Shalon’s

…em construção…SEMPRE!

Carta aberta sobre o posicionamento do Pr. Paschoal Piragine sobre as eleições 2010.

Carta aberta sobre o posicionamento do Pr. Paschoal Piragine sobre as eleições 2010.

O vídeo e o posicionamento do Paschoal Piragine sobre as eleições 2010 têm causado verdadeiro frisson na comunidade evangélica brasileira. Mas não se preocupem pastores, todos nós vez por outra falamos bobagens impensadas, pouco refletidas (assim espero) e isso não seria privilégio do Pr. Paschoal, mas uma constante no ser humano, ser falível, como eu e você que me lê. Qualquer um que se aventure a difícil tarefa de se expressar está sob esse risco. Hesitei em escrever sobre esse pronunciamento por achar uma perda de tempo “responder” a tamanha tolice, com todo o respeito, mesmo tendo ficado mais uma vez decepcionado com os rumos do cristianismo no Brasil. Contudo inspirado em palavras do também Pr. Batista, Dr. Martin Luther King Jr, não consegui ficar calado ao começar a receber, via todas as mídias sociais, apelos para me engajar no chamado “movimento contra a iniqüidade” citado no tal vídeo e no tal pronunciamento.

Nessa “carta aberta”, em alguns momentos vou me referir ao pronunciamento e em alguns momentos ao Pr. Paschoal por ser ele o autor do pronunciamento. Não revisei, não corrigi; fui escrevendo, muitas vezes ponto a ponto…e que Deus nos abençoe! (Meus comentários estão em negrito e itálico)

A primeira pergunta do Pr. Paschoal Piragine é sobre INIQUIDADE: O que é iniquidade? E ele segue;  

“Iniqüidade é quando a gente tá tão acostumado ao pecado que a gente não tem mais vergonha de cometê-lo e ele passa a ser algo tremendamente natural na nossa vida”

A definição correta, ainda que incompleta, acima mencionada, é interessante. Mas nos últimos 30 anos, e tenho 34 anos, se eu fosse fazer um vídeo sobre iniqüidade “institucionalizada” no Brasil, teria que contar com a paciência dos expectadores, pois faria “Ben Hur” parecer um comercial da NBA. Não vi no vídeo nada sobre os órfãos deixados pelos assassinatos brutais durante os anos da ditadura no Brasil, não vi nada sobre censura, garantias dos direitos fundamentais do cidadão independente de sua orientação religiosa, não vi nada sobre desigualdade social, racismo, AIDS; não vi nada sobre corrupção nem mesmo quando ela teve como pivôs nossos irmãos em cristo que passam a semana no Planalto Central. Vale lembrar que nesses últimos 30 anos, é publico, que muitos “vampiros”, “sanguessugas”, e até “mensaleiros” tinham uma grande bíblia preta no sovaco.

Continua então: E a bíblia diz que quando a iniqüidade chega (…), é tempo que Deus tem que julgar sua terra, julgar seu povo, julgar uma nação”.

Realmente, eu tenho medo do que Deus fará, mas não com o Brasil em primeira instancia, mas tenho medo sim de quando Ele julgar aqueles a quem chama de “a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” Quem são os leprosos do século XXI? Quem são os Samaritanos? Quem são as viúvas pobres e quem são os pródigos? Na outra ponta, quem são os Escribas e Fariseus? Quem são os publicanos? Que são os idolatras (geralmente dizem simplesmente que são os irmãos católicos). E o que é o objeto dessa idolatria? Há uma clara incoerência entre a manjedoura e o palácio e só não vê quem não quer. O que será que Deus dirá da omissão do Seu povo? Das brigas estúpidas pelo que o Ap. Paulo chamou de “matérias disputáveis”, assuntos bobos, tolices.

E é por causa disso que eu tenho que falar uma coisa que durante 30 anos no meu ministério eu nunca fiz. Completei 30 anos de ministério no dia 08 de agosto, e nesses 30 anos eu nunca fiz o que eu fiz hoje pela manhã e vou fazer agora á noite.

Pastor, siga o exemplo de Lutero, ensine a Bíblia e os bêbados caírão trôpegos naturalmente no caminho pelo poder da palavra. Caso contrário, humildemente rogo que fique sem falar por mais 30 anos.

