You Tube. Prepare para ser surprendido. Ele é um mágico dos palcos.  Como um cristão, você pode dizer que histórias de milagres do Baba de Sathya Sai não são interessantes, não prestar atenção a elas, mas se você os vê  no contexto do Império Romano pré-cientifico do primeiro-século, de repente as estórias dos milagres se tornam especialmente comoventes.  Sam, quais são as fontes seculares de um código moral aceitável?

HARRIS: Bem, eu não creio que os livros religiosos são a fonte. Nós lemos a Biblia e nós somos os juizes do que é bom. Nós vemos a régra de ouro como a purificação dos impulsos éticos, mas a régra de ouro não é única da  Bible ou de  Jesus; você a vê em muitas e muitas  culturas- e você vê uma  forma dela entre primatas não humanos. Eu não sou de modo nenhum um relativista moral. Eu acho que é bastante comum entre povos religiosos acreditar que o ateismo envolve o relativismo moral. Eu creio que há um certo e errado absoluto.

     Eu creio que honrar o crime, por exemplo, é absolutamente errado – você pode usar a  palavra demoníaco. Uma sociedade que mata mulheres e meninas por falta de descrição  sexual, mesmo a indiscrição de ser violentada, é uma sociedade que matou  a compaixão, que falhou não  ensinando aos homens a valorizar as mulheres e erradicou a empatia. Empatia e compaixão são nossos impulsos morais mais básicos, e nós podemos até mesmo ensinar a regra de ouro sem mentir para nós mesmos ou ás nossas crianças sobre a origem de determinados livros ou do nascimento virgem de determinados povos.

Rick, O cristianismo tem se comportado de uma maneira covarde e má de tempos em tempos. Como você enquadra isso com o Evangelho Cristão do amor?

WARREN: Eu não me sinto obrigado a defender atos que são feitos em nome de Deus quando eu não creio que Deus os tenha aprovado ou defendido. Existem coisas que foram feitas em nome do Cristianismo erradamente? Sim. O Sam faz uma afirmação em seu livro que religião é ruin para o mundo, mas mais pessoas foram mortas por causa do ateismo do que em todas as guerras religiosas juntas. Milhares morreram na Inquisição;  milhões foram mortos por  Mao, e por Stalin e Pol Pot. Existe um lugar para os ateístas no mundo hoje chamado Coréia do Norte. Eu não conheço nenhun ateista que queira ir pra lá. Eu prefiro muito mais viver com o Tony Blair  ou mesmo George Bush. O fim da linha é que os ateistas, que acusam cristãos de serem intolerantes, são tão intolerantes quanto eles.

HARRIS: Como eu estou sendo intolerante? Eu não estou defendendo que nós tranquemos as pessoas por causa da sua convicção religiosa. Você pode ser preso na Europa ocidental por negar o Holocausto. Eu penso que esta é uma maneira terrível de encarar o problema. Isto é realmente uma das grandes falsidades do discurso religioso, a idéia de que os maiores crimes do século 20 foram executados  por causa do ateismo. O problema central para mim é o dogmatismo divisive. Há muitos tipos do dogmatismos. Há um nacionalista, há um tribalista, há um racista e há um chauvinista. E há a religião. A religião é a única esfera do discurso onde o dogma é realmente uma palavra boa, onde é considerada nobre por acreditar em algo baseado fortemente na fé.

WARREN: Você não acha que os ateistas são dogmáticos?

HARRIS: Não, eu não acho.

WARREN: Eu sinto muito , mas eu discordo de você. Você é bastante dogmático.

HARRIS:Bem, eu estou feliz que você tenha chamado a atenção pra os meus dogmas, mas primeiro deixe-me tratar do Stalin. Os campos da matança e o gulag não foram  produtos da relutância  das pessoas em acreditar  em coisas que não tinham evidência suficiente. Elas não eram o produto de pessoas que requerem demasiada evidência e muita discussão por causa das suas crenças.

 Nós temos pessoas flying planes em nossos edifícios porque têm reclamações teológicas contra o Oeste. Eu observo cristãos fazendo coisas terríveis explicitamente por razões religiosas- por exemplo, não financiando a pesquisa embrionária. O motivo  é sempre o mais importante para mim. Nenhuma sociedade na história humana tem sofrido  por ter se tornado  demasiado racional.

WARREN: Nós estamos de total acordo quanto a isso. Eu simplesmente acredito que o Cristianismo salvou a razão. Nós não teríamos os nossos direitos garantidos se não fosse o Cristianismo.

HARRIS: Esta certamente é uma reivindicação disputada. A idéia de que de alguma maneira nós estamos tirando a nossa moralidade da tradição Cristã-Judaica é uma história ruin e uma ciência ruin.

WARREN: De onde você tira a sua moralidade ? Se não tem nenhum deus, se eu for simplesmente um produto um objeto complicado, então a verdade é, que sua vida não importa, minha vida não importa.

HARRIS: Isto é uma caricatura total de…..

WARREN: Ò ,não, deixe-me terminar. Eu deixei você caricaturar o Cristianismo. Se a vida for apenas uma possibilidade aleatória, então nada realmente importa e não há nenhuma moralidade- é a sobrevivência do mais apto. Se  a sobrevivência   dos mais  aptos significa eu matar você para sobreviver, então que seja. Por anos, os ateistas têm dito que não há Deus, mas querem viver como se Deus existisse. Êles querem viver como se suas vidas tivessem significado .

HARRIS: Nossa moralidade, o significado que nós encontramos na vida, é uma experiência vivida que eu acredito tenho que usar um termo pesado, um componente espiritual. Eu acredito que é possível transformar radicalmente nossa experiência do mundo para melhor, de certa forma da maneira como alguém como Jesus ou alguém como Buda, testemunhou. Existe uma sabedoria em nossa literatura espiritual, contemplativa, e eu estou muito interessado em compreendê-la. Eu creio que meditação e a oração nos afetam para o melhor. A pergunta é, o que é razoável acreditar tendo como base estas transformações.

WARREN: Você não vai admitir que é a sua experiência que faz  de você um ateista, e não a racionalidade.

HARRIS:O que em sua experiência está fazendo de você alguém que não é muçulmano? Eu presumo que você não está perdendo o sono toda noite querendo saber se se converte ou não ao Islamismo

 E se você não vai, é porque os muçulmanos dizem, “Nós temos um livro que é a palavra perfeita do criador do universo, é o Qur’an, e ele foi ditado a Muhammad em sua caverna pelo arcanjo Gabriel,” você vê lá uma grande variedade de afirmações que não são apoiadas por evidencias suficientes . Se as evidencias fossem suficientes, você seria motivado para ser Muçulmano.

WARREN: Isso é verdade

HARRIS: Assim você e eu ambos temos um relacionamento com o ateísmo e o Islamismo.

WARREN: Nós ambos estamos em um relacionamento de fé. Você tem a fé que não há nenhum deus. In 1974, eu passei a melhor parte do  ano morando no Japão, e eu estudei todas as religiões do mundo. Todas as religiões apontam bàsicamente para a verdade. Buddha fez esta famosa afirmação no fim de sua vida: “Eu estou procurando ainda pela verdade.” Muhammad disse, “eu sou um profeta da verdade.” O Veda diz, a “verdade é difícil de ser encomtrada , ela é como  uma borboleta, você tem que caça-la. “Então Jesus Cristo vem  e diz, “eu sou a verdade.”  repentinamente, esta afirmação força uma decisão.

HARRIS: Muitos, muitos outros profetas  e  gurus disseram isso.

WARREN: Está aqui a diferença. Jesus diz, “Eu sou o único caminho para Deus. Eu sou o caminho para o pai. “Ou Ele está mentindo ou não”.

Sam,  o Rick é  intelectualmente desonesto?

HARRIS: Eu não colocaria de uma maneira tão injusta, mas vamos dizer que o Rick não está aqui e nós estamos só visitando o seu escritório.

HARRIS: É intelectualmente desonesto, francamente, você dizer que não tem dúvida  que Jesus nasceu de uma virgem.

WARREN: Eu digo que eu aceito isto pela fé. E eu creio que é intelectualmente desonesto você dizer que você tem provas que não aconteceu. Aqui está a diferença entre você e eu. Eu estou aberto à possibilidade que eu esteja errado em determinadas áreas, e você não.  

HARRIS: Oh, eu estou absolutamente aberto a isto.

WARREN: Então você está aberto à possibilidade de que você pode talvez estar errado sobre Jesus?

HARRIS: E Zeus. Absolutamente

WARREN: E o que você está fazendo para estudar isso?

