Shalon’s

…em construção…SEMPRE!

SE EU FOSSE MAIS VELHO

Não estou com pressa de envelhecer. Meu pai padece há anos de uma doença que o deixou senil e caquético. A velhice me intimida. Sei que na terceira idade não só perderei a impetuosidade típica dos jovens, como me tornarei mais vulnerável às doenças degenerativas. Mesmo assim espero pelos meus dias de ancião, porque só os velhos podem dizer coisas proibidas aos jovens. Estou ansioso para que chegue o tempo de poder dizê-las.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu diria aos mais jovens que desistam do sonho de galgar a fama em nome de Deus. Contaria que já presenciei o desespero de alguns que, tendo almejado se destacar como referenciais de sua geração, vieram a descer do trem fatigados e destruídos pelo ônus da fama. Descreveria os bastidores de algumas “grandes” agências evangelísticas e de outras para-eclesiásticas, e como me enojei com a petulância de alguns evangelistas famosos. Falaria de minhas lágrimas, quando um deles afirmou que passaria por cima de qualquer pessoa desde que conseguisse estabelecer o que chamou de “reino de Deus”. Incentivaria os jovens a buscarem uma vida discreta, sem o glamour do mundo, a preferirem a senda do Calvário. Pediria que optassem por beber o cálice do Senhor em vez de desejarem os louros da glória humana.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu alertaria aos mais jovens que ambicionam subir os degraus denominacionais sobre o perigo de chegar ao topo sem alma. Narraria os conchavos da política eclesiástica como ridículos e fúteis. Candidamente, contaria casos de traição, logro e delação nas reuniões secretas de algumas cúpulas religiosas. Pediria que fugissem da ganância pela autoridade institucional. Ensinaria a desejarem autoridade espiritual, que não vem de negociatas, mas de uma vida piedosa e íntima com Deus.


 

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Diria aos mais jovens que não se iludissem com o academicismo. Eu lhes revelaria como alguns acadêmicos usam da erudição para se esconderem de Deus. Não teria medo de mostrar que muita bibliografia citada em rodapé de página vem de uma vaidade boba. Algumas pessoas buscam se mostrar mais cultas do que na verdade são. Diria que certos eruditos são pessoas insuportáveis no contato pessoal e que eles também padecem dos mesmos males que todos nós: intolerância, indiferença e muita, muita soberba. Contudo, eu lhes pediria que fossem amigos dos livros. Pediria que lessem muito e diversificadamente; que usassem o conselho de Tiago na busca da sabedoria: “Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. A sabedoria, porém, lá do alto, é primeiramente pura; depois pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”. (Tg 3.13, 17.)


 

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Eu diria aos mais jovens que tomassem muito cuidado para não gastarem todas as suas energias nos primeiros anos de ministério. Exortaria, ilustrando o serviço a Deus como uma maratona e dizendo que não adianta se apressar nos primeiros anos. Contaria os exemplos de tantos que se arrebentaram antes da linha de chegada. Quantos pastores destruíram suas famílias e seus filhos no afã de serem úteis e produtivos! Quando chegaram os anos da meia idade, já estavam estressados e cansados! Falaria daquele dia em que o meu semblante descaiu ao ouvir um pastor dizer que só não saía do ministério porque, já muito velho, não sabia como retornar ao mercado de trabalho. Pediria que não perdessem a oportunidade de passear com os filhos no parque, de ler livros que não os úteis ao ministério, de curtir a sua mulher e de praticar algum esporte. Eu pregaria um sermão baseado em Mateus 16.26 e explicaria que, para Jesus, perder a alma tem um sentido mais amplo do que simplesmente morrer e ir para o inferno. Basearia minha mensagem na afirmação de que um pastor ou evangelista pode ganhar o mundo inteiro e acabar perdendo os afetos do cônjuge, os sentimentos dos filhos e dos amigos, a auto-estima, o sorriso, a capacidade de amar a poesia e de cantar canções de ninar. Enfim, perder a alma!