Eu quero dizer pra vocês que nós precisamos tomar muito cuidado com essas eleições que vão acontecer porque existe uma serie de leis que estão tramitando que vão depender do voto do Deputado Federal, do voto do senador que vão ser incorporadas pela ação da maquina estatal através da presidência da republica, nós vamos estar votando nessas pessoas no próximo mês, que vai tomar força também nas câmaras estaduais, nas ações que são feitas através do estado, e nós precisamos de valores cristãos trabalhando nesses contextos.

Cuidado e prudência em eleições sempre foi necessário, mas é fato que nos últimos 30 anos não tivemos tantas oportunidades assim de exercitar isso pois em parte desse tempo isso nem era possível. A propósito, muitos pastores nossos estavam era recebendo “flores” do regime ditatorial. Nossa “colonização” batista do sul dos estados unidos, do mesmo sul de George W. Bush e dos Cavaleiros da Klã, invocava o verso que fala sobre submissão a autoridade constituída por “deus” para rezar na cartilha e ficar em berço esplêndido. De fato, muita atenção nessas eleições. Aprecio seu destaque ao cuidado com o voto para as câmaras, mesmo sabendo que nossos motivos são diferentes. Nesse Blog, há um texto interessante do amigo Bento Souto. O título? EU VOTO É NO SAMARITANO. Esse texto explica porque não necessariamente voto em “irmão” que “combate” a “iniquidade institucionalizada”

Por causa disso está acontecendo no Brasil um movimento que eu faço parte agora, graças a Deus, de lideres cristão de varias denominações, evangélicos e católicos, que estão trabalhando para que a gente possa impedir que a iniqüidade seja institucionalizada na forma de lei. Por isso alguns pastores tem se posicionado firmemente no radio, na televisão, com suas igrejas e também a CNBB(Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil), nessa ultima semana escreveu um documento e publicou e lançou na mão de toda a imprensa, se posicionando com relação a esses assuntos.

Fico admirado com a naturalidade com a qual o senhor fala dessa “parceria ideológica“ com a CNBB. Até bem pouco tempo isso levava a “fogueira da inquisição” batista sob o estigma de “ecumênico” no uso mais simplista e preconceituoso que poderia se fazer dessa bela palavra. Mas porque ninguém foi a publico apoiar a CNBB quando ela pressionou o governo para agir com políticas que reduzissem o valor da cesta básica no Brasil? Deus nos ajude, de agora em diante, e conto com a sua influencia, a nos juntarmos ao que de bom Deus estiver fazendo ao nosso redor.

Eu vou pedir que você assista um vídeo de alguns minutos que fala desses problemas e de como nos precisamos levar isso a sério porque isso tudo o que vai passar aqui é iniqüidade institucionalizada e que nos precisamos nos posicionar e dizer”nós não queremos isso na nossa nação” e procurar pessoas que nos representem pra dizer “vou votar contra essas coisas” porque caso o contrario a iniqüidade será oficializada, e Deus não vai ter outra coisa a fazer a não ser julgar a nossa terra.

Olha, eu queria saber se alguém que me lê, conhece uma só pessoa que se posicione a favor da pedofilia. Ninguém mesmo! Muito menos o PT que tem em seus quadros pessoas engajadas a muitos anos na luta, não só contra a pedofilia, mas contra a prostituição infantil e afins. Queria dizer que se o PLC122/2006 é apelidado de lei da mordaça, eu queria ter inventado esse apelido. O que eu já ouvi de absurdos sobre esse assunto só porque a nossa liberdade de credo nos dava lastro para tal não tá no gibi. Se isso vai parar, é benção. Vejo com bons olhos precisarmos pensar mais responsavelmente quando esse for o assunto. Não acho que Jesus, caminhando no nosso meio hoje, fosse dar grandes bolas pra esse tema diante de pautas tão urgentemente anteriores a essas. A questão do infanticídio indígena não pode também ser tratado passionalmente. Qualquer pessoa que viva no nosso contexto cultural ficaria chocada, mas não é uma questão passional, nem “religiosista”. É um tema de alta complexidade jurídico-antropológica, e por isso eu me atenho a mencionar a complexidade do tema e a tira-lo do debate reducionista de pecado ou não pecado. O fim de tudo é que o vídeo é claramente de extrema direita, e eu conheço bem a extrema direita. Venho de lá! Mas prefiro dizer que o vídeo é de uma infelicidade sem tamanho.