HARRIS: Eu considero isso um evento de tão baixa-probabilidade que eu…

 WARREN: Uma probabilidade baixa? Quando há 96 por cento de pessoas no mundo que acreditam? Então todos os outros são idiotas?

HARRIS: É bem possível que a maioria das pessoas estão erradas assim como a maioria dos Americanos que acham que a evolução não ocorreu.

WARREN: Esta é uma indicação arrogante.

HARRIS: É uma indicação honesta.

Rick, se você tivesse nascido na India ou no Irã, você teria uma crença religiosa diferente?

WARREN: Não há nenhuma dúvida de que onde você nasce influencia suas crenças iniciais. Independente de onde você nasceu, há algumas coisas que você pode saber sobre Deus, mesmo sem a  Bibla. Por exemplo, eu olho o mundo e digo,  “Deus gosta de variedade.” Eu digo, “Deus gosta de beleza.” Eu digo,  “Deus gosta de ordem,” e quanto mais  nós entendemos a ecologia, mais nós entendemos como esta ordem é sensivel .

HARRIS: Então Deus gosta da catapora e da tuberculose também.

WARREN: Eu atribuiria  muitos dos pecados do mundo a min mesmo.

HARRIS: E você é responsável pela catapora?

WARREN: Eu sou responsável por fazer algo sobre ela. Não há nenhuma dúvida sobre isso. Eu sou responsável por fazer algo sobre os 500 milhões que contraem malária todo ano e os 40 milhões que têm AIDS, porque eu vou ser responsabilizado pela minha vida. E quando eu disser, “Deus, porque você não faz algo sobre isto?” Deus vai dizer,“Bem, por que você não faz? Você era a resposta a sua próprio oração. “

HARRIS: Eu concordo totalmente com o Rick: é nossa responsabilidade ajudar construir uma ponte sobre estes inequities, mas eu acho que você se torna ainda mais motivado, potencialmente, para ajudar as pessoas quando você se conscientiza  que não há nenhuma boa razão, e com certeza nenhuma razão sobrenatural, para o fato de que eu tenho tanto e meu vizinho tem tão pouco. Você crê que os bons trabalhos  religiosamente  motivados são realmente prejudiciais?

HARRIS: O que  me incomoda sobre o altruísmo baseado na fé  é que está contaminado com idéias religiosas que não têm nada a ver com o alivio do sofrimento humano. Então, você tem um ministro Cristão na África que está fazendo um trabalho realmente bom, ajudando àqueles que estão com fome, curando os doentes. No entanto, como parte de sua descrição de trabalho, ele sente que tem que pregar a divindade de Jesus nas comunidades onde milhões de pessoas tem sido mortas literalmente por causa do conflito inter-religioso entre cristãos e muçulmanos. Parece-me que essa parte adicionada causa um sofrimento desnecessário. Eu preferiria ter alguém lá que quer simplesmente alimentar o faminto e curar o doente.

WARREN: Você preferiria muito mais ter um ateista alimentando o faminto do que uma pessoa que acreditasse em Deus? Todos os grandes movimentos de crescimento da civilização ocidental foram feitos por pessoas que acreditavam em Deus. Foram pastores que conduziram a abolição da escravatura. Foram os pastores que lideraram o movimento do direito da mulher ao voto. Foram os pastores que lideraram o movimento dos direitos civis. Não os ateistas.

HARRIS: Você fala da escravidão – Eu acho que é bastante irônico. A Escravidão, por putro lado, é apoiada pela Bibla, e não condenada por ela. È apoiada com uma precisão única no Velho Testamento, como você sabe, e Paulo em primeiro a Timoteo e Ephesios e Colossense apóia isto, e Peter…..

-WARREN: Não, ele não faz isso. Ele permite a escravidão. Não a apoia.

HARRIS: Ele a permite . Eu argumentaria que nós nos livramos da escravidão não porque nós lemos  Bibla com  mais atenção . Nós nos livramos da escravidão apesar das  profundas  incoerêncis da Bibla. Nós nos livramos da escravidão porque nós tomamos consciência de que era terrivelmente diabólico tratar seres humanos como equipamento de fazenda. Como era. Rick, qual é seu papel como pastor no encorajamento das reformas de outras crenças?

WARREN: Todas as grandes questões do século XXI serão perguntas religiosas. O Islamismo modernizar-se-á pacificamente? O que vai acontecer ao crescimento dos muçulmanos na Europa secular, que perdeu sua fé no Cristianismo e não tem nada para neutralizar esta perda em termos religiosos?O que vai substituir o Marxismo na China? Em todas as probabilidades vai ser o Cristianismo.  Irá a América voltar ás suas raízes históricas – haverá um terceiro, grande despertar ou a América irá pelo mesmo caminho da Europa?

HARRIS: Eu creio que as respostas, em termos espirituais e éticos,vão ser não – denominacionais. Nós estamos sofrendo a colisão das denominações, especificamente uma colisão com  o Islamismo. Qualquer que seja a verdade sobre nós, não é Cristão. E não é muçulmano. A física não é Cristã, embora foi inventada por Cristãos. A álgebra não é muçulmana, mesmo que tenha sido inventada por Muçulmano. Sempre que nós chegamos á verdade, nós transcendemos cultura, nós transcendemos nossa criação. O discurso da ciência é um bom exemplo de onde nós devemos manter a nossa esperança transcendendo o nosso tribalismo.

WARREN: Por que o ateísmo não é o mais atraente se supostamente é o mais intelectualmente  honesto?

HARRIS: Francamente , porque tem   uma  terrível campanha de relações públicas .

WARREN: [Risos] não é uma  questão de campanha  de relações públicas.

HARRIS: É quase como se fosse um molestador de criança  algo que você não quer ser. Mas isso é um produto, eu afirmaria, do  que outras pessoas religiosos dizem a um outro sobre o atheism.  Sam,  uma coisa que eu acho realmente problemático em seus argumentos é que eu sou culpado, citando  “O fim da fé,” “de um “obscenidade engraçada” quando eu levo meus filhos à igreja. Esta é  uma expressão muito forte, e não encoraja  o diálogo.

HARRIS: Até certo ponto a leveza de minha escrita é um esforço para chamar a atenção das pessoas. Mas eu posso honestamente defender a leveza porque eu penso que nossa situação é muito urgente. Eu estou estarrecido diante do que me parece ser um bottleneck que a civilização esteja passando . Por um lado nós temos a tecnologia do vigésimo primeiro século disruptiva que está proliferando, e no outro nós temos a superstição do primeiro século.A civilização vai passar por este bottleneck  mais ou menos intacta ou não. E talvez esse medo pareça  imenso, mas as civilizações terminam. Em muitas ocasiões, alguma geração testemunhou a ruína de tudo que eles e seus antepassados tinham construído. O que me estarrece especialmente sobre o pensamento religioso é a expectativa da parte de muitos que a civilização pode acabar baseado em uma profecia e o seu fim vai ser glorioso.

WARREN: Eu acredito que história se divide entre A.C. e D.C. por causa da Ressurreição. E a Ressurreição é não somente a ressurreição de Jesus Cristo , é a esperança do mundo: e isso significa  que há mais nesta vida do que apenas aqui e agora. Isto não significa que eu vou fazer menos, significa que esta vida é um teste , é uma tarefa de confiança e temporária..Se a morte é o fim,  eu  não vou desperdiçar nem mais um minuto sendo altruísta.

HARRIS: Como você explica meu altruísmo?

 WARREN: Você tem a benevolência comum. Mesmo nas pessoas que não acreditam em Deus, existe uma luz que Deus colocou em você que diz :, ” Existe mais na vida do que   apenas ganhar  dinheiro e morrer.” Eu penso que essa luz não vem da evolução. Sam escreveu que sem a  morte, a influência da religião baseada na fé seria inconcebível

WARREN: Porque nós fomos feitos à imagem de Deus, nós fomos feitos para durar para sempre. Isso significa que eu vou passar mais tempo naquele lado da eternidade do que neste lado. Se eu não acredito que haverá um julgamento, se eu acredito que Hitler vai se livrar de tudo o que ele fez , isto seria uma razão para um  grande desespero. O fato é, eu acredit que haverá um dia do Juízo Final. Deus não é apenas um Deus de amor. É um Deus de justiça. Então a morte é um fato.Por outro lado, mesmo se não houvesse nada como o céu , eu colocaria a minha confiança em Cristo porque eu descobri uma maneira significativa, satisfatória, significante  de viver.

