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…em construção…SEMPRE!

XÔ ESTRESSE

 

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Matar vários leões por dia compromete a saúde de qualquer indivíduo dos tempos modernos, mas é possível amansar feras, controlar a tensão e viver melhor.

Imagine as seguintes situações: um caçador faminto espreitando a caça, um homem pré-histórico fugindo de uma fera, um executivo atrasado preso no trânsito, um jovem vestibulando à espera do resultado da prova. O que esses indivíduos têm em comum? Todos estão passando por um fenômeno biológico, de estímulo externo, e que atinge os sistemas nervoso e endócrino, liberando uma carga extra de hormônios na corrente sangüínea e colocando o indivíduo em um estado alterado. Simplificando, todos estão passando por uma situação de estresse. No entanto, diferentemente do que se convencionou pensar – muito pela abordagem monotemática da mídia –, esse estado não é exatamente um fenômeno exclusivo da vida moderna. “Historicamente, a gente pode associar o seu surgimento ao aparecimento do próprio ser humano”, explica o psicólogo Esdras Guerreiro Vasconcelos, especialista no assunto. “O organismo se desenvolveu para reagir, fugindo ou atacando. Se o motivo fosse a fome, o homem atacava; se ele estivesse sendo ameaçado, ele tinha de fugir daquela situação.” Vasconcelos, que é diretor científico do Instituto Paulista de Stress [a palavra aqui aparece com a grafia em inglês], Psicossomática e Psiconeuroendocrinoimunologia (IPSPP), explica que o fenômeno é primordialmente biológico. “Depois se torna psicológico, na medida em que se desenvolve um núcleo do cérebro, chamado córtex cerebral, que permite ao indivíduo ter estresse – e reagir a ele – psicologicamente.” Ainda segundo sua análise, a própria mudança de estilo de vida causada pela evolução social do homem fez com que o estresse deixasse de ser o da sobrevivência e passasse a ser causado pelas atribulações e pressões típicas de uma vida civilizada, “o que se chama de estresse da vida moderna”, diz. E foi aí que a coisa se complicou: “O problema não é o estresse em si”, continua o especialista.“Mas sim o nível dele e o significado que tem para a nossa vida hoje.” O psicólogo revela ainda que essa “dança” de hormônios e neurotransmissores que caracterizam o estado de estresse é necessária para que tenhamos a mobilização para realizar atividades, resolver problemas, enfim, reagir ao mundo que nos cerca. A dificuldade surge quando o elemento externo causador do estresse se torna maior do que nossa capacidade de lidar com ele. Ou quando a freqüência desses “estímulos” é tamanha que o organismo e a mente não têm mais chances de “descansar” entre uma situação estressante e outra. É um dia que começa com a notícia de uma crise financeira no jornal, logo no café-da-manhã, segue para um congestionamento monstro na ida para o trabalho, continua com toda a pressão que a atividade profissional representa para a maioria, e ainda vai longe, até o último noticiário noturno, quando ficamos sabendo de um crime hediondo ocorrido na data. “O que acontece hoje, e que está adoecendo muito as pessoas, é o estresse crônico, no qual elas se sentem impotentes diante da situação, e não conseguem lidar com ela de uma forma adaptável”, explica a psicóloga e psicoterapeuta corporal Maria de Melo, autora do livro A Coragem de Crescer (Record, 2005), que trata do assunto. “Ou seja, na nossa cultura, você vive constantemente diante de situações muito mais complicadas do que aquilo que a sua estrutura pessoal e social (de consciência, maturidade etc.) consegue resolver. Então, como a coisa volta a toda hora, o indivíduo não chega a desarmar a situação de ‘ataque’. É como se o leão nunca fosse embora.”