Há um partido político que fechou questão sobre esse assunto, o partido político que é o PT de nosso presidente, em seu congresso desse ano, ele, no seu congresso geral, quando eles indicam seus deputados, ele fechou questão sobre essas questões. Ou seja, se um deputado, se um senador do PT, se ele votar contra, de acordo com sua consciência, contra qualquer uma dessas leis, ele é expulso do partido. Já dois deputados federais foram expulsos do PT, por se manifestarem contra o aborto. Isso fez com que a igreja católica se manifestasse publicamente, por que eles estavam ligados a igreja católica, junto ao PT, e se manifestarem contra, e por isso foram expulso do partido. E a igreja católica então emitiu nota pública dizendo: olha não votem em ninguém do PT. Eu diria para você a mesma coisa. Algumas pessoas não vão gostar do que eu estou falando, mas estou falando bem claramente. Porque quando não se pode votar com a consciência, não adianta votar em pessoas, porque o partido já fechou questão.

Primeiro não sou Advogado e muito menos Advogado do PT. Mas não há uma verdade se quer nessas afirmações que chegaram ao pastor. Acredito, pela caminhada idônea do pastor, que faltou informação e não acredito em ma fé a priori. Mas se alguém quiser me tirar do sério, que diga simplesmente “NÃO VOTEM NO PT” aqui na Bahia (e não deve ser diferente no resto do Brasil). Aqui, Walter Pinheiro é um dos homens mais sérios que eu já conheci. Ele vota com o PT, pois é o seu partido, quando isso não fere seu credo e suas liberdades individuais previstas no estatuto do Partido dos Trabalhadores. Aqui, Neuza Cadore, ex-freira católica, depois de fazer um trabalho brilhante no sertão, E SER CRUELMENTE SABOTADA PELA EXTREMA DIREITA, é hoje uma legítima representante do REINO DE DEUS, no que isso tem de mais inclusivo, na Assembléia Legislativa do Estado. Portanto, esse dois exemplos me dão a certeza de que foi uma afirmativa muito, muito, muito infeliz generalizar o PT. Eu não digo pra ninguém votar ou não votar em partido ou pessoa alguma. Se eu oriento alguém politicamente apelo pra sua dedicação pessoal, discernimento, pesquisa e busca da verdade sobre cada candidato.

Mas além de tudo, eu ficaria triste de ver, por via judicial, o PT assumir o púlpito da PIB de Curitiba para exercer o seu direito de resposta assegurado pelo código eleitoral. Pastor Paschoal, alguém no PT decidiu caminhar a segunda milha com o senhor se isso não acontecer.

Então eu queria pedir para você levar a sério essa questão. Como pastor eu nunca fiz isso. Eu não estou dizendo para você votar em A ou B. Eu vou dizer para você em quem não votar: em pessoas que estejam trabalhando pela iniqüidade em nossa terra.

Porque senão queridos, Deus vai julgar a nossa terra. E se Deus julgar a nossa terra, isso vai acontecer na tua vida na minha vida, porque eu faço parte dessa terra. Porque Deus não tolera iniquidade. Amem? (Aplausos)”

Pastor, nessa carta aberta, eu queria fazer algumas considerações, e agora, considerações finais. Primeiro, parabéns pelos seus 30 anos de ministério. Ninguém pode descrever apenas com palavras as agruras do ministério pastoral. As solidões no meio da multidão, a sobrecarga e as conseqüências visíveis e invisíveis de um dia ter se dedicado integralmente ao ministério pastoral. Segundo, se nunca fez isso nesses 30 anos, passe mais 30 sem fazer ou consulte seus mestres e mentores. E por ultimo, queria contar uma breve historia: Quando houve toda aquela crise desencadeada pelo Dep. Roberto Jeferson, eu pensava com meus botões: “Se o presidente Lula fosse a publico e confessasse seu erro, ou omissão ou incompetência. Se o PT fizesse o mesmo (…). Na minha ignorância das complexidades da política eu creio que o desfecho seria mais limpo e proveitoso para a construção não só de um projeto de longo prazo para o PT, mas para o amadurecimento da nossa frágil democracia”. De volta ao pronunciamento do púlpito da PIB de Curitiba, eu pediria a mesma coisa com todo o amor do mundo: Se o senhor for a publico e prestar alguns esclarecimentos eu creio que será de uma grandeza imensurável e os dividendos disso para as gerações de Cristãos e cidadãos brasileiros serão imensos e colhidos por gerações. Eu quero estar sempre apto a me posicionar, pensar livremente, discutir e sempre que necessário dizer: EU ERREI! É esse meu humilde conselho ao senhor porque eu gostaria de receber tal conselho que só seria dado por alguem que se importasse comigo. Deus nos abençoe das formas mais abrangentes que o Seu infinito e gracioso amor puder, e que isso seja instrumento, não para julgamento, mas para redenção da nossa nação e de nós mesmos.