HARRIS: Como pode ser justo para Deus ter criado um mundo que dá um testemunho tão ambíguo da sua existência? Como pode ser  justo  ter criado um sistema onde a crença é a parte crucial,  ao invés  de ser uma boa pessoa? Como pode ser justo  ter criado um mundo em que por um simples acidente de  nascimento, alguém que cresceu sendo muçulmano possa ser confundido pela religião errada? Eu não vejo como o futuro da humanidade está em boas mãos  com aquelas ortodoxias competitivas. Rick, vamos ser honestos. A alma do Sam está em perigo, em sua opinião, porque rejeitou Jesus?

 WARREN: A resposta polìticamente  incorreta é sim.

 HARRIS: Esta é a resposta honesta?

 WARREN: A verdade é, religião é mutuamente exclusiva. A pessoa que diz, ” Oh, eu apenas acredito em  todos elas, ” é um idiota porque as religiões se contradizem naturalmente. Você não pode acreditar em reencarnação e no céu ao mesmo tempo. Sam, vamos ser honestos  também. O Rick , tem,  em sua opinião, desperdiçado muita de sua vida em nome de um evangelho que você acha que é  uma superstição de primeiro-século?

 HARRIS: Eu não colocaria nesses termos austeros, porque eu não tenho  uma visão rígida  de como alguém deva gastar sua vida de modo a não  desperdiça – la.

WARREN: Qual seria a  sua resposta polìticamente incorreta?

HARRIS: Eu creio que você poderia usar  melhor seu tempo e atenção  do que organizar sua vida em torno de uma crença de que a Bíblia é a palavra  infalível de Deus e o melhor livro que nós  podemos ter em cada  assunto em questão. Como o mundo ideal funcionaria na visão de Sam Harris?  

 HARRIS :  Agora nós vamos ter que mudar as regras para falar de Deus , experiência espiritual e ética.  E eu estou que é assim. Você pode ter a sua espiritualidade. Você pode para uma caverna e praticar meditação e se transformar e então nós podemos conversar sobre porque isto aconteceu e como isto pode ser realizado novamente.Nós podemos até querer por razões perfeitamente racionais,  que nós queremos um  “Sabbath” neste país um Sabbath genuíno. Vamos nos conscientizar que existe um poder em contemplar  os  mistérios do universo, e em lembrar-se o quanto você ama  as pessoas mais próximos a você, e oquanto m você poderia amar as pessoas que você ainda não conheceu. Não há nada que você tem que acreditar sem evidencias suficientes para poder falar sobre essa possibilidade.

WARREN: Sam, você acredita  que os seres humanos tem um espírito?

 HARRIS: Há muitas razões para não acreditar em uma concepção ingénua de uma alma que flutua  fora do cérebro na morte e vai para  algum  outro lugar . Mas eu não sei.

 WARREN: Pode você ter a espiritualidade sem um espírito?

 HARRIS: Você pode sentir-se parte do universo

WARREN: Então porque você simplesmente não vai para a próxima  etapa? Porque agora  você está falando em termos extremamente irracionais.  

HARRIS:Não tem nada irracional sobre isso. Você pode fechar seus olhos na meditação e perder o sentido de seu corpo físico, totalmente. Muitos pessoas tiram disso a conclusão metafísica que ” Eu sou somente  espírito,  e eu posso transcender meu corpo.” Esta  não é  a única conclusão a que você tem que chegar  dessa experiência, e eu não creio que é a melhor   conclusão.

WARREN: Você é mais espiritual do que você pensa. Você apenas não quer um chefe. Você não quer um Deus que lhe diga o que fazer.

HARRIS: Eu não quero  fingir estar certo sobre qualquer coisa que eu não tenho certeza.

Rick, últimos pensamentos?

WARREN: Eu acredito na fé e na razão.Quanto mais nós aprendemos sobre Deus, mais nós compreendemos quão magnífico este universo é. Não existe  nenhuma contradição a isto. Quando eu olho a história, eu discordo do Sam: O cristianismo muito mais bem do que mau. O altruísmo vem do conhecimento de que há mais do que esta vida, de que lá é um Deus soberano, que eu não sou Deus.  Nós estamos ambos apostando.  Ele está apostando a sua vida que ele está certo eu estou apostando  a minha vida que Jesus não era um mentiroso. Quando nós morrermos se ele estiver certo, eu não perdi nada . Se eu estiver certo ele perdeu tudo. Eu não estou disposto a fazer este jogo.

22/06/2010 Posted by | Ferramentas, Igreja, Liderança, Teologia, Textos | 3 Comentários

Marina imaculada

Politicamente correta, com biografia sem nódoas e uma doçura sem par, a senadora verde diz por que deixou o PT e o que defenderá na corrida à Presidência da República em 2010 Sandra Brasil Lailson Santos “Também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me apresentar como similar ao Obama” A senadora Marina Silva, do Acre, causou um abalo amazônico ao Partido dos Trabalhadores. Depois de trinta anos de militância aguerrida, abandonou a legenda e marchou para o Partido Verde, seduzida por um convite para ser a candidata da agremiação à Presidência da República em 2010. Para o PT, o prejuízo foi duplo: não só perdeu um de seus poucos integrantes imaculadamente éticos, como ganhou uma adversária eleitoral de peso. Os petistas temem, e com razão, que a candidatura de Marina tire muitos votos da sua candidata ao Planalto, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Na semana passada, Marina, de 51 anos, casada, quatro filhos, explicou a VEJA as razões que a levaram a deixar o PT – e opinou sobre temas como aborto, legalização da maconha e criacionismo.

A senhora será candidata a presidente pelo Partido Verde?

Ainda não é hora de assumir candidatura. Há uma grande possibilidade de que isso aconteça, mas só anunciarei minha decisão em 2010. “Não vou me colocar em uma posição de vítima em relação à ministra Dilma. Não é por termos divergências que vou transformá-la em vilã. Não vou fazer o discurso fácil da demonização”

Se sua candidatura sair, como parece provável, que perfil de eleitor a senhora pretende buscar?

Os jovens. Eles estão começando a reencontrar as utopias. Estão vendo que é possível se mobilizar a favor do Brasil, da sustentabilidade e do planeta. Minha geração ajudou a redemocratizar o país porque tínhamos mantenedores de utopia. Gente como Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, que sustentava nossos sonhos e servia de referência. Agora, aos 51 anos, quero fazer o que eles fizeram por mim. Quero ser mantenedora de utopias e mobilizar as pessoas.

Sua saída abalou o PT. Além da possibilidade de disputar o Planalto, o que mais a moveu?

O PT teve uma visão progressista nos seus primeiros anos de vida, mas não fez a transição para os temas do século XXI. Isso me incomodava. O desafio dos nossos dias é dar resposta às crises ambiental e econômica, integrando duas questões fundamentais: estimular a criação de empregos e fomentar o desenvolvimento sem destruir o planeta. O crescimento econômico não pode acarretar mais efeitos negativos que positivos. Infelizmente, o PT não percebe isso. Cansei de tentar convencer o partido de que a questão do desenvolvimento sustentável é estratégica – como a sociedade, aliás, já sabe. Hoje, as pessoas podem eleger muito mais do que o presidente, o senador e o deputado. Elas podem optar por comprar madeira certificada ou carne e cereais produzidos em áreas que respeitam as reservas legais. A sociedade passou a fazer escolhas no seu dia a dia também baseada em valores éticos.

A crise moral que se abateu sobre o PT durante o governo Lula pesou na decisão?

Os erros cometidos pelo PT foram graves, mas estão sendo corrigidos e investigados. Quando da criação do PT, eu idealizava uma agremiação perfeita. Hoje, sei que isso não existe. Minha decisão não foi motivada pelos tropeços morais do partido, mesmo porque eles foram cometidos por uma minoria. Saí do PT, repito, por falta de atenção ao tema da sustentabilidade.

Ou seja, apesar de mudar de sigla, a senhora não rompeu com o petismo?

De jeito nenhum. Tenho um sentimento que mistura gratidão e perda em relação ao PT. Sair do partido foi, para mim, um processo muito doloroso. Perdi quase 3 quilos. Foi difícil explicar até para meus filhos. No álbum de fotografias, cada um deles está sempre com uma estrelinha do partido. É como se eu tivesse dividido uma casa por muito tempo com um grupo de pessoas que me deram muitas alegrias e alguns constrangimentos. Mudei de casa, mas continuo na mesma rua, na mesma vizinhança.

No período em que comandou o Ministério do Meio Ambiente, a senhora acumulou desavenças com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Como será enfrentá-la em sua eventual campanha à Presidência?