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Eu diria aos mais jovens que não desejassem o espalhafato espiritual nem as demonstrações exuberantes do poder carismático. Revelaria que alguns desses evangelistas americanos que muitos acreditam superungidos passam a tarde na piscina do hotel em que se hospedam, antes de encenarem a sua superespiritualidade em megaeventos. Não temeria denunciar alguns que se trancam em seus aposentos para assistirem a filmes na televisão e logo depois sobem às plataformas com o ar de santos da hora. Não hesitaria em alardear que muito daquilo que se rotula como demonstração de poder espiritual nasce de uma mentalidade que busca levar as pessoas a uma falsa euforia religiosa.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu diria aos mais jovens que a sexualidade é terreno minado e cheio de armadilhas. Contaria exemplos de ministérios que ruíram pela sensualidade. Alertaria que o grande perigo do sexo não vem da beleza, mas da solidão e do poder. Muitos pastores naufragaram em adultério porque se sentiram sós. Não tinham amigos verdadeiros. Viviam rodeados de assessores, sem um amigo com quem pudessem abrir o coração e pedir ajuda. Eu incentivaria os mais jovens a desenvolverem amizades, preferivelmente fora de seus quintais denominacionais. Suplicaria que fizessem amigos com coragem de falar coisas duras, olhando nos olhos. Lembraria que são fiéis as feridas feitas por aquele que ama.


 

SE EU FOSSE MAIS VELHO… 

Eu diria aos mais jovens que tomassem cuidado com os modismos teológicos, ventos de doutrina e novidades eclesiásticas. Falaria das inúmeras ondas que varreram as igrejas com pretensas visitações de Deus. Vermelho de vergonha, lembraria aquele culto em que se alardeou que Deus estava trocando as obturações por ouro. As pessoas se sujeitavam ao ridículo de investigarem a boca umas das outras e depois, ao confundirem as restaurações amareladas de material de baixa qualidade com ouro, saíam proclamando um milagre de Deus. Relataria a pobreza doutrinária daqueles que jogaram os evangélicos na paranóia da guerra espiritual e ensinaram às mulheres a vigiarem mais durante a menstruação por haver demônios que se alimentam daquele tipo de sangue. Imploraria que se mantivessem fiéis ao leito principal do evangelho, à doutrina dos apóstolos; que não deixassem de pregar a Cruz do Calvário.

SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Eu diria aos jovens que não procurassem imitar ninguém. Lamentaria a tentativa patética de alguns líderes de quererem ser clones de pastores e evangelistas de renome. Mostraria vários exemplos ridículos de igrejas que tentaram reproduzir no sofrido Brasil o modelo de igrejas abastadas dos subúrbios americanos. Admoestaria que soubessem aceitar-se. Pediria que não ficassem procurando repetir gestos, neologismos, tom de voz e maneirismos dos outros, pois acabarão sem identidade. Eu mostraria na Bíblia que Deus não nos cobrará por não havermos ensinado com a destreza de Paulo, ou nos portado com a ousadia de Pedro, ou escrito com o mesmo amor de João. Teremos de prestar contas ao Senhor apenas por não termos vivido nossa própria identidade.


SE EU FOSSE MAIS VELHO…

Diria aos jovens que a obra que Deus tem para fazer em nós é muito maior que aquela que Ele tem para fazer por meio de nós. Diria que somos preciosos como filhos e não como servos. Melancolicamente, falaria que na velhice muitos sentem saudade dos tempos que poderiam ter sido íntimos de Deus, mas acabaram chafurdados nos pântanos de sua própria vaidade. Diria que na velhice muitos choram por saberem que o tempo da partida está próximo e que não escolheram a melhor parte, como fez Maria.

Eu deveria ter esperado para dizer essas coisas quando estivesse mais velho. Por impetuosidade, acabei dizendo antes do tempo. Contudo, acredito que não me arrependerei de tê-las dito agora.

Ricardo Gondim é teólogo brasileiro, presidente nacional da Assembléia de Deus Betesda, presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos

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26/07/2010 Posted by | Igreja, Liderança, Textos | 8 Comentários

ALTEREGO VIRTUAL

Alterego Virtual

A família inteira correu para o computador, quando uma voz nada
familiar invadiu o mezanino da casa onde morávamos. Estávamos em
1997 e eu acabara de fazer minha primeira conexão de voz usando um
programinha paleolítico que veio num disquete de revista. Naquele
tempo os programas de Internet eram baixados das bancas.