Fraternalmente,

 

Shalon Riker Lages

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15/09/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Politica Nacional, Textos | 29 Comentários

Dinheiro, sexo e futebol: as 3 coisas que o brasileiro mais gosta (?)

Dinheiro, sexo e futebol: as 3 coisas que o brasileiro mais gosta (?) (não necessariamente nessa ordem)

As pessoas compram uma coisa só. Não importa se compram um sapato, uma BMW ou um ingresso para o teatro, estão comprando uma coisa só. Quem compra uma caneta, uma camisa do seu time ou uma viagem para Nova York está comprando uma coisa só. Os caras que estão tendo sucesso hoje descobriram isso.  Os profissionais mais bem remunerados do nosso mercado são aqueles que sabem explorar esse fato. O que as pessoas estão comprando? Simples…

UMA COISA SÓ

As pessoas compram uma coisa só. Não importa se compram um sapato, uma BMW ou um ingresso para o teatro, estão comprando uma coisa só. Quem compra uma caneta, uma camisa do seu time ou uma viagem para Nova York está comprando uma coisa só. Os caras que estão tendo sucesso hoje descobriram isso.  Os profissionais mais bem remunerados do nosso mercado são aqueles que sabem explorar esse fato. O que as pessoas estão comprando? Simples. Elas estão comprando um estado de espírito, ou se você preferir, um sentimento. Isso vale para quem vai ao estádio assistir um jogo de futebol, ao templo para rezar, e ao shopping para dar uma volta no sábado à tarde.

A grande jogada nessa transação chamada compra e venda é a sensação que as pessoas experimentam durante a negociação. A grande sacada que mantém um produto campeão de vendas é que ele consegue gerar no consumidor uma sensação, um sentimento, um estado de espírito. Ninguém compra caneta apenas para escrever, camisa apenas para cobrir o corpo, ou bolsa apenas para carregar carteira e batom. E, diga a verdade, quando você sai do cinema do mesmo jeito que entrou, sai resmungando que o filme foi uma porcaria. E é exatamente por isso que você diminui a luz da sala e mete um smoth jazz no fundo quando quer relaxar no final do dia. Mudar o estado de espírito, mudar as sensações, gerar novas emoções, sentir alguma coisa, e de preferência diferente do que esta que estou sentindo agora, pois senão eu ficaria no mesmo lugar, ou não compraria o seu produto. Quer saber uma coisa?, o maior benefício de um serviço ou produto não é que  ele faz pelo cliente, mas o que ele faz dentro do cliente. Sacou?

E daí, o que é que eu tenho a ver com isso?, você diria. Bem, se você é consumidor, fique esperto, porque os caras já te descobriram e cada dia ficam sabendo mais coisas a seu respeito: o que você gosta e não gosta, o que faz você chorar, o que te mete medo, e o que você precisa para assinar aquele contrato. Até aí, nada de errado. Desde que você não esteja iludido na transação, isto é, sendo manipulado sem saber. Quer pagar mais, pague. Quer comprar aquela marca, compre. Mas não caia na esparrela de acreditar que aquele algodão com cavalinho é necessariamente melhor do que os algodões sem cavalinho.

Agora, se você é o vendedor, então, meu amigo, você tem que saber uma coisinha a mais. O grande lance de uma venda não está apenas no estado de espírito do consumidor, mas também e principalmente no coração do vendedor. Em outras palavras, o ambiente da compra tem que estar alinhado com a proposta emocional-passional do produto-serviço. É aquela coisa de careca vendendo shampoo para queda de cabelo. O que a maioria dos vendedores ainda não sacou é que vendedor de emoção sem emoção é tão ridículo quanto  gordo vendendo mais uma dieta revolucionária. Todo produto-serviço tem um valor agregado. E o ambiente da transação de sua compra e venda deve refletir esse valor. Ponto.