Não vou me colocar numa posição de vítima em relação à ministra Dilma. Quando eu era ministra e tínhamos divergências, era o presidente Lula quem arbitrava a solução. Não é por ter divergências com Dilma que vou transformá-la em vilã. Acredito que o Brasil pode fazer obras de infraestrutura com base no critério de sustentabilidade. Temos visões diferentes, mas não vou fazer o discurso fácil da demonização de quem quer que seja

Um de seus maiores embates com a ministra Dilma foi causado pelas pressões da Casa Civil para licenciar as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. A senhora é contra a construção de usinas?

No Brasil, quando a gente levanta algum “porém”, já dizem que somos contra. Nunca me opus a nenhuma hidrelétrica. O que aconteceu naquele caso foi que eu disse que, antes de construir uma usina enorme no meio do rio, era preciso resolver o problema do mercúrio, de sedimentos, dos bagres, das populações locais e da malária. E eu tinha razão. Como as pessoas traduziram a minha posição? Dizendo que eu era contra hidrelétricas. Isso é falso. “Creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há pesquisadores e cientistas que creem em Deus”

Se a senhora for eleita presidente, proibirá o cultivo de transgênicos?

Eis outra falácia: dizer que sou contra os transgênicos. Nunca fui. Sou a favor, isso sim, de um regime de coexistência, em que seria possível ter transgênicos e não transgênicos. Mas agora esse debate está prejudicado, porque a legislação aprovada é tão permissiva que não será mais possível o modelo de coexistência. Já há uma contaminação irreversível das lavouras de milho, algodão e soja.

O que a senhora mudaria no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)?

Eu não teria essa visão de só acelerar o crescimento. Buscaria o desenvolvimento com sustentabilidade, para que isso pudesse ser traduzido em qualidade de vida para as pessoas. Obviamente, é necessário que o país tenha infraestrutura adequada. Mas é preciso evitar os riscos e problemas que os empreendimentos podem trazer, sobretudo na questão ambiental.

Na economia, faria mudanças?

Não vou me colocar no lugar dos economistas. Prefiro ficar no lugar de política. Em linhas gerais, acho que o estado não deve se colocar como uma força que suplanta a capacidade criativa do mercado. Nem o estado deve ser onipresente, nem o mercado deve ser deificado. Também gosto da ideia do Banco Central com autonomia, como está, mas acho que estão certos os que defendem juros mais baixos.

No seu novo partido, o PV, há uma corrente que defende a descriminalização da maconha. Como a senhora se posiciona a respeito desse assunto?

Não sou favorável. Existem muitos argumentos em favor da descriminalização. Eles são defendidos por pessoas sérias e devem ser respeitados. Mas questões como essa não podem ser decididas pelo Executivo, e sim pelo Legislativo, que representa a sociedade. A minha posição não será um problema, porque o PV pretende aprovar na próxima convenção uma cláusula de consciência, para que haja divergências de opinião dentro do partido.

Os Estados Unidos elegeram o primeiro presidente negro de sua história, Barack Obama. Ele é fonte de inspiração?

Eu também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me colocar como similar ao Obama. Ele é uma inspiração para todas as pessoas que ousam sonhar. A questão racial teve um peso importante na eleição americana. Mas os Estados Unidos têm uma realidade diferente da do Brasil. Eu nunca fui vítima de preconceito racial aqui.

A senhora poderia se apresentar como uma candidata negra na campanha presidencial?

Não. É legítimo que as pessoas decidam votar em alguém por se identificar com alguma de suas características, como o fato de ser mulher, negra e de origem humilde. Mas seria oportunismo explorar isso numa campanha. O Brasil tem uma vasta diversidade étnica e deve conviver com as suas diferentes realidades. Caetano Veloso (cantor baiano) já disse que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Nós temos de aprender a nos relacionar com as diferenças, e não estimular a divisão. A história engraçada é que, durante as prévias do Partido Democrata americano, quando a Hillary Clinton disputava a vaga com Obama, um amigo meu brincou comigo dizendo que os Estados Unidos tinham de escolher entre uma mulher e um negro, e, se eu fosse candidata no Brasil, não teríamos esse problema, porque sou mulher e negra.

A senhora é a favor da política de cotas raciais para o acesso às universidades?

Há quem ache que as cotas levam à segregação, mas eu sou a favor de que se mantenha essa política por um período determinado. Acho que há, sim, um resgate a ser feito de negros e índios, uma espécie de discriminação positiva.

Mas a senhora entrou numa universidade pública sem precisar de cotas, embora seja negra, de origem humilde e alfabetizada pelo Mobral.

Sou uma exceção. Tenho sete irmãos que não chegaram lá.

Aos 16 anos, a senhora deixou o seringal e foi para a cidade, a fim de se tornar freira. Como uma católica tão fervorosa trocou a Igreja pela Assembleia de Deus?

Fui católica praticante por 37 anos, um aspecto fundamental para a construção do meu senso de ética. Meu ingresso na Assembleia de Deus foi fruto de uma experiência de fé, que não se deu pela força ou pela violência, mas pelo toque do Espírito. Para quem não tem fé, não há como compreender. Esse meu processo interior aconteceu em 1997, quando já fazia um ano e oito meses que eu não me levantava da cama, com diagnóstico de contaminação por metais pesados. Hoje, estou bem.

A senhora é mesmo partidária do criacionismo, a visão religiosa segundo a qual Deus criou o mundo tal como ele é hoje, em oposição ao evolucionismo?

Eu creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há médicos, pesquisadores e cientistas que, apesar de todo o conhecimento científico, creem em Deus.

O criacionismo deveria ser ensinado nas escolas?

Uma vez, fiz uma palestra em uma escola adventista e me perguntaram sobre essa questão. Respondi que, desde que ensinem também o evolucionismo, não vejo problema, porque os jovens têm a oportunidade de fazer suas escolhas. Ou seja, não me oponho. Mas jamais defendi a ideia de que o criacionismo seja matéria obrigatória nas escolas, nem pretendo defender isso. Sou professora e uma pessoa que tem fé. Como 90% dos brasileiros, acredito que Deus criou o mundo. Só isso.

A senhora é contra todo tipo de aborto, mesmo os previstos em lei, como em casos de estupro?

Não julgo quem o faz. Quando uma mulher recorre ao aborto, está em um momento de dor, sofrimento e desamparo. Mas eu, pessoalmente, não defendo o aborto, defendo a vida. É uma questão de fé. Tenho a clareza, porém, de que o estado deve cumprir as leis que existem. Acho apenas que qualquer mudança nessa legislação, por envolver questões éticas e morais, deveria ser objeto de um plebiscito.

Seu histórico médico inclui doenças muito sérias, como cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose. A senhora acredita que tem condições físicas de enfrentar uma campanha presidencial?

Ainda não sou candidata, mas, se for, encontrarei forças no mesmo lugar onde busquei nas quatro vezes em que cheguei a ser desenganada pelos médicos: na fé e na ciência.

05/04/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Politica Nacional | 1 Comentário

“O LIVRO MAIS MAU-HUMORADO DA BÍBLIA

A ENTREVISTA ABAIXO FOI CONCEDIDA POR ED RENÉ KIVITZ A UM SITE CRISTÃO EVANGÉLICO NA OCASIÃO DO LANÇAMENTO DO LIVRO MENSIONADO. NOS CONHECEMOS EM 2007 E DESDE ENTÃO ELE TEM ME INFLUENCIADO E AO MEU IRMÃO NORTON NOS DANDO O QUE RUBEM ALVES CHAMA DE COÇEIRA NAS IDEIAS. “O LIVRO MAIS MAU-HUMORADO DA BÍBLIA” É UM LIVRO E TANTO, MAS INDICO AINDA “A OUTRA ESPIRITUALIDADE” COMO UM DOS SEUS MELHORES PENSAMENTOS. BRINQUEI DIZENDO AO ED QUE EQUIVALE AS 95 TESES DE LUTERO. BRINCADEIRAS A PARTE, É UM LIVRÃO. SE PREPARE! HÁ VIDA INTELIGENTE NO CHAMADO “REINO DE DEUS”.

Ed René Kivitz: “Devemos acabar com essa ideia de vida cristã” “Quando a vida nos decepciona, ou a gente corre para o divã, para um prosecco ou para o divino. O problema é que Deus também decepciona”, afirma o escritor em lançamento de “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”. Por Felipe Pinheiro – http://www.guiame.com.br “De novo olhei e vi toda opressão que ocorre debaixo do sol: Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; O poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console. Por isso, considerei os mortos mais felizes do que os vivos, pois estes ainda têm que viver!” (Ec 4:1-2)

O mesmo conflito que reverberou entre os escritos de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão que classificou o cristianismo como a doença da humanidade, na medida em que o entendia como um depósito de anseios do homem diante de uma vida não satisfeita, foi o assunto da observação do sábio no livro bíblico de Eclesiastes, milhares de anos antes do filósofo que declarou a morte de Deus: qual o sentido da vida?

