SUSAN BOYLE E O ELO PERDIDO

Das duas, uma: ou aquela figura neandertalesca, de cabelos
desgrenhados e olhos miúdos entre sobrancelhas cerradas e maçãs
salientes, é uma pegadinha, ou o programa “Britain’s Got Talent”
acaba de encontrar o elo perdido.
Das duas, nenhuma. Aquela caricatura de mulher é Susan Boyle e sua
presença no palco abre um tonel de zombarias. Quando Susan revela
seu sonho de ser cantora profissional, como a canadense Ellen Page,
com metade da sua idade e um terço do seu peso, a plateia debocha.
No júri, a atriz Amanda Holden, emoldurada pelo cético Piers
Morgan e pelo acético Simon Cowell, se esforça para fazer cara
neutra de paisagem, mas seu belo rosto parece dizer: “Isso vai ser
divertido”. Pelo menos até a voz de Susan acentar os primeiros
acordes de “I dreamed a dream”. Aí o queixo de Amanda cai,
literalmente.
A platéia vai ao delírio. Em poucos dias Susan Boyle é vista mais
de cem milhões de vezes no Youtube e muito mais na mídia global. O
título da obra de Victor Hugo, “Os miseráveis”, que a canção evoca
é emblemático.
Susan Boyle é uma miserável cantando para miseráveis. Feia,
deficiente e sem jamais ter tido um namorado, ela é tudo aquilo que
nenhum de nós gostaria de ser, mas somos. Quando começa a cantar,
porém, até Amanda Holden quer ser Susan. Ela aplaude de pé, e o
jogo de câmeras contrasta o seu corpo esguio com a silhueta de
canhão que ribomba no palco.
Talvez o correto não seja dizer que ’somos’ miseráveis, mas sim
que ‘estamos’ miseráveis, do mesmo modo que hoje Susan ‘está’ feia
e Amanda ‘está’ linda. Em cinquenta anos o corpo de Amanda, hoje
sensual, também será canhão, e sua pele, agora de pêssego, se
transformará num maracujá de gaveta. Os miseráveis no júri e na
plateia aplaudem porque torcem por Susan e por si mesmos,
igualmente carentes de amor e perfeição, ainda que sob diferentes
camadas cosméticas.
Estranho ser, esse humano! Almejamos padrões de bondade, justiça e
beleza que sempre estão muito acima do que podemos alcançar. De
onde será que vem isso? Vivemos na terra, mas de olho nas estrelas,
porque trazemos em nós um sentimento de infinitude. É como se Deus
tivesse plantado a eternidade em nossos corações. Se é que não
plantou.
O paradoxo, porém, é que esse mesmo humano, capaz de proezas do
talento e do pensamento infinitamente superiores a qualquer outro
ser vivo, também é capaz de atrocidades nunca vistas na mais
medonha fera irracional. Matamos nossos filhos para comê-los no
jantar, mas também criamos um número infinito de filigranas a
partir das mesmas e perfeitas sete notas musicais, como Susan faz
no palco.
E ao cantar, ela nos lembra de que existe no humano uma dignidade
além do que aparentamos ser. Trata-se do sopro divino, algo que
nenhum animal recebeu. Por isso Deus não desistiu de sua criação e
quis Se revelar em humanidade numa Pessoa perfeita, Jesus, ainda
que miserável em sua tez exterior.
É por isso que torcemos por Susan Boyle, como quem torce pela Fera
da Bela, pelo Corcunda de Notre Dame e pelo Frodo dos pés peludos
de “O Senhor dos Anéis”, vivendo sob a contínua tentação do anel.
Nós nos identificamos com heróis fracassados porque acreditamos que
ainda podemos ser amados, resgatados e transformados desta
miserável condição. É como se sentíssemos saudade do Paraíso.
Susan Boyle não é o elo perdido. Ela apenas revelou que o elo
existe, mas não com algum símio ancestral. Sob aquela semelhança
feia, miserável e transitória foi possível ver um ser criado à
imagem de Deus. Quem estava no palco não era uma pessoa estranha.
Naquele palco eu vi a mim mesmo, como Deus me vê e me ama. E também
vi você.
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Assista no site do programa Britain’s Got Talent a versão completa
do programa com Susan Boyle:
http://talent.itv.com/videos/video/item_200081.htm
Assista aqui a versão legendada em português:
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