A BOLA,  A TRANSA E A VENDA

Fui fazer uma palestra para um grupo de atletas. Pedi que eles me descrevessem uma bola feliz. Ficaram em silêncio, e então tentei ajudar, pedindo que dissessem o que poderiam fazer com uma bola de futebol, além de jogar futebol. Um deles disse que poderíamos usar a bola de banquinho, sentando em cima dela. Boa. Outro sugeriu que a gente pode murchar a bola para que ela sirva de peso para a porta não bater com o vento. Boa também. Lá pelas tantas um garoto falou que a bola pode ser uma peça de museu, e nesse caso a gente fica olhando para ela. Maravilhosa. Era tudo o que eu precisava. Perguntei para eles se achavam que a bola do gol mil do Pelé era uma bola feliz. A resposta veio de bate pronto, “Acho que ela foi feliz no dia do gol mil, mas hoje, no museu, deve ser uma bola infeliz”. Bingo. Minha palestra poderia terminar ali mesmo. A conclusão é óbvia: uma bola feliz é uma bola em jogo. E por aí vai: uma pipa feliz é uma pipa ao vento; um peão feliz é um peão girando; um bambolê feliz é um bambolê bailando.

O gol é o orgasmo do futebol, disse Nelson Rodrigues. Mas o gol não é o todo do futebol. O gol, aliás, é o fim do futebol. Cada vez que o gol acontece, começa tudo de novo. Que nem orgasmo. O orgasmo é o fim da transa. Quando o orgasmo acontece, começa tudo de novo (sabe lá depois de quanto tempo, mas começa!). O que quero dizer com isso é que a bola não é feliz apenas  quando estufa as redes em gol. Uma bola feliz é uma bola em jogo. Uma espalmada de mão trocada, uma pancada de três dedos no travessão, uma matada no peito do zagueiro. Imagino como era feliz a bola enquanto Pelé olhava para ela e sussurrava segredos durante o minuto de silêncio. Uma bola feliz é uma bola em jogo. E se o orgasmo está no gol, a graça está no jogo. Assim como o ápice é o gozo, e o prazer é a transa.

Compliquei? Calma lá. Ainda não. Essa era a diferença entre o Garrincha e os caneleiros de plantão. O Garrincha gostava do gol, mas gostava também do jogo. Não valia apenas empurrar para dentro do gol (sem trocadilhos), tinha que ser por baixo das pernas do zagueiro (sem trocadilhos). Além do gol, o jogo. E quanto mais prazeroso o jogo, mais arrebatador o gol. Assim é com a transa, não é? E sabe de uma coisa, assim como tem gente que gosta de fazer gol e não gosta de jogar, também tem gente que gosta de gozar mas não gosta de transar. E mulher nenhuma (penso eu) gosta de transar com esse cara. 

Tudo isso para dizer que todo produto tem um valor agregado. Todo ambiente de compra e venda deve estar alinhado com o valor agregado do produto negociado. O que determina o ambiente não é o fechamento da venda, mas sim o processo da venda. Em tese, o que determina o gol é o jogo bem jogado; o que determina o gozo, é a transa bem transada. E o que determina a venda, é o processo bem negociado. E sabe o que é incrível nisso tudo? Tem gente que gosta de vender mas não gosta de negociar. Não é vendedor, apenas trabalha em vendas, e ninguém quer comprar dele. A graça não está apenas na assinatura do contrato, mas em todo o processo de negociação: fazer conta de cabeça, oferecer um café na hora certa, mudar de assunto e voltar ao prazo depois de dois minutos, mostrar a foto mais uma vez, convidar o consumidor a experimentar o produto, e assim vai, às vezes minutos, outras, horas, e quem sabe, dias, meses e anos, até a assinatura do contrato.

OS CAMPEÕES, OS RATINHOS E OS QUE DERAM CAMBALHOTA

Veja só. O cara entra na sua loja para comprar um carro, e do mesmo jeito que ele vai ter orgulho em mostrar para o cunhado que comprou um GM, você tem que ter orgulho de vender um GM. Produto: carro. Valor agregado: esbanjar o cunhado. Alinhamento do ambiente: aquela cara de “você vai abafar”. Abre paréntesis. Perdoe o exemplo mesquinho, mas não me ocorreu nada melhor. Fecha paréntesis.