Com um caráter contemplativo, Eclesiastes – cuja indefinição autoral vagueia entre o rei Salomão a alguém de sua elite – é permeado por reflexões discorridas a respeito da vida e suas eventualidades. “Usando a expressão do Nelson Rodrigues, ele vê a vida como ela é. Ele não lê entrelinhas, ele não tem metafísica, ele simplesmente relata fatos da vida e diz: – Olha, isso é um absurdo e isso não faz sentido. Isso é vaidade”, afirmou ao Guia-me Ed René Kivitz, autor da obra recém lançada, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”. “O autor de Eclesiastes não é nem pessimista nem otimista. Ele é realista”, enfatizou.

Fruto de uma compilação de sermões, Kivitz, também pastor da Igreja Batista de Água Branca (SP), relatou a origem do livro baseado em Eclesiastes. “Ele nasceu dentro de mim provavelmente há uns 30 anos. Não que eu tenha demorado todo esse tempo para escrever, mas as angústias que deram origem ao que veio se tornar esse texto me chegaram já na minha juventude”.

A crise existencial ocasionada pela decepção inerente aos que estão debaixo do sol é a peculiaridade que, na opinião de Kivitz, torna Eclesisastes o livro mais mal-humorado das Escrituras e “absolutamente atual”, como afirma o pastor. “Um justo que morreu apesar da sua justiça e um ímpio que teve vida longa apesar da sua impiedade” (Ec 7:15).

“Com certeza, de todos os livros da Bíblia, o cara que menos se sente confortável no mundo é o Qohélet de Eclesiastes. Esse cara pegou todo o mal estar do mundo, da existência humana, e trouxe para dentro da alma dele”, explica o autor.

A redenção da alma, segundo Kivtz, encontra-se na coragem existencial. “Se eu bem entendi o que ele está dizendo, quem tem uma alma inquieta e não se sente confortável nesse mundo é saudável. Porque errado está o mundo e não a alma de quem é inquieto no mundo”. “Quando a vida nos decepciona, ou a gente corre para o divã, para um prosecco (tipo de vinho) ou para o divino. O problema é que Deus também decepciona”, afirma Kivitz.

Ao contrário de Nietzsche, filósofo que era ateu confesso, o escritor entende que a fé deve nortear o modo de viver neste mundo caótico, repleto de injustiças sem sentido: “Eclesiastes consegue enxergar a vida como ela é e encontra caminhos de dignidade sem deixar-se levar pelo ceticismo, pela desesperança, mas ele não mascara, não se ilude e portanto nos deixa muito vulneráveis. (…) Quando estamos vulneráveis temos a fé”.

“Ninguém é capaz de entender o que se faz debaixo do sol. Por mais que se esforce para descobrir os sentidos das coisas, o homem não o encontrará. O sábio pode até afirmar que entende, mas, na realidade, não o consegue encontrar” (Ec 8:17).

Em noite de apresentação da obra “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon (SP), René Kivtz falou com exclusividade ao Guia-me. Confira a entrevista:

Guia-me: Você encararia o autor de Eclesiastes como otimista ou pessimista?

René Kivitz: O autor de Eclesiastes não é nem pessimista nem otimista. Ele é realista. Uma das palavras-chave do livro, uma das expressões, é “debaixo do sol”. Usando a expressão do Nelson Rodrigues, ele vê a vida como ela é. Ele não lê entrelinhas, ele não tem metafísica, ele simplesmente relata fatos da vida e diz: – Olha, isso é um absurdo e isso não faz sentido. Isso é vaidade. A tradução do Haroldo de Campos para “vaidade de vaidade” é névoa de nada. Ele vê a vida e não faz sentido que o homem morra e seja enterrado no mesmo lugar que o cachorro. Não faz sentido que o pobre é pobre e ninguém luta por ele. Quem poderia lutar faz dele mais pobre ainda. Ele é realista. Eu acho que Eclesiastes é um livro realista.

Guia-me: De maneira geral, o Antigo Testamento revela o plano de Deus para a humanidade com a vinda de Cristo. Como você enxerga a relação do livro de Eclesiastes com o plano de redenção?

René Kivitz: O livro de Eclesiastes não tem plano de redenção. Ele não tem plano de redenção messiânico. Ele é um dos livros de sabedoria e não um livro profético. Ele não tem redenção nenhuma; pelo contrário. Ele diz: – Olha, o que você tiver de fazer, faça da melhor maneira que você puder porque a sepultura para onde você vai a coisa acaba. Ele tem um conceito de juízo. Ele diz que Deus há de trazer juízo sobre tudo e todos. Mas ele não tem uma promessa de redenção. Talvez o grande diferencial do livro de Eclesiastes na Bíblia sagrada é que a redenção dele não é escatológica e nem metafísica. É existencial. Você redime a sua vida enquanto vive com dignidade. Sem nos tornarmos maus quando atacados pelos malvados, sem nos tornarmos cínicos quando os nossos castelos desmoronam, sem nos tornarmos insensíveis quando a miséria está ao nosso lado e os que deveriam promover a justiça são cegos e promovem mais injustiça ainda. É mais ou menos isso.

Guia-me: Qual o sentido do título do livro?

René Kivitz: Mal-humorado não no nosso sentido, que a gente considera bom-humor estar rindo e mal-humor estar irritado. Mal-humor no sentido filosófico, que especialmente os gregos tratavam, aliás o Eclesiastes é livro mais próximo da filosofia grega que nós temos na Bíblia, os gregos diziam que o mal-humor era um senso de inadequação no mundo. Um desconforto no mundo. Mal-humor no sentido de uma inquietação de quem não se sente confortável no mundo. Com certeza, de todos os livros da Bíblia, o cara que menos se sente confortável no mundo é o Kohele de Eclesiastes, o que fala diante uma assembleia. Esse cara pegou todo o mal estar do mundo, da existência humana, e trouxe para dentro da alma dele.

Guia-me: Por isso esse caráter atemporal de Eclesiastes.

René Kivitz: Ele é absolutamente atual, eu penso.

Guia-me: Você faz algumas referências musicais como a Lulu Santos, Renato Russo, Biquini Cavadão. Como você responderia a uma possível critica negativa por utilizar músicas “seculares” intercaladas com uma literatura bíblica. De misturar o sagrado com o profano?

René Kivitz: Justamente o nosso esforço cristão deve ser no sentido de acabar com esse fosso que existe entre o chamado sagrado e o profano; o secular e o religioso. Isso é próprio de uma mentalidade moderna que renegou a religião a um canto e é próprio de religioso recalcado que não quer dar o braço a torcer e admitir que fora do seu espaço religioso há sabedoria. Se eu pudesse me defender, eu diria que nós devemos acabar com essa ideia de vida cristã. Não existe vida cristã. Existe vida. Existe um jeito cristão de ver a vida e um jeito não-cristão de ver a vida. Mas existe vida. Quando o sujeito vai almoçar num restaurante, pegar um ônibus para a universidade, quando ele procura um dentista, ele não pensa que o restaurante, o dentista, a universidade e a empresa de transporte coletivo são profanos. Mas a poesia ele acha que é profana. Nós temos que usar tudo que existe e redimir a cultura, a arte e fazer com que a teologia dialogue com que a sabedoria das tradições espirituais converse e se misture com a cultura.

Guia-me: Isso até para evitar uma alienação.

René Kivitz: Que é o que existe, né? Temos que sair do nosso gueto. Eu gostaria que o livro de Eclesiastes e especialmente por conta da abordagem dele, eu gostaria que o livro Mais Mal Humorado da Bíblia fosse lido não como um livro escrito por um pastor, mas como um cara que está junto com Eclesisastes pensando a vida, mas pensando a vida junto com Nietzsche, Alberto Camin, Lulu Santos, Nelson Rodrigues ou quem quer que seja. Por sexemplo, eu citei no livro Renato Russo, citei Jimmy Peterson. Eu tive um professor no seminário que disse que tudo o que está na Bíblia é verdade mas nem tudo que é verdade está na Bíblia. Eu acho que temos que aprender a conviver com esse discernimento universal que existe fora do espaço religioso.