Cultura do Excesso

A equação do estresse é talvez mais complexa do que muitos daqueles “problemões” de matemática de arrepiar os cabelos. Isso porque muitas vezes as situações altamente estressantes nos são impostas. Mas, por outro lado, nós mesmos também vamos atrás delas. “Tem gente que se viciou em estresse, por assim dizer”, afirma Esdras Vasconcelos. “Hoje em dia é chique você dizer que não tem tempo para nada e que vive estressado. Isso pertence ao ‘kit de importância’ da pessoa. Isso dá status social. Se um sujeito é um executivo de altíssima posição, tem dois ou três celulares, duas ou três secretárias, uma Mont Blanc [sofisticada, e cara, marca de canetas], um Rolex no pulso, dirige uma BMW e não é estressado, tem alguma coisa errada com ele”, brinca Esdras Vasconcelos, para dizer que o mundo moderno cobra caro pelo êxito pessoal e financeiro. “Dependendo da saúde da pessoa – aí entra a história de vida, o equilíbrio entre descanso e atividade, a carga biológica, e mesmo a estrutura de personalidade – primeiramente ela vai desenvolver sintomas sociais para depois ficar fisicamente doente. Mas, claro, vai ser uma pessoa de sucesso.” E não é apenas o aspecto profissional dos indivíduos que pode ser “contaminado” pelo vírus do estresse. Nosso tempo livre também corre risco se não cuidarmos bem dele. “Ninguém precisa ter 128 canais à disposição, receber milhares de e-mails, isso é uma poluição altamente prejudicial porque mobiliza, dentro do organismo, uma certa quantidade de hormônios de estresse”, alerta Vasconcelos. “Quando você lê uma notícia, aquilo não é um ato intelectual abstrato, é algo que implica corpo e mente. Resulta numa mobilização de hormônios específicos para o cérebro para que você possa entender aquilo que você está lendo. É que a gente não pensa nisso na hora que vai esmiuçar as notícias ruins da mídia.” O quadro ainda se agrava quando somamos uma característica do ser humano à qual muitos sucumbem: a curiosidade mórbida – a atração por fatos e notícias negativas. A psicoterapeuta Maria de Melo explica: “A desgraça do outro dá uma sensação de energia. É como um movimento. O indivíduo está ali parado, quando ele vê a desgraça, aquilo o alimenta, por isso eu falo em vampirismo. Não é diferente de, por exemplo, você procurar um excesso de diversão ou você ser ‘viciado’ em brigar. Tudo isso dá a sensação de que você está vivo, tem um mínimo de movimento num campo onde está tudo parado.”

Nova Atitude

No entanto, é possível buscar – e achar – vida e bem-estar movido por um sentimento bem mais positivo do que a curiosidade mórbida. O segredo está na mudança de atitudes e de hábitos. “Tem gente que não se estressa no trânsito, por exemplo”, comenta Vasconcelos. “Pense, por exemplo, num congestionamento. Na verdade, temos aí pelo menos dois fatores de estresse: o atraso e a sensação de imobilidade. Só que você pode encontrar uma pessoa que vá sair do carro para ver o que está acontecendo, vá buzinar, tentar passar na frente, enquanto outra pode aproveitar para pôr a leitura em dia, ouvir uma música e dizer ‘não posso fazer nada, isso é São Paulo’.” Maria de Melo propõe um equilíbrio na relação com os fatos e problemas do mundo. Segundo ela, é essencial saber que os indivíduos fazem parte deles, mas não devem se deixar consumir. “Acompanhar a queda da bolsa e a alta do dólar achando que vai morrer por causa disso é loucura, mas é preciso saber que não existe nada que aconteça em nenhum lugar do mundo que não reflita em cada um de nós. A consciência da interconexão num determinado ponto é importante”, diz. Por outro lado, a psicoterapeuta garante que cada um de nós pode tornar-se um instrumento de mudança. Ou seja, fazer a sua parte para um mundo melhor também desestressa. “Hoje em dia está se impondo uma mudança da estrutura humana, e que deve começar em cada pessoa”, analisa. “Um novo caminho que vai nos levar a perceber o valor da colaboração, saber que não adianta apertar demais o outro, que estamos todos no mesmo barco. Se você está na primeira classe e eu estou na terceira, nesse momento, essa diferença não importa mais, porque o barco está para afundar. Vejo isso como solução planetária para o estresse.” Além da mudança de atitudes de longo prazo, algumas ações imediatas podem nos ajudar a relaxar depois de um dia estressante. “Se você quiser uma recomendação prática, posso começar dizendo para pegar o relógio que você tem na cabeceira da cama e virá-lo para a parede”, indica Esdras Vasconcelos. “Porque, assim, se você acordar de noite, você não vai fazer as contas de quantas horas você já dormiu e quantas horas você ainda tem pela frente. Isso estressa.” Entre as sugestões do psicólogo encontram-se também procurar evitar notícias chocantes antes de dormir, praticar atividades físicas (veja boxe No stress), dormir bem, garantir que o tempo livre seja ocupado com atividades prazerosas e com descanso e, claro, evitar o trânsito em horas de grande congestionamento – a edição de dezembro de 2007 da Revista E contém algumas dicas sobre esse assunto, acesse o conteúdo no site do Sesc (www.sescsp.org.br).

21/09/2009 Publicado por shalonlages | Liderança, Psicologia | | Sem comentários ainda