A grande questão é como é que você consegue fazer aquela cara, isto é, alinhar o valor do produto com o valor do processo de negociação, gerar o ambiente de trabalho cheio de afeto, alegria e espontaneidade (ou sei lá que valores a sua empresa tem). Conheço caminhos. O primeiro é o mais simples: você faz isso naturalmente, por que você é desse jeito. Quer dizer, você não está transando do jeito que a revista feminina ensinou, você está apaixonado; você não está se movimentando em busca de espaço em campo, como o professor mandou, você é craque; ou, no caso, você não apenas trabalha em vendas, você é vendedor. Isso tem a ver com vocação, coisa de gente que diz “eu nasci para isso”, “eu amo o que faço”, “não me imagino fazendo outra coisa”.

O outro caminho, amigão, é treinamento. Que nem quando eu fui comprar um tênis na loja recém inaugurada no Shopping. Enquanto falava comigo, a moça do caixa era sorridente e atenciosa. Mas quando falava com a colega atrás do balcão, era mal humorada e irritadiça. Perguntei pra ela quanto tempo durara o treinamento. Quinze dias, foi a resposta. Saí de lá com a convicção reforçada: em quinze dias você não consegue mais do que condicionar, padronizar comportamentos, artificializar simpatias, colocar sorrisos de plástico na cara dos outros. 

O caminho do treinamento tem suas variáveis: auto-ajuda, neuro-linguística, conscientização. Mas a melhor prima irmã do treinamento é a motivação: doses diárias, sistemáticas, de estímulos e encorajamentos. Funciona assim: no início do dia você reúne sua equipe de vendas e dá uma dose de motivação na veia de cada um dos seus valentes vendedores; depois, você faz algumas promessas de recompensas; e depois coloca um catálogo bem bonito na mão deles e anuncia sorridente que “a partir de hoje nossa empresa vai deixar vocês estacionarem no subsolo, à sombra”. Depois disso, você solta os ratinhos e fica esperando por eles com outro pedaço de queijo na manhã seguinte. À medida que o resultado vai satisfazendo, você melhora o queijo. E quando a coisa despencar, isto é, os ratinhos não obedecerem mais aos mesmos estímulos, você substitui os ratinhos, é mais fácil, embora muito mais caro.

A VERDADE VERDADEIRA

Fala a verdade. A maioria das empresas que você conhece trabalha desse jeito, não é ratinho? E eu já sei que você está louco para saber como sair desse labirinto e descobrir a terceira via. Pois eu lhe digo já, sem mais suspense. Caso você não seja um vocacionado quase naturalmente campeão, e não agüente mais esta vida de porão e roda com giro falso, sua alternativa libertadora é a autotransformação.

A grande sacada, companheiro, é a seguinte: não importa tanto a qualidade do seu produto se você não é capaz de envolver seu cliente no ambiente certo. A verdade é que seu produto vai embalado não em papel, caixas ou ceras. Seu produto vai embalado em estados de espírito, sensações e sentimentos. E você tem que estar embalado nos mesmos moldes. E para estar embalado nos mesmos moldes, você não pode fazer de conta, primeiro porque a maioria dos clientes logo logo percebe, e depois porque cedo ou tarde você não vai agüentar manter as aparências, o sorriso fingido vai desaparecer da sua cara, indo direto para uma úlcera, ou coisa pior. Para embalar você, seu produto, seu ambiente de trabalho, seus processos e seus relacionamentos, não há substitutos para a autenticidade.

Não importa o que você faz. Importa o que você é. Fingir orgasmo é rota suicida, e ninguém consegue fingir que é craque. No máximo, consegue fazer um gol de placa, sem querer, na maior sorte, e depois “não vende nunca mais”.

Entre o naturalmente feliz e o treinado para ser feliz, está a maioria dos mortais, pessoas como eu e você, que convivem com o desafio da autotransformação e da busca da felicidade. Uma felicidade não artificial, que brota de dentro para fora.

Desculpa aí. Mas já falei demais e esse papo não tem fim. Não quero ensinar um truque. Quero desmascarar alguns. Não quero apresentar uma nova técnica. Quero convidar você a prosseguir numa grande aventura. A aventura de ser. Ser, para poder vender. Ser, para poder viver. Nesse caso, amigão, se você quer andar pelo caminho da autotransformação, você precisa mais do uma palestra, um seminário ou um programa motivacional. Você precisa tomar uma decisão. E depois colocar o pé na estrada, pois a viagem é longa e você não vai chegar lá a menos que dê o primeiro passo. O primeiro passo? Jogar fora os pacotes que venderam pra você. Já é um bom começo.

08/09/2010 Posted by | Ferramentas, Igreja, Liderança, Psicologia, Textos | 6 Comentários