Guia-me: Na elaboração do livro, você teve a preocupação de não torná-lo uma aplicação somente pessoal, esquecendo-se de levar em consideração o leitor de forma mais ampla?

René Kivitz: Sim e não. O livro nasceu como uma série de mensagens que eu preguei no púlpito da Igreja Batista de Água Branca. Eu fiz uma série de sermões. É uma palavra pastoral do púlpito da Igreja que eu tentei depois traduzir em linguagem literária. Guia-me: Mais ou menos como no livro Outra Espiritualidade, que foi uma coletânia de artigos da revista Eclesia? René Kivitz: Aí é bem diferente, porque os artigos da Eclesia nasceram já como artigos. Esse nasceu como linguagem de púlpito, oral e para uma congregação cristã. É o sermão de domingo. Ele tem uma preocupação pastoral sim e tem uma abordagem de aplicação pessoal. Eu diria que por mais abrangente que eu queira ser na minha abordagem na verdade eu antes de falar com qualquer pessoa eu falo comigo mesmo. Tanto nas minhas falas de púlpito quanto nos textos que eu escrevo eu estou buscando respostas para mim. Quando eu as encontro as que me satisfazem minimamente, eu compartilho e transbordo. Mas eu estou falando primeiro para mim e depois para os outros.

Guia-me: Mas você não se preocupou que o livro fosse tão somente centrado em você?

René Kivitz: Não, porque eu acho que talvez o exercício seja buscar que a mensagem seja mais universal. Eu perceber nas dores da minha alma e nas minhas angústias e das minhas questões aquilo que há de comum com as dores das almas de todos. O Terêncio dizia: “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Eu acho que eu procuro isso em mim, e procuro como o Evangelho, o cristianismo e a tradição bíblica respondem a isso.

O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia

Editora: Mundo Cristão Páginas: 224 Tamanho: 14×21 Categoria: Espiritualidade Ano: 2009

CLIQUE NO LINK ABAIXO E LEIA GRATUITAMENTE O PRIMEIRO CAPÍTULO!

http://www.mundocristao.com.br/adicionais/O%20livro%20mais%20mal-humorado%20da%20Biblia.pdf

23/02/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Teologia, Textos | 2 Comentários

Propósitos

TRANSCRIÇÃO DA ORAÇÃO DE RICK WARREN NA POSSE DO PRESIDENTE BARACK HUSSEIN OBAMA

“Deus Onipotente, nosso Pai, tudo que nós vemos e tudo que nós não podemos ver existe só por Sua causa. Tudo vem de Você. Tudo Lhe pertence. Tudo existe para Sua glória. A História é Sua História. As Escrituras dizem-nos: “Ouça, ó Israel, O Senhor é nosso Deus. O Senhor é único”. E Você é o compassivo e misericordioso. E ama a todos que fez.
  
   “Agora, hoje, nós nos regozijamos não somente na transferência calma do poder na América pela 44ª vez. Nós comemoramos um ponto de inflexão da História com a posse de nosso primeiro presidente Africano-Americano dos Estados Unidos. Nós somos muito gratos por viver nesta terra, uma terra de possibilidades inigualáveis, onde o filho de um imigrante africano pode alcançar o nível mais elevado de nossa liderança. E nós sabemos que hoje o Dr. King (Martin Luther King Jr.) e uma grande nuvem das testemunhas estão vibrando no céu.
  
   “Dê a nosso novo presidente, Barack Obama, sabedoria para conduzir-nos com humildade, coragem para conduzir-nos com integridade, compaixão para conduzir-nos com generosidade. Abençoe e proteja-o: sua família, o vice-presidente Biden, o Ministério, e cada um de nossos líderes livremente eleitos.
  
   “Ajude-nos, ó Deus, a recordar que nós somos americanos, unidos, não pela raça, ou religião, ou sangue, mas por nosso compromisso com a liberdade e a justiça para todos. Quando focalizamos em nós mesmos, quando lutamos uns contra outros, quando nós nos esquecemos de Você, perdoe-nos. Quando nós presumimos que nossa grandeza e nossa prosperidade são apenas nossas, perdoe-nos. Quando falhamos em tratar nossos companheiros seres humanos e toda a terra com o respeito que merecem, perdoe-nos. E, enquanto enfrentarmos estes dias difíceis adiante, que possamos ter um novo nascimento de clareza em nossos alvos, de responsabilidade em nossas ações, de humildade em nossas abordagens, e civilidade em nossas atitudes, mesmo quando nós diferimos.
  
   “Ajude-nos a compartilhar, servir e procurar o bem comum de todos. Possam, hoje, todas as pessoas de boa-vontade se juntar para trabalhar por uma mais justa, saudável e próspera nação e um pacífico planeta. E possamos nós nunca esquecer-nos de que um dia todas as nações e todos os povos prestarão contas a Você. Nós agora dedicamos nosso novo presidente, sua esposa, Michelle e suas filhas, Malia e Sasha, a Seu amoroso cuidado.
  
   “Eu, humildemente, peço isto, no nome daquele que mudou minha vida, Yeshua, Isa, Jesus (pronúncia espanhola), Jesus, que nos ensinou a orar: “Pai Nosso, que estás nos céus, santificado seja o Teu nome. Venha Teu Reino, seja feita Tua vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso, de cada dia dá-nos hoje e perdoa nossas transgressões como nós perdoamos aqueles que transgridem contra nós. E não nos induza à tentação, mas livra-nos do mal. Pois Teu é o Reino e o poder e a glória para sempre. Amém.”

Rick Warren é pastor da Saddleback Community Church, Lake Forest – California a mais de 25 anos.

16/01/2010 Posted by | Igreja, Liderança | 1 Comentário

UMA DECLARAÇÃO CRISTà(…)

Meu impulso inicial foi chamar este post de “Resposta a Bento XVI”, mas logo desisti, pois seria atribuir demasiada importância ao pronunciamento do Vaticano. Chamo de “Uma declaração cristã” para ser coerente com o pensamento de que em tempos de pós-modernidade e pluralismo (que alguns confundem com relativismo) não cabem afirmações categóricas. O máximo que um cristão pode fazer é “uma declaração cristã”, pois a declaração cristã sugere a unanimidade entre os cristãos, o que certamente existirá apenas no céu. O documento “Respostas a Questões Relativas a Alguns Aspectos da Doutrina sobre a Igreja” elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé e ratificado pelo papa Bento 16, afirma que “a única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica”, cria a ocasião para uma declaração cristã.

Conforme bem advertiu Pierucci: Não bastassem a arrogância fundamentalista da “Christian America” monoteísta do governo de George W. Bush e a truculência fundamentalista do monoteísmo intransigente dos aiatolás e talebãs, agora vamos ter pela frente, para completar, mais esta espécie do mesmo gênero: o fundamentalismo católico, que afirma o primado cristão da verdade católica no universo multicultural das igrejas cristãs agora declaradas “não-igrejas” ou “igrejas lacunares”. [ANTÔNIO FLÁVIO PIERUCCI, Folha de S.Paulo, 17 de julho de 2007]