A conexão estava por um fio e qualquer solavanco era capaz de
derrubá-la. Quando caía, era preciso ficar discando para o provedor
de Internet até conseguir linha e ouvir o teré-té-té do modem, cuja
embalagem dizia ser “High Speed”.

– Hello? – arrisquei, sem saber com que língua o outro teclava.

– Hi, how are you? – respondeu a voz alienígena dando início a um
papo furado que iria durar mais de uma hora.

Dez anos depois interagir online com pessoas de outros lugares
tinha virado lugar comum. Então alguém inventou uma mescla de game
“Wolfenstein 3D” com shopping, clube de campo e danceteria e
batizou aquilo de O “Second Life”. O serviço prometia a
possibilidade de você ser uma pessoa diferente em um outro mundo,
enquanto interagia com pessoas que não eram o que diziam ser neste
mundo. Em 2007 decidi experimentar a tal da segunda vida.

Digitei http://www.secondlife.com e tentei criar meu Avatar – era assim
que chamavam o bonequinho mal acabado que devia ser a segunda via
de mim. Logo descobri que não podia ser eu mesmo. Podia ser
“Mario”, mas não “Persona”, já que era obrigado a escolher o
sobrenome de uma lista que não tinha o meu. Tinha “Pessoa”, então
decidi ser “Mario Pessoa”. Num mundo virtual em inglês eu virei
português!

Mesmo assim fui barrado. Alguém tinha escolhido ser eu antes de
mim. Voltei para as opções de sobrenome e encontrei um muito
estranho: “Falta”. Na falta da opção de usar meu próprio nome e
sobrenome, digitei “Achei” no campo do nome e escolhi “Falta” por
sobrenome. Beleza, no “Second Life” eu sou o “Achei Falta”. Nem
preciso dizer que o nome estava disponível.

Clica aqui, clica ali, e no campo da data de nascimento, o exemplo
dado era “1980”. Será que nascidos em 1955 eram velhos demais para
brincarem ali? Fiz de conta que não entendi e escolhi um Avatar
nada parecido comigo, por absoluta falta de modelos velhos e
barrigudos. Eram todos jovens e sarados.

Cliquei que li o contrato que não li, e baixei 30Mb de programa…
só para receber um aviso de que minha placa de vídeo era
incompatível! Para quem nasceu em 1955 e tem uma placa de vídeo
igual à minha, pelo jeito a opção é assistir desenho animado em
parede de caverna. Depois dos sem-terra e sem-teto, descobri que
havia os sem-second-life. Eu era um deles.

Achei que não valia a pena investir numa segunda placa só para ter
uma segunda vida, então comecei a pesquisar sobre como seria viver
naquele mundo do faz-de-conta. Seus mais de cinco milhões de
habitantes na época podiam comprar, vender, dançar e viver lá como
nunca conseguiram aqui. Seria uma opção para os frustrados? Os mais
empolgados podiam até pagar aqui, em dinheiro real, por terrenos
virtuais comprados lá, onde não existe IPTU.

Considerando que consegui criar meu Avatar, mas não consegui
entrar naquele mundo virtual, uma coisa me preocupa: Onde andará
meu segundo eu? E mais: Como posso ser eu se não posso estar onde
estou? Será que virei uma alma penada num limbo virtual? Agora vem
a notícia de que o “Second Life” demitiu 30% de sua equipe. Talvez
fosse a chance de eu me encontrar comigo aqui fora, mas descobri
que só demitiram personagens reais, nenhum virtual. Três anos
depois o “Achei Falta” deve sentir muita falta de mim. Ou não.

Para matar a fome de interatividade virtual vou quebrando o galho
com o Skype, tataraneto daquele programinha que fez a família
inteira ficar grudada no micro numa noite qualquer de 1997. Naquela
experiência eletrizante, eu e meu interlocutor não passávamos de
nicknames, mas o papo rolou legal. A coisa só perdeu a graça quando
fiz a pergunta que deveria ter feito logo de início, antes de
passar mais de uma hora conversando em inglês:

– Where are you from?

– São José dos Campos – respondeu ele.

Mario Persona é escritor, palestrante e consultor de comunicação e marketing.

07/07/2010 Posted by | Textos | Deixe um comentário