Rejeitei, portanto, e de imediato o pronunciamento do Vaticano. Primeiramente porque poderia argumentar da legitimidade do protestantismo. Poderia advogar em favor do protestantismo, mas cairia no mesmo erro do Vaticano: reivindicar posse da verdade. Seria também vítima do equívoco que confunde o corpo místico de Cristo com as instituições que pretendem representá-lo na história. Depois considerei afirmar que a verdade a respeito da fé cristã não se encontra nem no Catolicismo nem no protestantismo, mas nas Escrituras, ou na Bíblia Sagrada, compreendida como a coletânea de textos canônicos: a Lei de Moisés e os Profetas do Velho Testamento e os escritos apostólicos do Novo Testamento. Nesse caso, tanto o catolicismo quanto o protestantismo seriam apenas interpretações das Escrituras. Mas logo percebi que cometeria outro erro, a saber, confundir doutrina com verdade: tanto o catolicismo quanto o protestantismo articulam a fé cristã em termos dogmáticos e doutrinários, nos termos da modernidade com sua razão-mania que pretende fazer caber a verdade cristã em um conjunto de teorias filosófico-teológicas. Além de confundir doutrina com verdade, confundiria a experiência com o Cristo ressurreto com a apropriação intelectual das teorias que pretendem explicá-la. Indo um pouco mais longe, considerei que a tentativa de estabelecer as Escrituras como lócus da verdade a respeito da fé cristã desconsideraria o fato de que a Bíblia Sagrada é uma realidade tardia à consolidação do cristianismo. De fato, havia no movimento cristão chamado primitivo um conjunto de escritos apostólicos, mas não eram considerados textos canônicos autoritativos como o são pela cristandade contemporânea. O Cânon bíblico é formado no quarto século da era cristã, de modo que já existia cristianismo antes que houvesse o que hoje chamamos Bíblia. Considerei, então, que a verdade a respeito da fé cristã estivesse no testemunho da Igreja, que nasce no Pentecoste. A proclamação dos primeiros cristãos, os documentos gerados, e as experiências comunitárias seriam continentes da verdade. Mas nesse caso, deixaria o cristianismo e a obra de Cristo à mercê das contingências humanas, o que não me agrada, até porque não é o que leio nas Escrituras Sagradas, o que significa que nem mesmo os primeiros cristãos se compreendiam como protagonistas do movimento de Cristo. Fiquei com a mais conservadora das possibilidades: a única verdade a respeito da fé cristã encontra-se em Cristo. O cristianismo prescinde da Igreja, das Escrituras, do Clero, e de qualquer outra realidade que tenha a mínima cooperação humana para sua existência. A única coisa (perdoe o “coisa”) da qual o cristianismo não prescinde é de Cristo. O cristianismo é obra do Cristo ressurreto e do Espírito Santo. Não é obra do catolicismo, nem do protestantismo. É Cristo quem edifica sua igreja. É o Espírito Santo quem guia a toda a verdade, sendo que o próprio Cristo é a verdade. É Cristo a verdade e é o Espírito Santo quem aproxima e une Cristo aos que são seus. Cristo está aonde as Escrituras ainda não chegaram. Cristo está aonde Igreja ainda não chegou. Cristo está aonde o testemunho da Igreja ainda não chegou. Eis uma declaração cristã: “a única verdade da fé cristã encontra-se em Cristo”.

09/01/2010 Posted by | Igreja, Teologia, Textos | Deixe um comentário

Houve certa vez (…)

“Houve certa vez uma comunidade de crentes que era tão completamente devotada a Deus, que sua vida conjunta era cheia do poder do Espírito Santo.
Naquele grupo de de seguidores de Cristo, os crentes amavam uns aos outros com uma profunda forma de amor. Tiravam suas mascaras e dividiam uns com os outros. Eles riam, choravam, oravam, cantavam e serviam juntos em um autentico companheirismo cristão. Aqueles que tinham mais partilhavam voluntariamente com aqueles que tinham menos, até que as barreiras socioeconomicas desaparecessem.
As pessoas se inter-relacionavam de forma que as diferenças sexuais e raciais eram eliminadas, e as diferenças culturais eram celebradas.
O  capitulo 2 do livro de Atos nos diz que essa comunidade de crentes, essa igreja, oferecia aos que não eram crentes uma tão linda visão da vida, que os deixava estupefatos. Era tão arrojada, tão criativa, tão dinamica, que não podiam resistir a ela. O versiculo 47 nos diz que ‘o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos'”.
(Dr Bilezenkian – Parte do livro LIDERANÇA CORAJOSA de Bill Hybels)

16/12/2009 Posted by | Igreja, Teologia | Deixe um comentário

The God Delusion

The God Delusion

Por Donald Miller

“Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe – e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.”

_____________________
Donald Miller é autor de Fé em Deus e pé na tábua, e Como os pinguins me ajudaram a entender Deus, ambos publicados pela Thomas Nelson Brasil.

08/12/2009 Posted by | Igreja, Teologia | Deixe um comentário

O Evangelho dos Evangélicos

O Evangelho dos Evangélicos

“Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” [Jesus Cristo]

Estou convencido de que um é o evangelho dos evangélicos, outro é o evangelho do reino de Deus. Registro que uso o termo “evangélico” para me referir à face hegemônica da chamada igreja evangélica, como se apresenta na mídia radiofônica e televisiva. O evangelho dos evangélicos é estratificado. Tem a base e tem a cúpula. Precisamos falar com muito cuidado da base, o povo simples, fiel e crédulo. Mas precisamos igualmente discernir e denunciar a cúpula. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé; a cúpula, muita vez é oportunista, mal intencionada, e age de má fé. A base transita livremente entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões afro. A base vai à missa no domingo, faz cirurgia em centro espírita, leva a filha em benzedeira, e pede oração para a tia que é evangélica. Assim é o povo crédulo e religioso. Uma das palavras chave desta estratificação é “clericalismo”: os do palco manipulando os da platéia, os auto-instituídos guias espirituais tirando vantagem do povo simples, interesseiro, ignorante e crédulo. A cúpula é pragmática, e aproveita esse imaginário religioso como fator de crescimento da pessoa jurídica, e enriquecimento da pessoa física. Outra palavra chave é “sincretismo”. A medir por sua cúpula, a igreja evangélica virou uma mistura de macumba, protestantismo e catolicismo. Tem igreja que se diz evangélica promovendo “marcha do sal”: você atravessa um tapete de sal grosso, sob a bênção dos pastores, e se livra de mal olhado, dívida, e tudo que é tipo de doença. Já vi igreja que se diz evangélica distribuir cajado com água do Jordão (i.é, um canudo de bic com água de pia), para quem desejasse ungir o seu negócio, isto é, o seu business. Lembro de assistir a um programa de TV onde o apresentador prometia que Deus liberaria a unção da casa própria para quem se tornasse um mantenedor financeiro de sua igreja. O povo religioso é supersticioso e cheio de crendices. Assim como o Brasil. Somos filhos de portugueses, índios, africanos, e muitos imigrantes de todo canto do planeta. Falar em espíritos na cultura brasileira é normal. Crescemos cheios de crendices: não se pode passar por baixo de escada; gato preto dá azar; caiu a colher, vem visita mulher, caiu garfo, vem visita homem; e outras tantas idéias sem fundamento. Somos assim, o povo religioso é assim. Tem professor de universidade federal dando aula com cristal na mão para se energizar enquanto fala de filosofia. E a cúpula evangélica aproveita a onda e pratica um estelionato religioso: oferece uma proposta ritualística que aprisiona, promove a culpa e, principalmente, ilude, porque promete o que não entrega. Aliás, os jornais começam a noticiar que os fiéis estão reivindicando indenizações e processando igrejas por propaganda enganosa. O evangelho dos evangélicos é estratificado. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé, e a cúpula é oportunista. A base transita entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões-afro, e a cúpula é pragmática. A base é cheia de crendices e a cúpula pratica o estelionato religioso. O evangelho dos evangélicos é mercantilista, de lógica neoliberal. Nasce a partir dos pressupostos capitalistas, como, por exemplo, a supremacia do lucro, a tirania das relações custo-benefício, a ênfase no enriquecimento pessoal, a meritocracia – quem não tem competência não se estabelece. Palavra chave: prosperidade. Desenvolve-se no terreno do egocentrismo, disfarçado no respeito às liberdades individuais. Palavra chave: egoísmo. Promove a desconsideração de toda e qualquer autoridade reguladora dos investimentos privados, onde tudo o que interessa é o lucro e a prosperidade do empreendedor ou investidor. Palavra chave: individualismo. Expande-se a partir da mentalidade de mercado. Tanto dos líderes quanto dos fiéis. Os líderes entram com as técnicas de vendas, as franquias, as pirâmides, o planejamento de faturamento, comissões, marketing, tudo em favor da construção de impérios religiosos. Enquanto os fiéis entram com a busca de produtos e serviços religiosos, estando dispostos inclusive a pagar financeiramente pela sua satisfação. Em síntese, a religião na versão evangélica hegemônica é um negócio. O sujeito abre sua micro-empresa religiosa, navega no sincretismo popular, promete mundos e fundos, cria mecanismos de vinculação e amarração simbólicas, utiliza leis da sociologia e da psicologia, e encontra um povo desesperado, que está disposto a pagar caro pelo alívio do seu sofrimento ou pela recompensa da sua ganância. Em terceiro lugar, o evangelho dos evangélicos é mágico. Promove a infantilização em detrimento da maturidade, a dependência em detrimento da emancipação, e a acomodação em detrimento do trabalho. Pra ser evangélico você não precisa amadurecer, não precisa assumir responsabilidades, não precisa agir. Não precisa agregar virtudes ao seu caráter ou ao processo de sua vida. Primeiro porque Deus resolve. Segundo porque se Deus não resolver, o bispo ou o apóstolo resolvem. Observe a expressão: “Estou liberando a unção”. Pensando como isso pode funcionar, imaginei que seria algo como o apóstolo ou bispo dizendo ao Espírito Santo: “Não faça nada por enquanto, eles não contribuíram ainda, e eu não vou liberar a unção”. Existe, por exemplo, a unção da superação da crise doméstica. Como isso pode acontecer? A pessoa passa trinta anos arrebentando com o seu casamento, e basta se colocar sob as mãos ungidas do apóstolo, que libera a unção, e o casamento se resolve. Quem não quer isso? Mágica pura. O sujeito é mau-caráter, incompetente para gerenciar o seu negócio, e não gosta de trabalhar. Mas basta ir ao culto, dar uma boa oferta financeira, e levar para casa um vidrinho de óleo de cozinha para ungir a empresa e resolver todos os problemas financeiros. Essa postura de não assumir responsabilidades, de não agir com caráter, e esperar que Deus resolva, ou que o apóstolo ou bispo liberem a unção tem mais a ver com pensamento mágico do que com fé. Em quarto lugar, o evangelho dos evangélicos tem espírito fundamentalista. Peço licença para citar Frei Beto: “O fundamentalismo interpreta e aplica literalmente os textos religiosos, não sabe que a linguagem simbólica da Bíblia, rica em metáforas, recorre a lendas e mitos para traduzir o ensinamento religioso.” O espírito fundamentalista é literalista, e o mais grave é que o espírito fundamentalista se julga o portador da verdade, não admite críticas, considerações ou contribuições de outras correntes religiosas ou científicas. Quem tem o espírito fundamentalista não dialoga, pois considera infiéis, heréticos, ou, na melhor das hipóteses, equivocados sinceros, todos os que não concordam com seus postulados, que não são do mesmo time, e não têm a mesma etiqueta. Quem tem o espírito fundamentalista se considera paradigma universal. Dialoga por gentileza, não por interesse em aprender. Ouve para munir-se de mais argumentos contra o interlocutor. Finge-se de tolerante para reforçar sua convicção de que o outro merece ser queimado nas fogueiras da inquisição. Está convencido de que só sua verdade há de prevalecer. Mais uma vez Frei Beto: “o fundamentalista desconhece que o amor consiste em não fazer da diferença, divergência”. Por causa do espírito fundamentalista, o evangelho dos evangélicos é sectário, intolerante, altamente desconectado da realidade. O evangelho dos que têm o espírito do fundamentalismo é dogmático, hermético, fechado a influências, e, portanto, é burro e incoerente. Em quinto lugar, o evangelho dos evangélicos é um simulacro. Simulacro é a fotografia mais bonita que o sanduíche. Não me iludo, o evangelho dos evangélicos é mais bonito na televisão do que na vida. As promessas dos líderes espirituais são mais garantidas pela sua prepotência do que pela sua fé. Temos muitos profetas na igreja evangélica, mas acredito que tenhamos muito mais falsos-profetas. Os testemunhos dos abençoados são mais espetaculares do que a realidade dos cristãos comuns. De vez em quando (isso faz parte da dimensão masoquista da minha personalidade) fico assistindo estes programas, e penso que é jogada de marketing, testemunho falso. Mas o fato é que podem ser testemunhos por amostragem. Isto é, entre os muitos que faliram, há sempre dois ou três que deram certo. O testemunho é vendido como regra, mas na verdade é apenas exceção. A aparência de integridade dos líderes espirituais é mais convincente na TV e no rádio do que na realidade de suas negociatas. A igreja evangélica esta envolvida nos boatos com tráficos de armas, lavagem de dinheiro, acordos políticos, vendas de igrejas e rebanhos, imoralidade sexual, falsificação de testemunho, inadimplência, calotes, corrupção, venda de votos. A integridade do palco é mais atraente do que a integridade na vida. A fé expressa no palco, e nas celebrações coletivas é mais triunfante, do que a fé vivida no dia a dia. Os ideais éticos, e os princípios de vida são mais vivos nos nossos guias de estudos bíblicos e sermões do que nas experiências cotidianas dos nossos fiéis. Os gabinetes pastorais que o digam: no ambiente reservado do aconselhamento espiritual a verdade mostra sua cara. Estratificado, mágico, mercantilista, fundamentalista, e simulacro. Eis o evangelho dos “evangélicos”.

05/12/2009 Posted by | Igreja, Teologia | 3 Comentários

SUSAN BOYLE E O ELO PERDIDO

susan_boyle1

Das duas, uma: ou aquela figura neandertalesca, de cabelos
desgrenhados e olhos miúdos entre sobrancelhas cerradas e maçãs
salientes, é uma pegadinha, ou o programa “Britain’s Got Talent”
acaba de encontrar o elo perdido.

Das duas, nenhuma. Aquela caricatura de mulher é Susan Boyle e sua
presença no palco abre um tonel de zombarias. Quando Susan revela
seu sonho de ser cantora profissional, como a canadense Ellen Page,
com metade da sua idade e um terço do seu peso, a plateia debocha.

No júri, a atriz Amanda Holden, emoldurada pelo cético Piers
Morgan e pelo acético Simon Cowell, se esforça para fazer cara
neutra de paisagem, mas seu belo rosto parece dizer: “Isso vai ser
divertido”. Pelo menos até a voz de Susan acentar os primeiros
acordes de “I dreamed a dream”. Aí o queixo de Amanda cai,
literalmente.

A platéia vai ao delírio. Em poucos dias Susan Boyle é vista mais
de cem milhões de vezes no Youtube e muito mais na mídia global. O
título da obra de Victor Hugo, “Os miseráveis”, que a canção evoca
é emblemático.

Susan Boyle é uma miserável cantando para miseráveis. Feia,
deficiente e sem jamais ter tido um namorado, ela é tudo aquilo que
nenhum de nós gostaria de ser, mas somos. Quando começa a cantar,
porém, até Amanda Holden quer ser Susan. Ela aplaude de pé, e o
jogo de câmeras contrasta o seu corpo esguio com a silhueta de
canhão que ribomba no palco.

Talvez o correto não seja dizer que ‘somos’ miseráveis, mas sim
que ‘estamos’ miseráveis, do mesmo modo que hoje Susan ‘está’ feia
e Amanda ‘está’ linda. Em cinquenta anos o corpo de Amanda, hoje
sensual, também será canhão, e sua pele, agora de pêssego, se
transformará num maracujá de gaveta. Os miseráveis no júri e na
plateia aplaudem porque torcem por Susan e por si mesmos,
igualmente carentes de amor e perfeição, ainda que sob diferentes
camadas cosméticas.

Estranho ser, esse humano! Almejamos padrões de bondade, justiça e
beleza que sempre estão muito acima do que podemos alcançar. De
onde será que vem isso? Vivemos na terra, mas de olho nas estrelas,
porque trazemos em nós um sentimento de infinitude. É como se Deus
tivesse plantado a eternidade em nossos corações. Se é que não
plantou.

O paradoxo, porém, é que esse mesmo humano, capaz de proezas do
talento e do pensamento infinitamente superiores a qualquer outro
ser vivo, também é capaz de atrocidades nunca vistas na mais
medonha fera irracional. Matamos nossos filhos para comê-los no
jantar, mas também criamos um número infinito de filigranas a
partir das mesmas e perfeitas sete notas musicais, como Susan faz
no palco.

E ao cantar, ela nos lembra de que existe no humano uma dignidade
além do que aparentamos ser. Trata-se do sopro divino, algo que
nenhum animal recebeu. Por isso Deus não desistiu de sua criação e
quis Se revelar em humanidade numa Pessoa perfeita, Jesus, ainda
que miserável em sua tez exterior.

É por isso que torcemos por Susan Boyle, como quem torce pela Fera
da Bela, pelo Corcunda de Notre Dame e pelo Frodo dos pés peludos
de “O Senhor dos Anéis”, vivendo sob a contínua tentação do anel.
Nós nos identificamos com heróis fracassados porque acreditamos que
ainda podemos ser amados, resgatados e transformados desta
miserável condição. É como se sentíssemos saudade do Paraíso.

Susan Boyle não é o elo perdido. Ela apenas revelou que o elo
existe, mas não com algum símio ancestral. Sob aquela semelhança
feia, miserável e transitória foi possível ver um ser criado à
imagem de Deus. Quem estava no palco não era uma pessoa estranha.
Naquele palco eu vi a mim mesmo, como Deus me vê e me ama. E também
vi você.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Assista no site do programa Britain’s Got Talent a versão completa
do programa com Susan Boyle:
http://talent.itv.com/videos/video/item_200081.htm

Assista aqui a versão legendada em português:

25/04/2009 Posted by | Igreja, Psicologia, Teologia | | 12 Comentários